Violência nos EUA de Trump -Pacificação e militarismo em tempos de declínio
Por Clarissa Nascimento Forner e Lucas de Oliveira Ramos* Nas primeiras semanas de 2026, a política internacional voltou a ser marcada por imagens de violência associadas ao governo Trump, tanto dentro quanto fora dos Estados Unidos. No plano externo, ganhou destaque a intervenção militar na Venezuela, acompanhada de declarações que sinalizam a disposição do governo […]

Por Clarissa Nascimento Forner e Lucas de Oliveira Ramos*
Nas primeiras semanas de 2026, a política internacional voltou a ser marcada por imagens de violência associadas ao governo Trump, tanto dentro quanto fora dos Estados Unidos. No plano externo, ganhou destaque a intervenção militar na Venezuela, acompanhada de declarações que sinalizam a disposição do governo norte-americano em ampliar sua presença coercitiva na América Latina.
Além disso, o presidente anunciou no Fórum de Davos a intenção de expandir as instalações militares estadunidenses na Groenlândia, suscitando questões sobre o futuro da região e das relações transatlânticas.
No plano doméstico, a repressão se manifesta na intensificação das ações da Immigration and Customs Enforcement (ICE) contra imigrantes. Após um membro da agência ter assassinado uma cidadã norte-americana que participava de um protesto pacífico, uma onda de manifestações tomou as ruas de Minnesota. A resposta presidencial foi de ameaçar acionar o Insurrection Act, legislação que autoriza o emprego das forças armadas contra a própria população. Dias depois, após a intensificação dos protestos, a letalidade expandida da ICE provocou a morte de Alex Pretti, outro cidadão de Minneapolis.
Um olhar teórico
À primeira vista, esses episódios podem parecer desconectados, uns voltado à política externa, outros à ordem interna. No entanto, sob a ótica dos estudos críticos em Relações Internacionais, eles compõem um mesmo padrão de governo. Observamos que essa conjuntura de uso crescente da violência não expressa força ou estabilidade, mas sim uma tentativa de administrar uma crise mais profunda do poder norte-americano.
Afinal, o governo Trump II se insere em um momento de aprofundamento de crise hegemônica. Nesse contexto, o uso recorrente de dispositivos de coerção deve ser interpretado menos como demonstração de poder e mais como reação defensiva diante de um processo de declínio.
A teoria política de Antonio Gramsci oferece ferramentas úteis para compreender esse tipo de conjuntura. Para o autor, a hegemonia não se sustenta apenas pela força, mas por uma combinação entre consenso e coerção. A hegemonia, seja no plano doméstico ou internacional, depende tanto da capacidade de imposição violenta de regras quanto da produção de aceitação social por meio de instituições, normas e valores compartilhados.
Nesse contexto, a violência é um elemento fundamental. Os dispositivos coercitivos são essenciais para garantir a ordem existente e neutralizar ameaças ao seu funcionamento. Consenso e coerção, portanto, não são opostos, mas dimensões complementares de um mesmo projeto de poder e se articulam como duas faces da mesma moeda.
Pacificação e militarismo na construção hegemônica dos EUA
Ao longo da história, a consolidação da hegemonia dos Estados Unidos esteve baseada na articulação entre a difusão do capitalismo, o fortalecimento de aparatos de segurança, a expansão do complexo industrial-militar e a projeção de valores associados ao liberalismo político e econômico. Esses elementos foram institucionalizados, após a Segunda Guerra Mundial, na chamada Ordem Liberal Internacional.
A longevidade desse arranjo, contudo, nunca dependeu apenas da adesão voluntária a esses valores. Ela foi sustentada por um conjunto de mecanismos de regulação pela força, entre os quais se destacam a pacificação e o militarismo.
Aqui, o conceito de pacificação não deve ser confundido com a ideia de paz. Trata-se de um empreendimento por meio do qual o Estado promete segurança e estabilidade, legitimando, para isso, o uso ou a ameaça de força. Seu objetivo principal é construir uma ordem social específica para preservar a acumulação capitalista.
A literatura especializada aponta que, no plano externo, a pacificação frequentemente se traduz na subjugação de outros povos e na extração de seus recursos. No plano interno, ela se manifesta em políticas repressivas que marginalizam grupos considerados ameaçadores, contribuindo para moldar relações de classe, raça e cidadania.
O militarismo, por sua vez, não é apenas o aumento do orçamento ou da presença das forças armadas. Ele organiza a vida social de modo a naturalizar a violência como parte do funcionamento da sociedade. Em nome da segurança nacional, justifica-se tanto o intervencionismo externo quanto o uso da força contra populações internas. Esse aparato atende, simultaneamente, a interesses econômicos e a objetivos geopolíticos ligados à preservação da hegemonia.
O governo Trump II: crise e regulação pela violência
Apesar da retórica do presidente Trump, os Estados Unidos enfrentam um contexto de erosão de sua autoridade política, econômica e simbólica no sistema internacional. Essa crise se expressa, entre outros fatores, no enfraquecimento da Ordem Liberal Internacional. Soma-se a isso a perda de dinamismo econômico frente à ascensão chinesa e o desgaste militar acumulado após décadas de intervenções externas, especialmente no início do século XXI.
Nesse contexto, o próprio trumpismo pode ser entendido como uma resposta sistêmica à crise. Ele funciona como uma espécie de “botão de emergência” do sistema para preservar a ordem existente. Longe de representar uma ruptura, trata-se de uma força comprometida com o status quo, como evidenciam os constantes apelos a um passado idealizado condensados no slogan Make America Great Again.
À luz da teoria gramsciana, as investidas militares externas e o endurecimento da repressão interna não devem ser lidos como excentricidades pessoais ou nostalgias imperiais. A lógica que sustenta operações militares e a violação da soberania dos Estados, é a mesma que legitima políticas de segurança que enquadram migrantes, minorias e movimentos sociais como inimigos a serem controlados ou eliminados. São expressões de uma classe hegemônica em crise, que recorre à regulação autoritária como estratégia de sobrevivência.
Ainda que esse cenário seja preocupante, ele também abre espaço para resistências e para a imaginação de alternativas. Estamos vivendo um momento de transição crucial no qual, como escreveu Gramsci, “o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer”.
As mobilizações populares contra a violência da ICE ou a oposição de organizações sindicais à intervenção na Venezuela ilustram esse processo. Elas mostram que as mesmas forças sociais que sustentam ordens hegemônicas em determinados momentos históricos, se organizadas, também são capazes de questioná-las e desestabilizá-las.
*Clarissa Nascimento Forner, Professora de Relações Internacionais, UERJ e Lucas de Oliveira Ramos, Pesquisador do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES), Universidade Estadual Paulista (Unesp); Universidade São Judas Tadeu (USJT)
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