23 junho 2023

Rubens Barbosa: EUA, China e uma aproximação cautelosa

Visita do secretário de Estado americano a Pequim busca inaugurar um novo momento da relação entre os dois gigantes, diminuindo tensões e aproximando economias. Para embaixador, a disputa pela hegemonia geopolítica no século XXI continuará, mas nova tática entre as duas superpotências poderá ter desdobramentos comerciais importantes, inclusive para países como o Brasil

Visita do secretário de Estado americano a Pequim busca inaugurar um novo momento da relação entre os dois gigantes, diminuindo tensões e aproximando economias. Para embaixador, a disputa pela hegemonia geopolítica no século XXI continuará, mas nova tática entre as duas superpotências poderá ter desdobramentos comerciais importantes, inclusive para países como o Brasil

Bandeiras dos EUA e da China em Pequim durante a visita de Antony Blinken ao país (Foto: Xinhua)

Por Rubens Barbosa*

O fato mais importante no cenário internacional nesta semana foi a visita do secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, a Pequim. Como se sabe, Blinken deveria ter viajado à China no início do ano, mas sua viagem foi cancelada em virtude do incidente com o balão chinês sobre o território dos EUA, deixando a relação entre os dois países em um de seus momentos mais delicados pela ausência de canais de comunicação para uma situação de emergência.

Certamente já pensando na eleição presidencial do próximo ano, o governo de Washington anunciou uma nova doutrina Biden em relação à economia global. Anunciada pelo assessor de segurança nacional, Jack Sullivan, no final de abril passado, o novo Consenso de Washington, que coloca a China no centro dessa nova visão das relações econômicas internacionais, pretende implementar uma política industrial estratégica, para, ao mesmo tempo, revitalizar a classe média e a democracia americanas enquanto combatem mudanças climáticas e consolidam uma vantagem tecnologia duradoura sobre a China.

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A viagem de Blinken pode ser vista como um primeiro desdobramento dessa política no tocante à China. Ele manteve longa reunião com sua contraparte chinesa, Wang Yi, principal autoridade em política externa na China, com o ministro do exterior, Qin Gang, e com o presidente Xi Jinping. Os dois lados mantiveram suas posições em todos os temas, desde Taiwan, a comércio exterior, direitos humanos e a guerra da Ucrânia, mas nada vazou quanto às eventuais flexibilizações que a nova política de Washington poderia aceitar. 

A China se recusou a restabelecer os canais militares de comunicação, mencionando como obstáculo as sanções americanas. Xi ressaltou que “as relações entre os dois países devem pautar-se pelo respeito mútuo e a sinceridade” e que espera que a visita de Blinken possa trazer contribuições positivas para estabilizar as relações entre os dois países. Em cândida declaração pública, XI disse que a China não quer substituir os EUA como a maior superpotência global, nem emular os EUA como potência militar.

‘A política de separação econômica em relação à China (decoupling) foi substituída pela de redução dos riscos na relação bilateral (de-risking)’

Biden em discurso recente assinalou a nova atitude de Washington em relação a Pequim e já antecipada pela secretária do Tesouro Janet Yellen. A política de separação econômica em relação à China (decoupling) foi substituída pela de redução dos riscos na relação bilateral (de-risking). A nova política, aparentemente confirmada nos encontros de Pequim, prevê a estabilização das relações entre os EUA e a China e reflete uma crescente preocupação do establishment de Washington quanto à possibilidade de as tensões entre as duas maiores economias do mundo sair do controle e uma situação de confrontação se agrave antes das eleições presidenciais do ano que vem. 

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Por outro lado, a preocupação é com o custo econômico comercial que essa grave situação poderia acarretar. Além de mais de US$ três trilhões que a China mantém em títulos do Tesouro dos EUA, o comércio bilateral sobe a mais de US$ 600 bilhões, com quase 500 bilhões de superávit na balança comercial a favor da China, indicando a grande dependência de produtos chineses.

Em outra área crítica, onde pesadas restrições tecnológicas foram colocadas contra a China — o comércio de semicondutores –, as restrições estão sendo abrandadas permitindo que empresas de Taiwan possam continuar a vender chips para a China.

‘A ameaça de conflito entre as duas superpotências não interessa a ninguém’

Resta saber, na prática, como esse movimento tático dos dois lados vai funcionar. A ameaça de conflito entre as duas superpotências não interessa a ninguém. Para os EUA, divididos politicamente, com a economia melhorando, mas com graves problemas, com a eleição presidencial se aproximando e com as atenções voltadas para a guerra, por intermediação da Ucrânia, com a Rússia, as crescentes tensões com a China poderiam abrir um segundo cenário da crise militar difícil de administrar. Do lado da China, a posição mais assertiva no cenário internacional, como mediadora (Arabia Saudita-Irã e agora a busca de paz entre Israel e Palestina), a necessidade de tranquilidade no cenário internacional para continuar sua expansão comercial e problemas emergentes na economia aconselharam essa tentativa de estabilização.

A estratégia de longo prazo tanto dos EUA, quanto da China na relação bilateral e no cenário global não foi mudada, nem vai ser alterada em um futuro previsível. A disputa pela hegemonia geopolítica no século XXI continuará. A nova tática entre as duas superpotências, porém, poderá ter desdobramentos comerciais importantes, inclusive para países como o Brasil, cada vez mais dependentes do mercado asiático e chinês.

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Não demorou muito para os limites da estabilização nas relações entre os dois países serem testados. Durante a visita de Blinken e poucos dias depois, ficaram claras as limitações dessa nova política. Biden deu tratamento especial ao premiê da Índia, Narendra Modi, em visita aos EUA, na tentativa de afastá-lo da Rússia e da China. Nas declarações improvisadas do presidente norte-americano em comício eleitoral ao chamar o líder chinês de “ditador”, o que foi prontamente rechaçado por Xi Jinping como “irresponsável” e “provocação política inaceitável”. O espírito da guerra fria continua forte em Washington.


*Rubens Barbosa foi embaixador do Brasil em Londres e em Washington, DC., é diplomata, presidente do Instituto Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice) e coordenador editorial da Interesse Nacional.


Rubens Barbosa escreve os editoriais do portal Interesse Nacional. Ele é diplomata, foi embaixador do Brasil em Londres e em Washington, DC, é presidente do Instituto Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice) e coordenador editorial da Interesse Nacional. Mestre pela London School of Economics and Political Science, escreve regularmente no Estado de São Paulo e é autor de livros como 'Panorama visto de Londres', 'Integração econômica da América Latina', 'O dissenso de Washington', 'Diplomacia ambiental' e organizador do livro 'O Brasil voltou?'.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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