O papel das potências médias
Brasil e Canadá falam publicamente sobre ruptura da ordem internacional e da formação de alianças e parcerias, mas esbarram em limitações políticas e econômicas e em interesses divergentes

Os EUA que, depois do final da guerra, em 1945, ajudaram a construir a ordem econômica e a nova ordem política global, segundo seus próprios interesses, são responsáveis agora pela ruptura dessa ordem, em função das políticas e ações do governo Trump, de acordo com a Estratégia de Segurança Nacional e de Defesa Nacional.
Por uma série de razões que têm a ver com limitações estruturais e interesses divergentes, até agora não houve um movimento organizado por parte dos países afetados para fazer face ao atropelo trumpiano das instituições e das regras que nos últimos anos foram perdendo eficiência e representatividade e agora praticamente foram esvaziadas, como é o caso da ONU e da OMC.
‘O discurso do primeiro-ministro do Canadá chamou a atenção pela convocação das potências médias para a ação na defesa de seus interesses’
O discurso eminentemente político do primeiro-ministro do Canadá no fórum econômico de Davos chamou a atenção pela sua importância e pela convocação das potências médias (Middle Powers) para a ação na defesa de seus interesses.
Muito pode ser dito sobre as análises e comentários feitos por Mark Carney, que denunciou a ficção da ordem mundial baseada em regras, embora não pode deixar de ser lembrado que todos os países, inclusive o Canadá, aceitaram até aqui essa situação, desde que a agressiva conduta dos EUA afete outros países.
Somente agora que os países ocidentais, da Europa e das Américas, estão sofrendo as consequências das políticas dos EUA, ocorre a denúncia dessa ruptura. Carney observa que as potências médias teriam influência significativa no contexto do sistema global, caso decidam reagir à farsa. Para isso, as potências médias deveriam ter a capacidade ou a vontade politica de formar uma aliança significativa ou uma coordenação efetiva para se contrapor as políticas agressivas de Washington, o que não existe até aqui.
‘Uma ação coordenada das potências médias demandaria uma coordenação ampla com uma proposta clara de reação dos países envolvidos, o que esbarraria em limitações políticas e econômicas e em interesses divergentes’
O pronunciamento de Carney expressou um ponto de vista pessoal, embora representando o sentimento geral. O problema é que a sugestão de uma ação coordenada das potências médias demandaria uma coordenação ampla com uma proposta clara de reação dos países envolvidos. Uma atitude desse porte neste momento esbarraria em limitações políticas e econômicas e em interesses divergentes, o que tornaria muito difícil coordenar uma ação conjunta contra os EUA.
No caso do Brasil, apesar de ser uma potência média relevante e do protagonismo que o presidente Lula busca ter em um ano eleitoral, dificilmente o governo brasileiro aceitaria participar de uma coordenação entre potencias médias quando o governo brasileiro procura fazer gestos para evitar uma confrontação com Washington, apesar das implicações negativas da ressuscitada Doutrina Monroe.
A ideia, contudo, não poderá ser abandonada, caso o Brasil venha a entrar na mira de Trump e de Marco Rubio.
Pela sua relevância, transcrevo aqui os últimos parágrafos do discurso de Carney.
“Sabemos que a velha ordem não voltará. Não devemos lamentá-la. A nostalgia não é uma estratégia. Mas acreditamos que, a partir da ruptura, podemos construir algo maior. Melhor. Mais forte. Mais justo. Essa é a tarefa das potências médias. Os países que mais têm a perder com um mundo de fortalezas e que mais têm a ganhar com uma cooperação genuína. Os poderosos têm o seu poder. Nós também temos algo. A capacidade de parar de fingir. De nomear a realidade. De fortalecer nossa base interna e agir em conjunto. Esse é o caminho do Canadá. Nós o escolhemos abertamente, com confiança, e é um caminho aberto a qualquer país disposto a trilhá-lo conosco”.
‘Lula ressaltou que a região vive um momento de maior retrocesso em matéria de integração e defendeu a ideia da formação de um bloco econômico, superando as divergências ideológicas para construir parcerias’
Nesta semana, América Latina e Caribe fizeram sua versão de Davos no Panamá. O presidente Lula criticou as investidas neocoloniais por busca de recursos estratégicos na região, a criação de zonas de influência e o uso da força. Lula ressaltou que a região vive um momento de maior retrocesso em matéria de integração e defendeu a ideia da formação de um bloco econômico, superando as divergências ideológicas para construir parcerias.
Esse discurso vai na linha do pronunciamento do primeiro-ministro do Canadá, no mesmo momento em que o secretário da Guerra dos EUA voltou a ameaçar os “parceiros dos EUA na América do Sul e Central com ações focadas e decisivas, caso esses países não façam sua parte na defesa de nossos interesses compartilhados”.
A proposta de Lula corre o mesmo risco da feita por Carney em Davos.
Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.
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