Tensão entre Brasília e Washington
A escalada das tensões entre Brasil e Estados Unidos combina disputas comerciais, divergências sobre crime organizado, pressões sobre regulação digital e a chegada de um novo embaixador alinhado ao governo Trump. Em meio ao calendário eleitoral brasileiro, tarifas que podem atingir 21% das exportações para o mercado americano e ameaças de novas restrições ampliam os riscos para a relação bilateral e para setores estratégicos da economia

As relações entre o Brasil e os EUA dominaram as atenções do governo e da mídia nesta semana, com forte impacto sobre a política interna em momento pré-eleitoral.
Não foi surpresa a inclusão do PCC e do CV como organizações terroristas, contra as gestões do governo brasileiro. Essa decisão trouxe para a linha de frente o combate ao crime organizado e abre a possibilidade de empresas brasileiras, sobretudo, do mercado financeiro, serem atingidas por medidas duras do governo norte-americano.
Ao contrário do que muito se comentou o pix não poderá ser atingido neste capítulo, assim como é muito pouco provável que haja alguma intervenção dos EUA em território brasileiro.
‘Mais do que defender a soberania, o governo deveria ampliar a cooperação bilateral para aumentar a capacidade do governo para enfrentar o crime organizado’
Mais do que defender a soberania, o governo deveria ampliar a cooperação bilateral nessa área para aumentar a capacidade do governo, se atuar coordenado, para enfrentar o crime organizado de maneira mais firme e eficiente. Esse é um problema brasileiro.
A designação do novo embaixador dos EUA, Daniel Perez, deputado estadual da Flórida e aliado de Trump, sem pedido prévio de agrément, é mais um ato provocativo e ideológico do Departamento de Estado, a que o governo brasileiro decidiu não reagir.
Sem qualquer experiência diplomática, Perez defende publicamente a dura política imigratória de Trump, os princípios da política ultranacionalista e conservadora do MAGA e a nova atitude dos EUA em relação à América Latina com o apoio de governos de direita na região.
‘Caso aprovado pelo Senado, o embaixador vai chegar ao Brasil às vésperas da eleição presidencial de outubro em um momento dos mais delicados na relação EUA com o Brasil’
Caso aprovado pelo Senado, Perez vai chegar ao Brasil às vésperas da eleição presidencial de outubro em um momento dos mais delicados na relação EUA com o Brasil, classificado por Rubio como um “país não amigo”, ao lado de Cuba, Venezuela e Nicarágua.
No tocante à proposta de taxar produtos brasileiros em 25%, o relatório sustenta que determinadas políticas e práticas brasileiras relacionadas a comércio digital, meios eletrônicos de pagamento, propriedade intelectual, combate à corrupção (citando nominalmente ministro do STF que levou a anulação de mais de uma centena de casos), acesso a mercado e outras matérias afetam negativamente interesses comerciais dos Estados Unidos.
Essa decisão foi precedida de investigação e respostas do governo brasileiro em julho do ano passado. Agora, o governo brasileiro tem até 6 de julho para responder à proposta das novas tarifas de 25% sobre os produtos brasileiros para os EUA que não entraram na lista de exceções definidas por Washington.
‘Caso essas tarifas sejam mantidas, 21% dos produtos exportados para os EUA ficarão afetados’
Não se trata de negociação porque a legislação prevê uma decisão unilateral do governo de Washington que será finalmente formalizada em 15 de julho próximo. Caso essas tarifas sejam mantidas, 21% dos produtos exportados para os EUA ficarão afetados, entre eles madeiras, pescados, máquinas e equipamentos.
Essas medidas tarifárias substituem as tarifas impostas por legislação considerada ilegal pela Suprema Corte e deverão estar em linha com as tarifas então aplicadas ao Brasil (40%).
Além dos produtos exportados, são matérias de preocupação o pix e as Big Tech, em vista da regulamentação em processo no STF e no governo brasileiro, o que poderá resultar em novas medidas restritivas dos EUA.
Ainda dentro das investigações no âmbito da seção 301, foi também anunciada a imposição de 12,5% de tarifa sobre todos os produtos brasileiro pelo descumprimento das restrições a importações de produtos produzidos com trabalho forçado, no caso produtos vindos da China.
‘O governo brasileiro ameaça usar a lei de reciprocidade contra mais essa medida restritiva dos EUA’
O governo brasileiro ameaça usar a lei de reciprocidade contra mais essa medida restritiva dos EUA. O governo Trump estaria tentando manter também os atuais 10% baseados na lei 122, mas é improvável que possa renovar, depois de expirado o prazo em 24 de julho (essa tarifa será substituída pelos 12,5%).
Mantidas essas duas tarífas (25+12,5%), como previsto, ficou praticamente igual à tarifa suspensa pela Suprema Corte, por ilegal. Antes, 40%, agora com tarifas de 37,5%, dificilmente 21% das exportações brasileiras para os EUA terão competitividade para buscar o mercado norte-americano.
Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.
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