Cinco educadores conversam sobre ‘acupuntura escolar’
O presente ensaio é a versão escrita de uma longa conversa em que participaram o presente autor e quatro educadores. Ao discutir os temas, não tivemos revelações inéditas, mas registramos fortes congruências nas percepções do grupo.
Não percebemos clima para grandiosas reformas. Daí propormos uma “acupuntura educativa”, sugerindo intervenções cirúrgicas e com algum potencial de impacto (o arquiteto e ex-governador Jaime Lerner, encontrando dificuldades para implementar os seus projetos, passou a propor “acupunturas urbanísticas”. Ou seja, intervenções pontuais, mas com potencial de ter consequências. Adotamos o termo). Acreditamos que o somatório de pequenas alterações pode ter impacto substancial.
Foi fácil concluir que a educação não vai bem
Desaponta o estado do nosso ensino. No lado positivo, tivemos uma explosão nas matrículas, em todos os níveis. De um sistema pequeno e ruim, passamos a outro, grande, mas com qualidade deficiente.
É enorme a variância no seu desempenho. Há escolas com resultados de primeiro mundo. Mas, são poucas, contrastando com a maioria fraca. As piores estão nas periferias urbanas. É dentre os pequenos municípios que se multiplicam os casos de sucesso, ainda que apareça um ou outro maior, como Teresina e Joinville.
Sistema heterogêneo e visões fragmentadas
Os sistemas escolares são muito fragmentados. MEC, estados e os municípios não formam um todo coerente e complementar. Apesar de sua expansão, ainda são poucas as Secretarias Estaduais que ajudam as municipais.
Como contraponto, desenvolveu-se no Brasil uma filantropia empresarial, ativa e com certa capacidade vocal. Festejemos. Porém, apenas recentemente observam-se esforços para evitar desencontros entre suas múltiplas iniciativas.
O principal problema não é falta de dinheiro, mas seu mau uso
Muitos dos nossos problemas não são de falta de recursos. É que os usamos mal. Em educação, como proporção do PIB, gastamos ligeiramente acima da média mundial (5,5%). Mas, o básico é subfinanciado e o superior caro demais.
Observa-se uma correlação bastante fraca entre gastos e desempenho educacional. Ou seja, não é preciso ser rico para ter boas escolas.
O caso do ensino médio é paradigmático. Em uma década, duplicaram-se os gastos por aluno, sem que crescesse o desempenho.
Os recursos do MEC são pulverizados em múltiplos programa, sem deixar um rastro significativo. Não há cobrança de resultados e ninguém é punido por desmandos.
Foi decidido que todo o ensino superior público deveria seguir o caríssimo modelo da universidade de pesquisa alemã. Funcionou, para as poucas universidades mais maduras. Mas, nas demais, a pesquisa não se materializou. Pior, os altos custos do modelo inviabilizaram a sua expansão. Daí a decisão de permitir a entrada do setor privado, diante do clamor por mais vagas.
Problemas crônicos no manejo da sala de aula
Sabemos quais são as melhores práticas, mercê de ampla pesquisa. Falta apenas acreditar no que diz a boa ciência.
Não nos livramos de um ensino que privilegia a memorização. Pior, distancia os currículos do mundo dos alunos – sobretudo, no ensino médio.
Só aprendemos, quando aplicamos. Contudo, com ementas sobrecarregadas é inviável aprofundar.
No século XX, o método fônico foi substituído pelo global. Mas, a evidência mostrou ser um método pior, sendo abandonado nos países mais avançados. Porém, dentre nós, continua sendo defendido e majoritariamente adotado.
A avaliação é o “termômetro” do ensino
Um avanço altamente positivo foi a criação de um sistema sério e abrangente de avaliação do desempenho dos alunos.
Porém, notamos dois aspectos negativos. Os nossos testes estão ficando obsoletos ou defasados. E as políticas educacionais ignoram as avaliações.
Formamos e tratamos mal os nossos professores
Nada é comparável ao impacto dos professores sobre o aprendizado. Porém, a carreira coleciona problemas. A atmosfera tóxica nas escolas públicas reduz a atratividade da carreira.
As faculdades de educação têm uma pletora de disciplinas. Mas, nem ensinam os currículos do fundamental e nem como dar aulas.
A vasta maioria dos futuros professores frequenta cursos noturnos, por ter que trabalhar. Porém, estudam pela manhã todos os alunos com quem poderiam praticar as artes. Impasse. Liderança e gestão nos sistemas educativos
O MEC deveria exercer uma sólida liderança intelectual, com ministros de peso político. Ademais, a frondosa burocracia requer bons gestores. Infelizmente, nada disso ocorre. Há ideologização, modismos, descontinuidade e o uso político dos cargos.
A governança nas universidades federais é disfuncional. Os reitores têm pouco poder. Os sindicatos, com baixa representatividade, o tem demais.
O setor privado é parte da solução, não do problema
Durante o Império, o ensino superior era público e o básico privado. Hoje, quase todo o ensino básico é público, enquanto o privado captura 80% das matrículas. Uma cambalhota.
No básico privado está o melhor do ensino brasileiro. E os Sistemas de Ensino trazem ganhos de aprendizado para as escolas públicas.
Sem onerar os cofres públicos, o ensino privado superior está ao alcance de uma faixa de renda modesta. É claro, a sua qualidade reflete as receitas cobradas. Mas, diante de eventuais abusos, com os instrumentos que possui, cabe ao Estado a supervisão.
Em suma, o setor privado é parte da solução, não do problema.
O cerne do problema: a sociedade não valoriza a educação
A vontade dos cidadãos sempre conta. Infelizmente, nossa sociedade não valoriza a educação de qualidade. Dois terços dos professores, alunos e pais estão contentes com a educação oferecida. É a sétima prioridade nacional. Sendo assim, não se geram as pressões necessárias para enfrentar a inércia e os perdedores.
No fundo, se a sociedade está contente, não se pode esperar que brigue, arrostando o status quo.
O Brasil é um grande laboratório de experimentação educativa
Há muita experimentação e muita inovação. Mas, essas inovações não são replicadas. Portanto, faz sentido promover a sua disseminação.
O Sistema S dá bons exemplos. As Olimpíadas de Matemática também. O “visgo” da tecnologia pode ser notado nos concursos de robótica e hackatons.
O caminho das intervenções modestas: a “acupuntura educativa”
Concluímos endossando intervenções mais modestas e cirurgicamente aplicadas. É a “acupuntura educativa”. Vejamos exemplos:
Capitalizar no que deu certo.
Apostemos nas ideias implementáveis. Por exemplo, os regimes de colaboração.
Apoiar experimentos com boa escalabilidade.
Escolas experimentais são difíceis de serem duplicadas. É melhor focalizar os esforços nas ideias escaláveis.
Temas promissores:
Aqueles, ao mesmo tempo, exequíveis e com consequências tangíveis.
• Reformar profundamente as escolas que formam professores. Mesmo dentro dos currículos oficiais, é possível lapidar escolas bem melhores
• Disseminar os melhores métodos para lidar com a sala de aula
• Mudar o método de alfabetização
• Atualizar instrumentos de avaliação
• Atualizar instrumentos de avaliação
Apoiar municípios ou escolas que têm o DNA da mudança.
Apostar naqueles cujo Prefeito ou o Secretário tem apreço pela educação.
Apoiar candidatos com demonstrável interesse em educação.
Se podemos ter um impacto nas chances de ser eleito um candidato, escolhamos aqueles apaixonados pela educação.
Claudio de Moura Castro: Economista pela Universidade Federal de Minas Gerais, mestre pela Universidade de Yale e doutor pela Universidade Vanderbilt, ambas nos EUA. Pesquisador em Educação
Jose Pastore: Foi professor da Faculdade de Economia e Administração e da Fundação Instituto de Administração, ambas da Universidade de São Paulo. É membro da Academia Paulista de Letras
Maria Helena Guimarães de Castro: Maria Helena Guimarães de Castro é socióloga e membro do Conselho Estadual de Educação de São Paulo e da Academia Brasileira de Educação.
Simon Schwartzmann: Simon Schwartzmann é sociólogo e pesquisador no Instituto de Estudos de Política Econômica (Casa das Garças)
Mario Ghio: Preside o Instituto Alfa e Beto e a Verbum Educação, é conselheiro de ONGs dedicadas à melhoria de escolas públicas
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