30 junho 2023

Rubens Barbosa: Crise russa amplia insegurança no cenário global

Disputas entre Putin e o grupo Wagner geraram a mais grave crise política no país desde 1999, com graves ameaças para todo o mundo. Para embaixador, desdobramentos da crise terão um impacto forte sobre a guerra na Ucrânia

Disputas entre Putin e o grupo Wagner geraram a mais grave crise política no país desde 1999, com graves ameaças para todo o mundo. Para embaixador, desdobramentos da crise terão um impacto forte sobre a guerra na Ucrânia

Combatentes do grupo mercenário Wagner em rua perto da sede do Distrito Militar do Sul, na cidade de Rostov-on-Don (Foto:ABC)

Por Rubens Barbosa*

As incertezas e inseguranças do cenário internacional cresceram com a crise militar na Rússia, a mais grave crise política desde 1999, quando Vladimir Putin chegou ao poder.

No meio da guerra com a Ucrânia, o líder do grupo Wagner, Yeygeny Prigozhin, contratado pelo governo de Moscou para atuar na defesa dos interesses russos na África e agora na Ucrânia, resolveu ocupar o centro de controle de Rostov on Don e dirigir-se a capital, não para depor o presidente Putin, mas para confrontar o ministro da Defesa, Shoigu, na versão de Prigozhin. A decisão de Putin para que o grupo assinasse contratos de serviço com os militares russos até 1º de julho, fortalecendo o Ministério da Defesa, foi o estopim da crise em vista da reação furiosa do líder do Wagner.

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A crise foi interrompida de forma surpreendente com a intervenção do presidente de Belorus, Alexander Lukashenko, que conseguiu convencer Prigozhin a não prosseguir sua rota para Moscou e abandonar suas tropas. Na negociação trilateral, Prigozhin decidiu voltar e seguir para Minsk, Putin retirou as acusações, e o presidente bielorusso abriu as portas de seu país ao líder rebelde.

O governo dos EUA declarou que não tinha nada a ver com essa crise e que não estimulou Prigozhin, mas fontes da área de informação vazaram a notícia de que o governo de Washington tinha indícios de que havia essa tentativa de golpe. Anthony Blinken, secretário de Estado, disse que achava que “não vimos ainda o ato final desses acontecimentos”.

Todos esses acontecimentos apresentam várias facetas: a política interna russa e seus desdobramentos, a contraofensiva ucraniana diante dessa nova situação e o contexto geopolítico mais amplo.

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No cenário interno, estão em questão a autoridade e a força de Putin em duas frentes, a doméstica e a da guerra na Ucrânia. 

Em um primeiro momento, aparentemente houve um enfraquecimento do presidente russ,o que deixou, sem intervir, que a rivalidade entre Prigozhin e o ministro da Defesa ganhasse corpo e ameaçasse a estabilidade do país. O silêncio em relação à disputa entre os militares deixou uma ambiguidade que agora pode voltar-se contra ele. 

‘A extensão da crise no meio militar ainda terá outros desdobramentos, com novas prisões e promoções’

Com a reação contra Prigozhin, a quem chamou de traidor e ameaçou de morte, Putin passou para o ataque e começou um processo de expurgo nas Forças Armadas, iniciado com a prisão do ex-líder da invasão da Ucrânia, Sergei Surovikin, o “general Armagedon”, acusado de estar associado a Prigozhin. O primeiro-ministro russo manifestou-se, junto com o gabinete, solidário e favorável a Putin, mas a extensão da crise no meio militar ainda terá outros desdobramentos, com novas prisões e promoções.

‘Resta saber se Putin conseguirá ou não superar a crise e manter as rédeas políticas do país’

Resta saber se Putin conseguirá ou não superar a crise e manter as rédeas políticas do país. Muita gente sacou dinheiro dos bancos e quem pode sair, viajou para o exterior. A instabilidade política e seus desdobramentos poderão ter consequências na economia e no curso da guerra na Ucrânia. 

No teatro das operações militares, a crise militar ocorreu no momento em que a Ucrânia iniciava sua contraofensiva. Até aqui, são poucas as informações disponíveis sobre o efeito da retirada aparentemente parcial das milícias Wagner no front das ações militares.  

A Ucrânia está recebendo material ocidental para poder derrubar as barreiras criadas pela Rússia nos campos de batalha, mas ainda é cedo para avaliar até que ponto as forças russas vão resistir à contraofensiva ucraniana e se a saída de parte das forças Wagner vai enfraquecer algumas áreas que se tornaram vulneráveis e difíceis de defender.

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A Rússia parece estar escalando os ataques com mísseis contra alvos civis em algumas cidades críticas do ponto de vista militar. Nos próximos dias, ficará mais claro o impacto negativo da saída das milícias Wagner do ponto de vista russo, no cenário de 1.000 km da frente de batalha.

No contexto geopolítico, os EUA e a Otan estão aumentando o apoio bélico a Kiev. A preocupação ocidental é com o controle do arsenal nuclear na Rússia e com o papel de Belarus em tudo isso, com as tropas do grupo Wagner e com armas nucleares táticas em seu território. 

A China deu seu apoio a Putin publicamente, e o Brasil declarou que a ninguém interessa uma Rússia enfraquecida e fragilizada, em aparente contradição com a Ucrânia, os EUA e a Otan que, sim, têm interesse em uma Rússia enfraquecida.

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O futuro do grupo Wagner é incerto. Foi anunciado que as operações do grupo Wagner na África continuarão, sem indicar como isso acontecerá. Putin, contudo, está ameaçando acabar com o grupo mercenário Wagner e suspender suas operações na África, o que poderia afetar a situação doméstica na República Centro Africana, em Burkina Faso, no Sudão, no Mali e na Líbia. Qual a reação e o futuro de Prigozhin?  

Os desdobramentos da crise terão um impacto forte sobre a guerra na Ucrânia, caso as forças internas na Rússia abalem o poder de Putin a ponto de possibilitar a mudança de posição de Moscou e buscar a suspensão das hostilidade. Hoje, esse cenário é pouco provável.  


*Rubens Barbosa foi embaixador do Brasil em Londres e em Washington, DC., é diplomata, presidente do Instituto Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice) e coordenador editorial da Interesse Nacional.


Rubens Barbosa escreve os editoriais do portal Interesse Nacional. Ele é diplomata, foi embaixador do Brasil em Londres e em Washington, DC, é presidente do Instituto Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice) e coordenador editorial da Interesse Nacional. Mestre pela London School of Economics and Political Science, escreve regularmente no Estado de São Paulo e é autor de livros como 'Panorama visto de Londres', 'Integração econômica da América Latina', 'O dissenso de Washington', 'Diplomacia ambiental' e organizador do livro 'O Brasil voltou?'.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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