Trumpismo em Cuba
As consequências da mudança do governo na Venezuela em Cuba foram devastadoras pelo fim do fornecimento do petróleo (60% importado) subsidiado para o regime de Havana, forçado pelo governo de Washington. O colapso energético levou ao crescimento das dificuldades econômicas, apagões com efeitos diários na vida das pessoas, inclusive na suspensão de serviços em hospitais, […]

As consequências da mudança do governo na Venezuela em Cuba foram devastadoras pelo fim do fornecimento do petróleo (60% importado) subsidiado para o regime de Havana, forçado pelo governo de Washington. O colapso energético levou ao crescimento das dificuldades econômicas, apagões com efeitos diários na vida das pessoas, inclusive na suspensão de serviços em hospitais, falta de combustível nos postos de gasolina, manifestações públicas contra o regime foram alguns dos efeitos negativos.
O governo de Washington apressou-se a anunciar que Cuba seria o próximo alvo, depois do fim da guerra no Irã.
‘O asfixiamento econômico foi justificado por Trump pela “ameaça excepcional” aos EUA, que a Ilha representa’
O asfixiamento econômico pelo bloqueio de petróleo da Venezuela, do México e de outras fontes, pelos EUA, foi justificado por Trump pela “ameaça excepcional” aos EUA, que a Ilha representa, principalmente por suas ligações com a China, a Rússia e o Irã.
Na semana passada, a Casa Branca anunciou que Cuba poderia ser alvo de uma tomada amigável de poder, se as negociações não avançarem.
Cuba (assim como Israel) é uma questão de política interna nos EUA pelo grande número de imigrantes cubanos, especialmente em Miami, e pelo apoio financeiro nas eleições. Liderados por Marco Rubio, a intervenção norte-americana é apoiada pela quase totalidade dos eleitores de Trump.
‘Poucas vozes se fazem ouvir contra mais um exemplo da agressiva política externa de Washington’
Poucas vozes se fazem ouvir contra mais um exemplo da agressiva política externa de Washington. O senador Democrata, Tim Kaine, apresentou proposta legislativa, baseada no War Power Act para impedir que Trump realize operações militares ou bloqueio naval contra Cuba, sem autorização do Congresso. Nesta semana, Trump declarou acreditar que “terei a honra de tomar Cuba, de alguma forma, libertando-a. Posso fazer o que quiser com ela”.
A decapitação do regime chavista na Venezuela pelos EUA com a permanência do regime ideológico, autoritário e corrupto no poder, parece ser o modelo que o governo Trump vai utilizar em Cuba, sem necessidade de violência, mas pela negociação.
‘Essa situação levou o regime cubano a aceitar conversar com os EUA’
Essa situação levou o regime cubano a aceitar conversar com os EUA. O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, anunciou ter mantido conversações com membros do governo norte-americano após três meses do embargo de petróleo a ilha. As conversas foram orientadas para “buscar soluções por meio do diálogo, para as diferenças que temos”.
O México, que também suspendeu o fornecimento de petróleo a Cuba, criticou o bloqueio norte-americano e afirmou que seu governo atuou na promoção do diálogo entre os dois países. Já como resultado dessas conversações, a exemplo da Venezuela, o governo de Havana anunciou na semana passada “a libertação de presos políticos nos próximos dias”, como demonstração de boa vontade em relação ao Vaticano, mediador histórico entre Havana e Washington.
Marco Rubio negou que os EUA querem destituir Díaz-Canel e alguns funcionários mais antigos, mas que sejam afastados pelos próprios cubanos, para permitir reformas políticas e econômicas, com a gradual abertura da economia para empresas americanas, o que a atual direção política não aceitaria. Díaz-Canel prometeu ações concretas de resistência, caso o governo de Washington tente controlar o país.
Em vista da precária situação econômica de Cuba e da decisão política de Washington de intervir naquele país, é possível prever que um acordo político e econômico seja negociado, envolvendo o relaxamento das restrições de viagem e remessas de recursos para a ilha e liberação de presos políticos, além de concessões sobre participação de empresas norte americanas de portos, energia e turismo.
‘Havana, porém, traz desafios específicos. Um deles é o fato de não haver, por enquanto, uma figura como Delcy Rodrigues no regime cubano’
Havana, porém, traz desafios específicos. Um deles é o fato de não haver, por enquanto, uma figura como Delcy Rodrigues no regime cubano, em grande parte pela ainda forte presença política de Raul Castro. A impopularidade do atual presidente Diaz-Canel poderá levar a sua substituição negociada. Resta saber que poderá ocupar seu lugar. Uma possibilidade é o neto de Raul Castro, Raul Guillermo Rodrigues Castro, que iniciou os primeiros contatos com Marco Rubio.
Para Trump, a mudança do regime cubano representaria uma façanha histórica visto que, desde 1960, todos os presidentes norte-americanos tentaram, mas não conseguiram, promover uma transição política e econômica negociada, sem recorrer a intervenção armada.
Enquanto isso, o governo brasileiro discretamente está enviando alimentos e produtos farmacêuticos para Havana, mas o presidente Lula, ao longo de todo processo negociador entre Cuba e EUA, continua em um silêncio ensurdecedor.
Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.
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