17 janeiro 2023

O plano de Putin para impedir que a Ucrânia se virasse para o Ocidente falhou – Pesquisa mostra que o apoio à Otan está no nível mais alto de todos os tempos

A invasão russa da Ucrânia foi um fiasco militar e acelerou o alinhamento ucraniano com as instituições euroatlânticas – especialmente a Otan. Dados revelam as mudanças de atitudes das mesmas pessoas antes e depois da invasão e indicam que os ucranianos que antes viam seu futuro voltado para a Rússia agora estão cada vez mais olhando para o Ocidente 

A invasão russa da Ucrânia foi um fiasco militar e acelerou o alinhamento ucraniano com as instituições euroatlânticas – especialmente a Otan. Dados revelam as mudanças de atitudes das mesmas pessoas antes e depois da invasão e indicam que os ucranianos que antes viam seu futuro voltado para a Rússia agora estão cada vez mais olhando para o Ocidente 

Ucraniano caminha sobre destroços de prédio bombardeado em Borodyanka (Foto: CC)

Por Kristin M Bakke, Gerard Toal, John O’Loughlin e Kit Rickard*

Quando Vladimir Putin enviou sua máquina de guerra para a Ucrânia em fevereiro passado, uma das razões que ele deu para a invasão foi garantir o status neutro da Ucrânia e impedir que o governo aproximasse o país ainda mais do Ocidente. Embora haja mais por trás dessa guerra, o líder russo há muito expressa preocupação sobre a possibilidade de a Ucrânia buscar uma cooperação militar mais próxima com a Otan, com vistas a eventualmente ingressar na aliança. A “operação militar especial” visava impedir isso.

Mas dez meses de guerra sangrenta tiveram o efeito inverso. Há agora uma pegada militar da Otan maior do que nunca na Ucrânia. O apoio militar – de equipamentos médicos a treinamento e armamento avançado – ultrapassou US$ 20 bilhões somente de Washington.

Isso – e a incapacidade da Rússia de derrubar o governo ucraniano nos primeiros dias da guerra – são amplamente aceitos como grandes erros estratégicos da Rússia. Putin superestimou a extensão do apoio da Rússia entre o povo ucraniano e subestimou a força da identidade nacional ucraniana. Mas como a guerra afetou as atitudes em relação à neutralidade e à Otan entre os ucranianos comuns?

‘Putin superestimou a extensão do apoio da Rússia entre o povo ucraniano e subestimou a força da identidade nacional ucraniana’

Dados da nossa pesquisa traçando as atitudes das mesmas pessoas antes e depois da invasão mostram que os ucranianos que antes viam seu futuro voltado para a Rússia agora estão cada vez mais olhando para o Ocidente. O apoio à adesão à Otan está em alta, e os ucranianos que anteriormente favoreciam a neutralidade não o fazem mais. Essas tendências são particularmente nítidas entre os entrevistados mais jovens.

Em 2019-2020, conduzimos um conjunto de pesquisas de opinião pública nacionalmente representativas em vários estados do “exterior próximo” da Rússia. Dado que o governo russo há muito usa mecanismos de soft power (como mídias sociais e televisão pró-Rússia, a igreja e a sociedade civil) para tentar convencer os cidadãos desses países de que fazem parte do “mundo russo”, queríamos avaliar as orientações geopolíticas das pessoas comuns.

Quando elaboramos o projeto em 2017, planejávamos realizar duas rodadas de pesquisas para mapear se e como as mudanças geopolíticas afetavam a visão das pessoas ao longo do tempo. Em cooperação com o Instituto Internacional de Sociologia de Kyiv, realizamos a primeira pesquisa na Ucrânia em dezembro de 2019 (financiada pela US National Science Foundation) e, em outubro de 2022, realizamos uma pesquisa de acompanhamento (financiada pelo Norwegian Research Council).

https://interessenacional.com.br/edicoes-posts/o-conflito-russia-ucrania-trara-o-renascimento-dos-nao-alinhados/

Devido à guerra, a pesquisa de acompanhamento foi feita por telefone, em vez de cara a cara. Conseguimos entrevistar novamente quase 20% dos entrevistados em 2019. Para permitir uma amostra representativa também em 2022, usamos amostragem aleatória para completar a amostra.

Coletar a opinião pública é especialmente desafiador em um ambiente de conflito. Embora nossas pesquisas apresentem uma oportunidade única para analisar como a guerra da Rússia na Ucrânia mudou a opinião pública, há pelo menos dois desafios que exigem cautela.

Primeiro, os 20% que ouvimos novamente podem ser sistematicamente diferentes dos 80% que não pudemos entrevistar uma segunda vez. Esses 80% provavelmente fazem parte do número histórico de pessoas que foram deslocadas à força na Ucrânia ou fugiram para o exterior. Da mesma forma, muitos entrevistados ouvidos em 2019 podem ter ingressado no exército ucraniano e, portanto, não participaram da pesquisa de 2022. Portanto, podemos estar capturando os menos afetados pela guerra – que podem ter pontos de vista diferentes dos mais afetados.

https://interessenacional.com.br/edicoes-posts/a-industria-global-de-armas-esta-sendo-sacudida-pela-guerra-na-ucrania-e-china-e-eua-parecem-ganhar-com-tropecos-da-russia/

Em segundo lugar, devemos ser cautelosos com as opiniões professadas das pessoas em tempos de guerra, quando o desejo de ser visto como “unindo-se em torno da bandeira” induz um forte desejo de expressar atitudes patrióticas.

A guerra de Putin saiu pela culatra

Com essas ressalvas em mente, se olharmos para os entrevistados que foram ouvidos novamente ou para a amostra completa, vemos uma clara orientação para o Ocidente entre dezembro de 2019 e outubro de 2022. Em ambas as pesquisas, pedimos aos entrevistados que colocassem onde seu país deveria estar uma escala imaginária de dez pontos entre o Ocidente e a Rússia, mostrada na Figura 1.

Nossos dados mostram que a invasão da Rússia pouco fez além de encorajar os ucranianos a se voltarem para o Ocidente. A invasão e a guerra brutal – incluindo crimes de guerra, alvejamento de civis e infraestrutura civil, crianças deslocadas à força para a Rússia e deslocamento em massa – fizeram, talvez sem surpresa, pouco para convencer as pessoas olharem para o futuro na Rússia.

‘Nossos dados mostram que a invasão da Rússia pouco fez além de encorajar os ucranianos a se voltarem para o Ocidente’

Essa tendência é particularmente acentuada entre aqueles com idade entre 18 e 30 anos, entre os quais quase 47% acham que a Ucrânia deveria ser orientada para o Ocidente, em comparação com apenas 3% que acham que ela deveria ser orientada para a Rússia.

Figura 1: respostas de 2019 e 2022 a uma pergunta que pedia aos entrevistados que colocassem a Ucrânia em uma escala imaginária de dez pontos entre o Ocidente e a Rússia, entre os 429 entrevistados em ambas as pesquisas (à esquerda) e nas amostras completas (à direita).

Com relação à Otan e à neutralidade, vemos uma mudança semelhante. consistente

com outras pesquisas de opinião pública que, durante anos, mostraram apoio à adesão à Otan em 30-40%, nossa pesquisa de 2019 mostrou que o apoio à adesão à aliança era de cerca de 44%. Mas em nossa pesquisa de outubro de 2022, oito meses após a invasão, a proporção de entrevistados a favor da adesão foi de 77%.

Como se poderia esperar, em outubro de 2022, a neutralidade havia se tornado menos atraente para muitos ucranianos do que em 2019, quando mais pessoas viam a neutralidade como a opção preferida. Agora há uma clara maioria contra a neutralidade.

O apoio é especialmente alto entre os mais jovens na amostra completa em 2022 – mais de 70% dos entrevistados com idades entre 18 e 30 discordaram da afirmação de que seria “melhor para a segurança de nosso país ser neutro e ficar fora de alianças militares ”.

Figura 2: Respostas de 2019 e 2022 à pergunta ‘É melhor para a segurança do nosso país ser neutro e ficar fora de alianças militares’, entre os 20% entrevistados em ambas as pesquisas (à esquerda) e nas amostras completas (à direita).

A invasão russa da Ucrânia foi um fiasco militar para a Rússia. Também acelerou o processo que pretendia evitar: o alinhamento da Ucrânia com as instituições euro-atlânticas – especialmente a Otan. Atacando um país onde a maioria das pessoas antes da guerra via com bons olhos a neutralidade e ceticismo em relação à Otan, a invasão de Putin conseguiu inverter esse sentimento.


*Kristin M Bakke é professora de ciência política e relações internacionais na UCL;

Gerard Toal é professor de governo e relações internacionais na Virginia Tech;

John O’Loughlin é professor de geografia na University of Colorado Boulder;

Kit Rickard é pesquisador na UNU-WIDER, UCL


Este texto é uma republicação do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original, em inglês.


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional


Daniel Buarque é editor-executivo do portal Interesse Nacional. Pesquisador no pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP), doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. Jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de livros como "Brazil’s international status and recognition as an emerging power: inconsistencies and complexities" (Palgrave Macmillan), "Brazil, um país do presente" (Alameda Editorial), "O Brazil é um país sério?" (Pioneira) e "o Brasil voltou?" (Pioneira)

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