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Fausto Godoy: O Brasil, a China e a tal da ‘parceria estratégica’

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Visita do presidente Lula e ampla comitiva a Pequim inclui uma lista de acordos em diferentes áreas, como iniciativas na pauta ambiental. Para embaixador, sem vontade política, esses documentos permanecem como simples ‘acordos de vontade’, e é preciso um real pragmatismo que vença os preconceitos para desenvolver parceria não somente abrangente, mas efetiva

O presidente da China, Xi Jinping, durante visita ao Brasil em 2019 (Foto: Agência Brasil)

Por Fausto Godoy*

A imprensa tem noticiado com grande alarde o enorme interesse e as expectativas das nossas empresas e do governo com relação à visita que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fará à China entre os dias 26 e 31 deste mês. Segundo o noticiário, “empresários brasileiros disputam vaga na comitiva que acompanhará a viagem do presidente”. Cerca de 240 representantes de 140 setores empresariais e a cúpula do governo teriam aderido à iniciativa. Alguns deles já estão inclusive na China… Um grande alvoroço, que levou o vice-presidente Geraldo Alckmin a afirmar que há um “overbooking” de candidatos à comitiva. A visita está sendo qualificada como “a retomada de um relacionamento” que não faz muito tempo sofreu grande desgaste, como sabemos.

Acredito que é chegado o momento de analisar de maneira sóbria as esperanças e a(s) realidade(s).

Primeiramente devemos buscar entender este alvoroço “súbito” de muitos visitantes em se aproximarem de um governo “comunista” que, não faz muito tempo, execravam… Pragmatismo responsável??? A verdade é que, apesar de todo o falatório ideológico, a China está se tornando indispensável para nós, assim como para cerca de 125 países para os quais ela é o principal parceiro comercial, o que lhe dá o embarrass du choix (o embaraço da escolha), como dizem os franceses, nas suas parcerias.

Chegamos tarde?

Acho que teríamos que voltar no tempo até 1993, quando o então vice-primeiro-ministro encarregado das reformas econômicas, Zhu Rongzhi, visitou o Brasil e cunhou o termo “parceria estratégica” para qualificar as relações entre ambos. 

Este termo não era incidental para os chineses, que mantinham então este tipo de relacionamento com apenas os Estados Unidos, a França e a Rússia. Todas elas circunscreviam a parceria a uma área preferencial: tecnologia de ponta com os americanos (estamos falando de 1993…); uma “global de longo prazo” com a França; e, com a Rússia, uma parceria “estratégico-cooperativa com vistas ao século XXI”. 

Posteriormente, Li Ruihuan, um dos sete integrantes do Politburo, esteve no Brasil, em 1995, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, e afirmou que “o Brasil é o maior país em desenvolvimento no cenário latino-americano, e a China é o maior país em desenvolvimento do mundo; entre os dois países existem muitos pontos de identidade: estão ambos empenhados em conseguir desenvolvimento econômico e em melhorar as condições de vida de suas populações… Eles devem estreitar suas relações para enfrentar as tentativas dos países ricos de impor sua vontade no cenário mundial”.

Incidentalmente, naquele momento – 1995 –, o nosso Produto Interno Bruto era de US$ 850,4 bilhões e o da China US$ 734,5 bilhões, ou seja, éramos mais “ricos” que os chineses! Desde então, muita água passou debaixo dessa ponte…

Para nós, a parceria estratégica significava uma grande gama de temas, inclusive de alta-tecnologia. Foi assim que concluímos, em 1992, o primeiro  acordo de um projeto bilateral de tecnologia de satélites entre países em desenvolvimento: o CBERS (China-Brazil Earth Resources Satellite, em português: “Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres”), fruto deste acordo, que hoje já se encontra na sua sexta edição, com o lançamento do CBERS 04A, em dezembro de 2019. 

Entretanto, para os chineses, a parceria visava sobretudo os nossos recursos agrícolas e as commodities para alimentar uma população já então na casa do bilhão e uma economia em expansão acelerada. Fruto disso, eles se tornariam, a partir de 2009, o nosso principal parceiro comercial.

Desenvolvimentos posteriores buscaram cumprir as expectativas. Durante os governos FHC e Lula os contatos oficiais se mantiveram suficientemente estreitos, como exemplifica a visita de Estado de FHC a Pequim, em 1995, e a de Lula, em março de 2004, a qual incluiu 450 representantes de empresas brasileiras, levando o então ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, a observar que “a crescente relação poderia ser parte de uma reconfiguração da geografia comercial e diplomática do mundo”. Ambicioso?

Já no governo de Dilma Rousseff, o presidente Xi Jinping, que veio ao Brasil para participar da VI cúpula dos BRICS, em Fortaleza, propôs que elevássemos as nossas relações a uma ambiciosa “Parceria Estratégica Abrangente”. 

Foi nessa ocasião que o Novo Banco de Desenvolvimento – o Banco dos BRICS – foi criado. Segundo os analistas Williams Gonçalves e Lana Bauab Brito, “os chineses definem parceria estratégica como um comprometimento de longo prazo entre dois atores importantes para o estabelecimento de uma estreita relação entre um número significante de áreas… No entanto, isso não significa que não haverá diferenças entre eles, mas sim que os atores reconhecem a importância do seu comprometimento um com o outro e que estão preparados para tentar alcançar um acordo quando possível”. Ou seja, se resguardariam as diferenças político-ideológicas.

Pergunta: Isso se verifica ainda hoje, após o interregno do nosso governo anterior?

Acompanhamos – muitos de nós constrangidos – os percalços entre os dois governos na “era Bolsonaro”. Nesse ínterim, a República Popular da era Xi veio ganhando grande – e complexa – proeminência na arena internacional, abandonando paulatinamente a sua política externa tradicional de “não interferência nos assuntos internos de outros países”, como vimos na mediação do Presidente Xi para a reaproximação entre Irã e Arábia Saudita, que analisei num artigo anterior, e na visita que ele realiza a Moscou neste momento, a qual pode ser interpretada como um apoio – seletivo – a Vladimir Putin. Seria ele o novo international influencer?

E será que nesta ampliação do universo político-estratégico dos chineses caberia espaço para um Brasil “penitente”? Vale lembrar que em nenhum momento durante os nossos  quid pro quos, os chineses foram além da retórica e de ameaças. E conhecemos bem, os que tivemos a oportunidade de morar na China, o seu âmago mercantilista, que se replica em todas as esferas. Interessa-lhes, obviamente, manter o status quo de um relacionamento que lhes propicia segurança alimentar e provê matéria-prima para o seu crescimento econômico. No longo prazo tudo se acerta…

Mas há outros candidatos para os chineses, sobretudo africanos e latino-americanos. Mas também há interesse do governo Lula, com menos arestas “ideológicas”, em mudar esse perfil. Meus colegas diplomatas dizem que está em discussão uma lista de acordos em diferentes áreas, inclusive iniciativas na pauta ambiental. A problemática maior nesses tipos de acordo é que, sem efetiva vontade política, estes documentos permanecem como simples “acordos de vontade”. Já vi vários semelhantes. Esperemos que desta feita um real pragmatismo vença os preconceitos, e que a delegação retorne da visita com uma parceria não somente abrangente, mas efetiva, guardadas as devidas distâncias, evidentemente. Não há muito tempo a perder.

To be continued…


*Fausto Godoy é colunista da Interesse Nacional. Bacharel em direito, doutor em direito internacional público pela Universidade de Paris (I) e diplomata, serviu nas embaixadas do Brasil em Bruxelas, Buenos Aires e Washington. Concentrou sua carreira na Ásia, onde serviu em onze países. Foi embaixador do Brasil no Paquistão e Afeganistão (2004/2007) e Cônsul-Geral em Mumbai (2009/10). É coordenador do “Centro de Estudos das Civilizações da Ásia” da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e curador da Ala Asiática do MON.


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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