Saludos, Amigos – O Brasil na política de exposições dos Estados Unidos para a América Latina em tempos de guerra
Vargas aproveitou o protagonismo geoestratégico para extrair benefícios da disputa teuto-americana por hegemonia, no pré-guerra, e, depois, de sua participação ativa no conflito. Em momentos de rearranjos do sistema internacional, provou-se há 80 anos, a boa diplomacia cultural traz dividendos de monta e fortalece a posição do Brasil na comunidade de nações. A construção de reputação nacional sólida, entretanto, demanda esforços continuados que nem sempre coincidem com mandatos e ciclos políticos.

Nos anos que antecederam a Segunda Guerra, o fornecimento de matérias-primas, a navegação no Atlântico Sul e a proximidade do norte da África conferiram à América Latina, e ao Brasil em especial, inédita centralidade geopolítica. As potências emergentes, Alemanha e Estados Unidos, fizeram da América Latina um campo de batalha por influência. Em meio a disputas comerciais e narrativas, o presidente Getúlio Vargas e seu gabinete dividido entre entusiastas do Eixo e dos Aliados exercitavam política externa conhecida por “equidistância pragmática”, ao flertar com ambos os lados, em busca de apoio a seu projeto desenvolvimentista.
Na batalha por corações e mentes de governantes, elites e opinião pública, ganharam relevo as relações culturais. De um lado, os estadunidenses apostavam no cinema de Hollywood, na música popular, no entretenimento e na publicidade para exportar seu way of life e a imagem de progresso e modernidade. De outro lado, o nazismo lançou ofensiva de propaganda de caráter nacionalista por meio de voos transatlânticos de zepelim, jornais e rádios ligados à forte comunidade alemã no Brasil. As associações germânicas organizavam exposições de arte acadêmica e realismo heroico que exaltavam a ideia da volksgemeinschaft (comunidade do povo) e a estética alinhada ao regime.
‘O chanceler Oswaldo Aranha utilizava intensa diplomacia pública e cultural para melhorar a reputação brasileira no Ocidente e a inserção no mundo que emergiria do conflito’
À frente do grupo americanófilo, o chanceler Oswaldo Aranha utilizava intensa diplomacia pública e cultural para melhorar a reputação brasileira no Ocidente e a inserção no mundo que emergiria do conflito.
Desde os anos 1920, a pintura latino-americana era apresentada em mostras menores em Paris, epicentro estético do planeta, não raro por iniciativas pessoais de embaixadores como o brasileiro Luiz Martins de Souza Dantas.
Nos anos 1930, ocorreram exposições coletivas nos museus nacionais de belas artes de Buenos Aires e Rio de Janeiro e pequenas exibições na América do Norte, a exemplo da Representative Collection of Paintings by Contemporary Brazilian Artists no Museu Roerich e da mostra anual do Carnegie Institute em Pittsburgh. Mas foi só com o início da guerra que se institucionalizou o intercâmbio de exposições entre a América Latina e os Estados Unidos.
Dias após a Alemanha invadir a Polônia, em setembro de 1939, o museu Riverside, em Nova York, recebeu 330 obras da Latin American Exhibition of Fine and Applied Arts, anunciada como a maior já realizada no exterior, não obstante seus vagos critérios curatoriais. Um quinto dos quase 200 pintores expostos eram brasileiros, como Georgina de Albuquerque e Oswaldo Teixeira, cujos quadros academicistas contrastavam com os de Portinari que decoravam o celebrado pavilhão modernista projetado por Lucio Costa e Oscar Niemeyer para a Exposição Universal de Nova York.
Ao mesmo tempo, em São Francisco, a Golden Gate International Exhibition hospedou bem recebida exibição de peças da América do Sul e Central. Em 1940, houve a exposição Twenty Centuries of Mexican Art, no MoMA, e a segunda mostra latino-americana no Riverside, esta menor e com apenas dois pintores brasileiros, entre os quais Portinari, cuja individual Portinari of Brazil passara pelo MoMA e pelo Detroit Institute of Arts de Detroit. Já o Virginia Museum of Fine Arts recebeu exibição argentina.
‘A crescente simpatia pelos regimes autoritários europeus entre figuras proeminentes dos governos e das sociedades despertava preocupação em Washington’
A essa altura, o bloqueio naval britânico havia freado o comércio entre América Latina e Alemanha, mas a crescente simpatia pelos regimes autoritários europeus entre figuras proeminentes dos governos e das sociedades despertava preocupação em Washington, cuja política de Boa Vizinhança surtira efeitos limitados em um primeiro momento.
Nelson Rockfeller, filho de um magnata do petróleo e uma colecionadora de arte, convenceu, então, o presidente Franklin D. Roosevelt da urgência de estabelecer laços de confiança e amizade com o sul do hemisfério. A Oficina de Assuntos Interamericanos (que passaria a chamar-se OCIAA) foi criada em 1940, reportava diretamente à Casa Branca e chegou a contar com mais de 1.300 funcionários. Uma de suas quatro divisões, a de relações culturais, abrigava seções de música, literatura, publicações, intercâmbio, educação e arte, com o fim de cultivar vínculos afetivos de longo prazo entre as populações das Américas.
A estratégia de Rockfeller orientava-se por princípios básicos que ainda hoje constituem o estado da arte da diplomacia pública e do soft power, conceitos só cunhados décadas mais tarde. Em primeiro lugar, buscou-se o entendimento da sociedade local.
A partir de estudos e discussões que identificaram a percepção que se tinha dos Estados Unidos na região, foram concebidas mensagens que se coadunavam com a diplomacia norte-americana para o hemisfério. Era necessário romper com a desconfiança em relação à política do Big Stick – “fale com suavidade, mas tenha na mão um grande porrete” – e desfazer a ideia de superioridade cultural europeia. Para tanto, deviam-se convencer os vizinhos de que os estadunidenses eram capazes de produzir arte refinada e original, transmitindo associações de progresso sem reforçar a imagem predominante de uma nação materialista. O objetivo era maximizar as noções de certa irmandade americana, baseada em elos naturais, sentimentos comuns e compreensão recíproca.
‘Rockfeller iniciou pelo Brasil sua primeira missão, em que se dedicou a estabelecer redes com os intelectuais, acadêmicos e artistas’
Rockfeller iniciou pelo Brasil sua primeira missão, em que se dedicou a estabelecer redes com os intelectuais, acadêmicos e artistas. As viagens frequentes demonstravam a preocupação com a construção de relacionamentos perenes com personalidades chave das elites latino-americanas. Havia clareza, também, sobre a conveniência de dissociar as trocas artísticas do oficialismo, evitando dar-lhes ares de mera propaganda.
Após patrocinar sucessivas viagens de curadores à região, organizar conferência de arte interamericana e criar comitê específico, o OCIAA remeteu a vários países latino-americanos a Exposição de Pintura Contemporânea Norte-Americana, com mais de 120 obras de 112 artistas, entre os quais os modernistas Edward Hopper e Georgia O´Keffe. A coleção desembarcou em julho de 1941 no Museo Nacional de Bellas Artes de Buenos Aires, onde foi vista por 25.000 argentinos.
Mais tarde, no Brasil, apenas 6.000 pessoas estiveram no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro (MNBA), uma fração dos 40.000 visitantes da Exposição de Pintura Francesa que ocupara a mesma instituição no ano anterior. Entre os motivos para o fiasco, elencaram-se a inexistência de catálogo em português (ao fim, improvisou-se um menor) e a resistência do diretor do museu, o conservador Oswaldo Teixeira, ao modernismo. De todo modo, o OCIAA reputou exitosa a turnê pela América Latina, que, além da visitação superlativa de quase 220.000 pessoas, rendeu cerca de 500 artigos nos jornais da região e contou com a presença de seis presidentes em suas inaugurações.
‘É evidente que as dimensões de repercussão na imprensa e de estabelecimento de relacionamento duradouros com figuras influentes da sociedade local foram plenamente contempladas, justificando o vultoso investimento do escritório de Rockfeller’
Em que pese a conhecida dificuldade de mensurar a efetividade de ações de diplomacia pública, é evidente que as dimensões de repercussão na imprensa e de estabelecimento de relacionamento duradouros com figuras influentes da sociedade local foram plenamente contempladas, justificando o vultoso investimento do escritório de Rockfeller.
O ataque a Pearl Harbour em dezembro de 1941 compeliu o Brasil a tomar partido na guerra. Dois meses depois, na Conferência Pan-Americana do Rio de Janeiro, Aranha ajudou a formar maioria na região em torno do rompimento diplomático com o Eixo; Argentina e Chile optaram por prolongar sua “neutralidade”. O regime autoritário do Estado Novo de Vargas alinhava-se aos Estados Unidos e às demais democracias ocidentais decidido a obter, a partir da posição excepcionalmente vantajosa de que gozava, vantagens econômicas – construção de siderúrgica –, militares – equipamento e treinamento das forças armadas – e de imagem.
Nesse período, o OCIAA apoiou as visitas ao Rio de Janeiro do American Ballet, de Orson Welles, Douglas Fairbanks Jr. e Walt Disney, que lançou em 1942 o personagem Zé Carioca no longa-metragem Saludos, Amigos. Para a América do Norte, levaram-se Carmen Miranda e arte popular; a Biblioteca Nacional ganhou um mural de George Biddle, enquanto a Library of Congress foi adornada com um de Portinari. Rockfeller chegou a comprar – para ele e para presentear – diversas obras de Portinari, inclusive retratos dos próprios filhos gêmeos e do filho do pintor.
Várias exposições latino-americanas passaram pelos Estados Unidos, não só no MoMA, mas no San Francisco Museum of Modern Art, na National Gallery of Art em Washington, no Brooklyn Museum e até em uma grande feira na loja de departamento Macy´s, esta visitada por mais de 30.000 pessoas diariamente. Além de arte, produtos como o café brasileiro e a carne argentina eram servidos na seção Avenida 42, onde se replicavam paisagens de Rio de Janeiro e Buenos Aires, que surpreendiam pelo desenvolvimento urbano.
‘Em 1943, Aranha elaborou subsídio para encontro entre Vargas e Roosevelt em Natal, em que indicava as 11 prioridades da política externa brasileira, a primeira das quais era elevar o status do Brasil no sistema internacional’
Em 1943, Aranha elaborou subsídio para encontro entre Vargas e Roosevelt em Natal, em que indicava as 11 prioridades da política externa brasileira, a primeira das quais era elevar o status do Brasil no sistema internacional. O projeto de Rockfeller de criar um mundo artístico compartilhado culminou, no mesmo ano, com a The Latin-American Collection no MoMA. O museu adquiriu 224 peças, a maioria delas de mexicanos como José Clemente Orozco, Diego Rivera e Davi Siqueiros. Entre as brasileiras, estavam quadros modernistas de Lasar Segall, José Pancetti, Heitor dos Prazeres e Maria Martins, além, naturalmente, de Portinari.
Em paralelo, o MoMA organizou a Brazil Builds, mostra que revelou ao mundo o pioneirismo e a pujança da arquitetura moderna nacional, a partir de então considerada uma das mais avançadas do mundo. A produção da região passou a ser não só exibida, mas colecionada, e adquiriu relevância mundial.
‘Brasil e México sobressaíram pelos ganhos comerciais, militares e de imagem ao lutarem junto aos Aliados, tanto na arena do hard power militar quanto do soft power cultural’
Embora desigual pelas diferentes capacidades de difusão e beneficiando primariamente os interesses norte-americanos, a política de intercâmbio levada a cabo pelo OCIAA até 1943, quando se encerraram as atividades de sua divisão de relações culturais, zelava por certa reciprocidade. Se a neutralidade da Argentina – que só nos estertores do conflito declarou guerra ao nazifascismo – minorou os efeitos do braço artístico da política da Boa Vizinhança naquele país, Brasil e México sobressaíram pelos ganhos comerciais, militares e de imagem ao lutarem junto aos Aliados, tanto na arena do hard power militar quanto do soft power cultural.
Em 1944, formaram-se a vitoriosa Força Expedicionária Brasileira, única contribuição latino-americana ao teatro europeu, e o Esquadrão 201 mexicano, que participou de operações no Pacífico. Ao mesmo tempo, Walt Disney lançava Os Três Caballeros, animação na qual Panchito soma-se a Pato Donald e Zé Carioca em andanças pelo continente. O muralismo do México e o modernismo do Brasil firmavam-se como símbolos da inventada fraternidade hemisférica.
Com o término da Segunda Guerra, Nova York substituiu Paris como principal centro de irradiação estética do mundo, a utilidade da América Latina dissipou-se rapidamente e Washington voltou atenções para a Europa. Rockfeller tornou-se subsecretário de Estado para as Américas – mais tarde seria governador de Nova York e vice-presidente –, e o antifascismo deu espaço ao anticomunismo.
No contexto do alinhamento automático do governo de Eurico Dutra a Washington, diminuíram os fundos para ações culturais e mostras de arte, afinal já não se fazia necessário conquistar apoio brasileiro. A política de exposições liderada pelo OCIAA revelou-se um grande sucesso, exportou um modelo de sociedade e impactou definitivamente o lugar dos Estados Unidos no imaginário dos latino-americanos, articulando as populações dos dois hemisférios. Enquanto buscou compreender e avançar seus próprios interesses, em circunstâncias que lhe favoreciam, o governo brasileiro figurou entre os que se valeram dos espaços diplomáticos disponíveis em relações assimétricas de poder.
‘A diplomacia de Aranha soube utilizar em seu favor o esforço estadunidense de aproximação e tornou o Brasil conhecido e admirado no país que forjaria a ordem global emergente’
A diplomacia de Aranha soube utilizar em seu favor o esforço estadunidense de aproximação e tornou o Brasil conhecido e admirado no país que forjaria a ordem global emergente. A mesma rede de instituições e indivíduos que vendeu o sonho americano levou de volta para o norte a ideia de um aliado em rápida industrialização que comungava dos valores ocidentais, capaz de liderar politicamente a região e aportar não só nos âmbitos comercial e militar, mas também no campo simbólico.
Vargas aproveitou o fugaz protagonismo geoestratégico para extrair benefícios da disputa teuto-americana por hegemonia, no pré-guerra, e, depois, de sua participação ativa no conflito. Em momentos de rearranjos do sistema internacional, provou-se há 80 anos, a boa diplomacia cultural traz dividendos de monta e fortalece a posição do Brasil na comunidade de nações. A construção de reputação nacional sólida, entretanto, demanda esforços continuados que nem sempre coincidem com mandatos e ciclos políticos.
Hayle Melim Gadelha é colunista da Interesse Nacional, diplomata e doutor em relações internacionais pelo King’s College London. É autor do livro "Public Diplomacy on the Front Line: The exhibition of modern Brazilian paintings". (Anthem Press).
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