O terceiro choque do petróleo e a Guerra do Golfo III
As lições iniciais da Guerra do Golfo III apontam para uma transformação estrutural cujo eixo central é a energia. Se 1973 levou à construção de mecanismos de estabilização e 2001 à busca por autonomia, o momento atual revela um cenário distinto: um sistema em que tais instrumentos mostram limites claros. A segurança energética deixa de ser um problema passível de coordenação centralizada e passa a refletir a fragmentação do sistema internacional

1. Introdução: o terceiro choque e a redefinição da relação entre energia e poder
Este artigo parte de uma proposta interpretativa: a de que o sistema internacional atravessa, neste momento, um terceiro grande choque do petróleo. Mais de cinquenta anos após 1973, e quase um quarto de século após os atentados de 11 de setembro de 2001, a relação entre energia e poder volta a ser reconfigurada — não como repetição dos episódios anteriores, mas como uma nova etapa de transformação estrutural.
O primeiro choque revelou a energia como instrumento de poder e levou à construção de mecanismos de estabilização. O segundo impulsionou a busca por autonomia, especialmente por parte dos Estados Unidos, por meio da revolução do shale. O momento atual, no entanto, apresenta uma característica distinta: o risco geopolítico deixa de ser episódico e passa a ser incorporado de forma permanente ao funcionamento do sistema energético global.
‘Mais do que uma sequência de conflitos no Oriente Médio, trata-se de um fenômeno que combina disputa regional, competição entre grandes potências e transformação estrutural do setor energético’
Sustenta-se aqui que este terceiro choque encontra sua expressão mais visível naquilo que se define como Guerra do Golfo III. Mais do que uma sequência de conflitos no Oriente Médio, trata-se de um fenômeno que combina disputa regional, competição entre grandes potências e transformação estrutural do setor energético.
Essa leitura insere o conflito atual em um contexto mais amplo de fragmentação do sistema internacional, no qual, conforme sugerido pela ideia de um mundo G-Zero, nenhuma potência possui capacidade ou disposição para prover estabilidade de forma consistente. Nesse ambiente, energia e segurança deixam de ser dimensões separadas e passam a constituir um mesmo campo de disputa.
2. A configuração regional pré-guerra: convergência estratégica e contenção do Irã
Desde o início da década de 2010, os Estados Unidos vinham sinalizando uma reorientação estratégica por meio da política de “Pivô para a Ásia”. Ao priorizar o Leste Asiático diante da ascensão da China, Washington reduziu relativamente sua centralidade no Oriente Médio, criando espaço para rearranjos regionais.
Ao mesmo tempo, consolidou-se uma dinâmica de rivalidade marcada pela expansão da influência do governo do Irã, por meio do chamado “arco de resistência”, e pela reação das monarquias do Golfo. Nesse contexto, ocorreu uma transformação estrutural: a aproximação entre Israel e essas monarquias, baseada na percepção comum da ameaça iraniana.
Os Acordos de Abraão, firmados em 2020, institucionalizaram esse movimento. A questão palestina foi progressivamente deslocada para um plano secundário. A possível normalização entre Arábia Saudita e Israel representaria o ponto culminante dessa reconfiguração — uma mudança tectônica no equilíbrio regional.
3. O gatilho do conflito: ruptura deliberada da ordem emergente
Os ataques do Hamas devem ser compreendidos como uma ação estratégica voltada a interromper essa trajetória. Ao provocar uma resposta militar massiva de Israel, inviabilizou-se politicamente a continuidade da normalização saudita e abriu-se espaço para uma escalada de caráter regional.
Nesse sentido, o conflito não representa apenas mais um episódio de violência, mas o ponto de ruptura de uma ordem emergente.
4. A Guerra do Golfo III: definição e dinâmica
A expressão “Guerra do Golfo III” é empregada aqui não apenas como referência cronológica, em relação aos conflitos de 1991 e 2003, mas como uma categoria analítica.
‘O conflito atual caracteriza-se pela combinação de guerra interestatal, ação indireta e participação de múltiplos atores estatais e não estatais, articulados em redes’
Diferentemente das guerras anteriores, centradas na ação direta de grandes potências contra Estados específicos, o conflito atual caracteriza-se pela combinação de guerra interestatal, ação indireta e participação de múltiplos atores estatais e não estatais, articulados em redes.
Trata-se, portanto, de um conflito regionalizado, com efeitos sistêmicos, no qual a disputa pelo ordenamento do Oriente Médio se dá de forma fragmentada e sem um centro claro de controle. Essa configuração é consistente com o diagnóstico de um sistema internacional em transição, marcado pela ausência de uma potência capaz de impor ou sustentar uma ordem estável.
5. As múltiplas dimensões das consequências
As lições iniciais da Guerra do Golfo III revelam-se em diferentes planos interconectados.
No plano político, observa-se o colapso simultâneo de três projetos: a solução de dois Estados, a normalização entre Israel e as monarquias do Golfo e a possibilidade de acomodação entre árabes e iranianos. O resultado é o retorno a uma lógica de rivalidade aberta.
No plano militar, a guerra expõe limites da arquitetura de segurança vigente. O papel dos Estados Unidos como estabilizador é colocado em xeque, enquanto estratégias assimétricas — baseadas em drones, mísseis e ações indiretas — demonstram elevada eficácia. Isso sugere uma transformação estrutural na natureza do poder militar.
‘Ao influenciar o comportamento do governo do Irã em direção a um cessar-fogo, Pequim demonstra capacidade de atuar na estabilização regional por meios não militares’
No plano diplomático, a atuação da China representa uma mudança qualitativa. Ao influenciar o comportamento do governo do Irã em direção a um cessar-fogo, Pequim demonstra capacidade de atuar na estabilização regional por meios não militares, ampliando seu papel no sistema.
No plano econômico regional, a instabilidade compromete projetos de diversificação, como a Visão 2030 saudita, que dependem de previsibilidade. A tendência é de reforço da centralidade do petróleo.
No plano econômico global, o impacto é ainda mais profundo. A Guerra do Golfo III deve ser compreendida como o principal catalisador do terceiro choque do petróleo. Diferentemente dos choques anteriores, seu efeito não decorre apenas de interrupções físicas de oferta, mas da incorporação permanente do risco geopolítico aos mercados energéticos. O Golfo deixa de ser percebido como fornecedor estruturalmente confiável.
Esse movimento ocorre em paralelo a uma transformação mais ampla da economia internacional. Como argumenta o economista Eswar Prasad, professor da Cornell University e pesquisador do Brookings Institution, a globalização deixou de funcionar como um fator de integração capaz de mitigar rivalidades e passou a refletir — e, em muitos casos, intensificar — divisões geopolíticas. Fluxos de comércio, capital e investimento passam a seguir alinhamentos estratégicos, e não apenas critérios de eficiência econômica.
‘Energia deixa de ser apenas um mercado global integrado e passa a ser estruturada por blocos, alianças e zonas de influência’
Nesse novo contexto, o setor energético assume papel central. A reorganização das cadeias de suprimento, a busca por “friend-shoring” e a adoção de políticas industriais voltadas à segurança econômica reforçam a tendência de fragmentação. Energia deixa de ser apenas um mercado global integrado e passa a ser estruturada por blocos, alianças e zonas de influência.
Isso desencadeia uma resposta dual: de um lado, acelera-se a busca por alternativas energéticas — renováveis, nuclear e armazenamento — como instrumentos de segurança; de outro, observa-se a continuidade, e mesmo a ampliação, de investimentos em petróleo e gás, dada a necessidade imediata de estabilidade. O resultado é um sistema energético mais complexo, híbrido e volátil.
Nesse contexto, merece atenção os desdobramentos dessa crise dual de energia, em dimensão geopolítica bem renovada.
Com toda atenção voltada à guerra no Oriente Médio um movimento envolvendo Cuba passou menos destacado. No auge da pressão de embargo total dos EUA à economia cubana, especialmente petróleo, o petroleiro russo, Anatoly Kolodkin atracou em Cuba em 31 de março de 2026, transportando 730 mil barris de petróleo bruto para aliviar a crise energética da ilha. Era a primeira ruptura do bloqueio de combustíveis pelos EUA iniciado em janeiro, após a invasão da Venezuela, a maior fornecedora (a rigor a única) de óleo combustível para Havana.
Oficialmente ocorreu uma autorização da Guarda Costeira americana para essa entrega. Porém, três dias depois Havana recebeu um segundo cargueiro russo, esse iniciando viagem em Hong Kong até o porto de Mariel em Cuba. Nele estavam painéis solares de energia fotovoltaica de origem chinesa para reduzir a dependência energética cubana com petróleo. Em janeiro de 2026 a China já tinha entregado outra carga de painéis solares à Cuba.
6. Conclusão: energia, fragmentação e o novo padrão sistêmico
As lições iniciais da Guerra do Golfo III apontam para uma transformação estrutural cujo eixo central é a energia.
Se 1973 levou à construção de mecanismos de estabilização e 2001 à busca por autonomia, o momento atual revela um cenário distinto: um sistema em que tais instrumentos mostram limites claros. A segurança energética deixa de ser um problema passível de coordenação centralizada e passa a refletir a fragmentação do sistema internacional.
Essa fragmentação tem, também, complexa face econômica.
O Banco Central Europeu fez alerta enfático dos efeitos da crise do petróleo ao divulgar que os Índices de Preços de março jogaram a inflação a 2,5% na zona do euro, para “fora da meta” de 2%. Em fevereiro o BCE enfatizou a conquista de 1,9% de inflação no bloco. O Federal Reserve (FED), o BC americano fez alerta semelhante, ao apontar que o galão de gasolina que tinha preço médio nos 50 estados de US$2,99 em 28 de fevereiro, alcançou US$ 4,01 em 2 de abril.
‘Sem esquecer os mais variados aspectos financeiros: quanto maior for a dependência de petróleo, maior será a desvalorização da moeda em relação ao dólar’
O aumento no óleo diesel nos EUA, nas mesmas datas, foi ainda mais contundente. O comunicado do FED lembrou explicitamente que o impacto da inflação sobre o consumo é forte e, nesta realidade, a economia reduz seu crescimento com risco de entrar em recessão. Sem esquecer os mais variados aspectos financeiros: quanto maior for a dependência de petróleo, maior será a desvalorização da moeda em relação ao dólar. O exemplo mais forte desse impacto é o do Japão, ou o da Índia, países que já foram obrigados a adotar explícitos movimentos de defesa de suas moedas para frear a especulação resultante da alta do petróleo.
Em termos de impacto nas expectativas econômicas, com fortes reflexos na estabilidade social em diferentes países, é significativa a previsibilidade de um ciclo de pressão simultânea com inflação em movimento de alta e economia em perspectiva de baixa para conter a alta dos preços. Estagflação tem reconhecidas consequências nos processos de decisão política, com forte impacto em revisões orçamentárias. O choque energético está apenas iniciando um ciclo de renovação de lideranças políticas em todo planeta.
‘O terceiro choque do petróleo não é apenas mais um episódio de crise, mas a expressão de uma nova lógica sistêmica’
Nesse contexto, o terceiro choque do petróleo não é apenas mais um episódio de crise, mas a expressão de uma nova lógica sistêmica. Energia e poder tornam-se novamente indissociáveis, mas agora em um ambiente no qual não há ator capaz de organizar de forma consistente a ordem global.
A Guerra do Golfo III, nesse sentido, não apenas reconfigura o Oriente Médio, mas marca o momento em que a estabilidade energética deixa de ser um pressuposto e passa a ser uma variável estruturalmente incerta — e permanentemente disputada.
Gunther Rudzit e Leonardo Trevisan são professores do curso de Relações Internacionais da ESPM
Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional