03 abril 2026

Política dos EUA em relação ao Brasil

A agenda de encontros e desencontros entre os dois países está crescendo

Foto: Casa Branca

As relações dos EUA com o Brasil passaram a ser sensivelmente afetadas com a eleição do presidente Donald Trump. Desde de 20 de janeiro de 2025, uma série de medidas políticas e comerciais de Washington incidiram sobre setores estratégicos para o governo brasileiro.

A agenda de encontros e desencontros entre os dois países está crescendo. Desde fevereiro e julho passados, foram aplicadas para todos os países medidas tarifárias bilaterais, sendo o Brasil, ao lado da Índia, o país que recebeu as tarifas mais altas (50%) para os produtos exportados para os EUA.

Com a decisão da Corte Suprema determinando a ilegalidade das tarifas baseadas IEEPA, o Brasil ficou com 10% para todos os produtos e 25% para aço e alumínio, mas, sob investigação pela Seção 301 da lei de comércio exterior, novas tarifas deverão ser aplicadas ao Brasil.  

Além das restrições comerciais, o governo Trump convidou o Brasil para participar da Conferência da Paz, de grupo de fornecedores de minérios críticos e para entrar em um acordo nesse sentido, além de apresentar proposta para o Brasil receber imigrantes ilegais sem que Brasília tenha aceitado qualquer dos convites. 

Some-se a isso, o relatório do Congresso que denunciou bases estratégicas da China no Brasil e a indicação de que unilateralmente o governo Trump iria submeter ao congresso lista de organizações terroristas, incluindo o PCC e o CV do Brasil. 

‘O Brasil não foi convidado para participar da reunião presidencial do Escudo das Américas e de ministros da Defesa sobre condenação de carteis de drogas’

O Brasil não foi convidado para participar da reunião presidencial do Escudo das Américas e de ministros da Defesa sobre condenação de carteis de drogas, e o Consulado norte americano em São Paulo mencionou que as empresas chinesas não deveriam participar de licitação sobre o terminal de contêineres de Santos. 

Desde abril de 2025, o Brasil não consegue negociar oficialmente todos esses itens diretamente com a Casa Branca, apesar das tentativas de Mauro Vieira de marcar uma data com Marco Rubio. A última tentativa foi na semana passada em reunião do G7, com o Brasil convidado, em que o ministro brasileiro não conseguiu marcar reunião formal com o secretário de Estado e teve de conversar com ele de pé no intervalo de encontros formais entre os ministros do grupo. 

No fim de semana passada, o Brasil confrontou os EUA em reunião da OMC impedindo que a moratória no comércio eletrônico fosse prorrogada por 5 anos, como insiste Washington, o que acrescentou mais um item sensível na diplomacia comercial. Por coincidência, Washington divulgou, dias depois, relatório sobre a investigação relacionada com a regulamentação e a taxação brasileira do comércio eletrônico, incluindo o pix, com fortes acusações, o que prenuncia retaliações tarifárias para breve.

‘A Estratégia de Segurança Nacional adicionou novas questões desafiadoras para a política externa de Lula’

A Estratégia de Segurança Nacional adicionou novas questões desafiadoras para a política externa de Lula. O corolário Trump, que explicita a visão de Trump sobre a forma como a influência norte-americana vai se exercer sobre a América Latina, expressa claramente as questões de maior relevância para os EUA na relação com o Brasil em dois itens: segurança e prosperidade.

No tocante à Segurança, sobressaem o controle da imigração e a ação contra as organizações terroristas. Prevenir e desencorajar imigração em massa e deportar os imigrantes ilegais que se encontram nos EUA. Cooptar parceiros regionais e aplicar medidas dissuasórias e disruptivas contra os carteis de drogas que ameaçam os interesses dos EUA.

No tocante a prosperidades, são mencionados:

  • Diplomacia comercial: focalizar políticas no Brasil e em outros países que sejam desvantajosas para as companhias norte-americanas e dar prioridade ao combate às práticas desleais da China
  • Investimento Estratégico: utilizar os mecanismos financeiros dos EUA para apoiar os investimentos em setores estratégicos e apresentar os EUA como alternativa aos adversários (China)
  • Segurança nas cadeias de suprimento: identificar maneiras de tornar mais seguro o fornecimento crítico de cadeias produtivas junto a parcerias governamentais e apoio a investidores privados.
  • Infraestrutura e Segurança Cibernética: estabelecer parcerias com governos e empresas da região para construir sólida infraestrutura na área energética e garantir comunicações cibernéticas seguras, usando tecnologia norte-americana.

A viagem de Lula a Washington continua sem data marcada, podendo ficar para o início do segundo semestre.

Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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