A postura do governo Lula em relação à guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia
Nota sobre a postura do governo Lula no tocante ao “conflito na Ucrânia”, pela via das declarações oficiais do governo Lula a respeito do que é, de fato, uma guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia.

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se distingue do governo de Jair Bolsonaro em quase todos os pontos de sua agenda interna e externa, e em praticamente todos os setores relevantes da vida nacional e na política externa. Em uma única questão eles são quase absolutamente idênticos, com um agravante, porém, para o governo Lula: a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia.
E tal postura não se manifesta unicamente desde a invasão total da Ucrânia por forças militares russas em fevereiro de 2022; ela vem desde a invasão e a incorporação ilegais da península ucraniana da Crimeia, em fevereiro de 2014, atos sobre os quais a presidente Dilma declarou tratar-se de um “problema interno” à Ucrânia, com o que o Brasil não teria “nenhuma posição” a tomar.
O presidente Jair Bolsonaro, contra as recomendações do Itamaraty, e não obstante alertas do governo americano sobre uma guerra iminente na região, decidiu visitar seu colega Vladimir Putin uma semana antes da fatídica invasão, em 24 de fevereiro de 2022, quando, numa frase confusa – como sempre foi o seu estilo – declarou-se “solidário a vocês”, isto é, aos russos.
‘Em praticamente todas as questões atinentes a essa guerra de agressão, as posições fundamentais dos dois governos não discrepam um milímetro’
Depois que a invasão se consumou, a postura do governo Bolsonaro foi a de expressar sua consternação, mas não mais do que isso. Em praticamente todas as questões atinentes a essa guerra de agressão – contrária, portanto, e em violação expressa e aberta aos artigos pertinentes da Carta da ONU, assim como às normas mais elementares do Direito Internacional e do direito humanitário –, as posições fundamentais dos dois governos não discrepam um milímetro, e no que discrepam o é em desfavor do governo Lula.
Não é preciso retomar as dezenas de notas emitidas pelo Itamaraty desde 2022 – declarações oficiais na ONU, do próprio presidente, das autoridades diplomáticas –, dispensando, portanto, algumas poucas notas desde a invasão da Crimeia em 2014, para constatar a “consistência” conceitual entre um governo e outro. Basta referir-nos à última declaração expressamente a respeito feita pelo presidente Lula, quando da abertura dos debates na Assembleia Geral da ONU. Eis o trecho relevante:
No conflito na Ucrânia, todos já sabemos que não haverá solução militar. O recente encontro no Alaska [refere-se à “visita de Estado” de Putin a Trump, pouco antes] despertou a esperança de uma saída negociada. É preciso pavimentar caminhos para uma solução realista. Isso implica levar em conta as legítimas preocupações de segurança de todas as partes. A Iniciativa Africana e o Grupo de Amigos da Paz, criado por China e Brasil, podem contribuir para promover o diálogo. (discurso na ONU, em 23 de setembro de 2025)
Com a exceção da referência a um encontro entre Putin e Trump no Alaska, assim como a uma “iniciativa africana” (da qual não mais e ouviu falar) e a uma proposta antiga de China e Brasil para um “diálogo” entre as partes em guerra (também sem qualquer continuidade), pode-se dizer que a postura do governo Lula em relação à guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia permanece rigorosamente a mesma: não há “solução militar”, apenas uma via “realista”, e existiriam “legítimas preocupações de segurança” de ambas as partes, como se elas fossem iguais, no terreno e em face dos dispositivos da Carta da ONU.
‘O governo Lula não apenas manteve o comércio regular com a Rússia existente no governo anterior, mesmo após a invasão da Ucrânia, como ele aumentou exponencialmente as importações brasileiras de combustíveis e fertilizantes da Rússia, o que é uma forma de apoiar concretamente o agressor’
Tais assertivas têm sido usadas desde a invasão total da Ucrânia pela Rússia em 2022, com um agravante, porém. O governo Lula não apenas manteve o comércio regular com a Rússia existente no governo anterior, mesmo após a invasão da Ucrânia – ao passo que os países respeitadores do Direito Internacional introduziram sanções contra o agressor, como recomendado pela Carta da ONU, moderadas em 2014, mais severas desde 2022 –, como ele aumentou exponencialmente as importações brasileiras de combustíveis e fertilizantes da Rússia, o que é uma forma de apoiar concretamente o agressor em suas ações ilegais e criminosas (como estipulado pelo Tribunal Penal Internacional, do qual o Brasil é membro).
O governo Lula fez bem mais do que isso: sustentou diplomaticamente – quando não precisaria fazê-lo – as posturas do governo russo em sua guerra ilegal de agressão contra um Estado soberano, ao incorporar como suas as alegações do governo de Moscou sobre as tais “legítimas preocupações de segurança” das duas partes, como se ambas tivessem decidido recorrer às armas depois de algum argumento político prévio, ou como se a Ucrânia tivesse representado qualquer ameaça à segurança da Rússia antes ou depois de 2014, quando foi a Rússia quem desencadeou manobras secretas na Ucrânia oriental (Donbas), já em preparação de uma futura invasão total finalmente realizada em 2022.
Pior: o governo não apenas ignorou as sanções introduzidas pelos países aderentes ao Direito Internacional, como também pretendia fazer com que Putin, sancionado pelo TPI, viesse ao Brasil por ocasião da cúpula do G20 no Rio de Janeiro, em dezembro de 2024; ele até cogitou retirar o Brasil do Estatuto de Roma (sem saber o que é isso), para lograr a visita de Putin sem ter a obrigação de detê-lo e remetê-lo à Haia, no que foi demovido por assessores mais sensatos.
Lula visitou Putin pessoalmente, por ocasião da “celebração” dos 80 anos da vitória russa contra o “agressor nazista”, realizada em Moscou em maio de 2025, provavelmente na completa ignorância de que a guerra só tinha sido deslanchada na Europa em 1939 devido à aliança entre a Alemanha nazista e a União Soviética stalinista, em agosto daquele ano, que também previa, em um protocolo secreto, a partilha da Polônia invadida, aliança que se desfez em junho de 1941, com a invasão da Rússia pela Wehrmacht.
‘São inúmeros os gestos de deferência de Lula para com Putin, no que ele arrasta a diplomacia do Brasil para uma inoperância e um silêncio absolutos em relação aos inúmeros crimes de guerra cometidos pelas forças russas contra a população e infraestrutura civil da Ucrânia’
Antes e depois dessa celebração, foram, e são inúmeros os gestos de deferência de Lula para com Putin, e do governo brasileiro para com a ditadura de Putin, no que ele arrasta a diplomacia do Brasil para uma inoperância e um silêncio absolutos em relação aos inúmeros crimes de guerra cometidos pelas forças russas contra a população e infraestrutura civil da Ucrânia.
Na verdade, tais posturas de Lula são históricas e até antecedem seu terceiro mandato como presidente. Desde o início de seu primeiro mandato, em 2003, Lula cultiva uma afeição especial por Putin e pela Rússia como partes de um conjunto de países que se opõem ao unilateralismo da principal potência ocidental, a maior do mundo, em termos bélicos e econômicos, na tentativa de criar uma nova coalizão, regional ou mundial, para “mudar as relações de força no mundo”, como sempre mencionado por ele e por seu ex-chanceler (nos dois primeiros mandato) e atual conselheiro de assuntos internacionais (por muitos apontado como “chanceler de fato”).
Durante a campanha eleitoral de 2022, Lula chegou inclusive a sugerir que a Ucrânia cedesse seus territórios à Rússia como o “preço a pagar” para obter a paz, o que obviamente não recebeu qualquer assentimento por parte da Ucrânia ou dos países respeitadores da Carta da ONU e do Direito Internacional.
‘O apoio econômico e político nessa mesma tendência é basicamente transparente nas declarações do grupo Brics, chegando até a dispensar, nos dois últimos comunicados, qualquer menção ao que é chamado de “conflito na Ucrânia”’
O apoio econômico e político nessa mesma tendência é basicamente transparente nas declarações do grupo Brics, chegando até a dispensar, nos dois últimos comunicados, qualquer menção ao que é chamado de “conflito na Ucrânia” nas dezenas de parágrafos desses textos.
O silêncio do Itamaraty sobre o tema da Ucrânia é assustadoramente eloquente, quando o ministério emite notas a respeito de qualquer catástrofe natural ou humanitária em qualquer parte do mundo, segundo os critérios habituais do corpo diplomático em matérias de relevância política ou social. Sobre a Ucrânia, desde 2022, à margem de algumas poucas reuniões multilaterais, o Itamaraty emitiu apenas duas notas, dirigidas aos brasileiros, com respeito a cuidados de segurança pessoal em virtude do “conflito”; mas instruções foram dadas à delegação em Genebra para a abstenção do Brasil no tocante a uma resolução do Conselho de Direitos Humanos sobre as crianças ucranianas raptadas pelas forças russas e entregues para adoção por famílias na Rússia.
Não cabe esperar, portanto, qualquer manifestação mais enfática, do presidente Lula ou do Itamaraty a respeito da situação da guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia, por ocasião da abertura dos debates na Assembleia Geral da ONU em Nova York, em sua 81a. sessão, a não ser as mesmas preocupações com a escalada do “conflito” e os apelos reiterados a uma solução negociada que contemple, obviamente, as “legítimas preocupações de ambas as partes” no tocante à segurança, o que não deixa de ser uma hipocrisia diplomática das mais questionáveis.
Ao persistir nessa via de apoio objetivo ao governo russo na sua guerra de agressão, o presidente Lula arranha a credibilidade da diplomacia brasileira, tal como o presidente Bolsonaro já o tinha feito em inúmeros outros setores e assuntos.
É diplomata e professor, doutor em Ciências Sociais (Universidade de Bruxelas) e mestre em Economia Internacional (Universidade de Antuérpia). Dedica-se a atividades acadêmicas e é autor de livros sobre relações internacionais, diplomacia econômica e história diplomática do Brasil
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