05 janeiro 2026

Ação dos EUA no seu quintal

Durante os próximos três anos, veremos a repetição do uso da força e do desrespeito às regras internacionais para a exclusiva defesa dos interesses prioritários de Washington no mundo

Foto: Casa Branca

Não demorou muito tempo para os EUA aplicarem a moderna Doutrina Monroe, prevista na recém anunciada Estratégia Nacional de Segurança. 

Durante os próximos três anos, veremos a repetição do uso da força e do desrespeito às regras internacionais para a exclusiva defesa dos interesses prioritários de Washington no mundo.

Como era possível prever, a mobilização bélica norte-americana no Caribe e a infiltração da CIA em território venezuelano aguardaram o melhor momento para executar uma precisa operação de ataque a instalações militares e de captura do presidente Nicolás Maduro e sua mulher. 

‘Ficou claro que o objetivo não era o combate ao narcotráfico, mas sim o controle das maiores reservas de petróleo do mundo’

Na longa entrevista de Donald Trump, ficou claro que o objetivo não era o combate ao narcotráfico, mas sim o controle das maiores reservas de petróleo do mundo.

Na entrevista, o presidente norte-americano, explicitou que a intervenção armada terá profundas consequências para a vida política e econômica da Venezuela. 

Marco Rubio ficou encarregado de “governar indefinidamente o país de comum acordo com a liderança venezuelana”. Se não for como Washington deseja, Trump anunciou que “haverá uma segunda onda de ataque muito mais séria e profunda”. 

A governança prevê o controle das reservas de petróleo por companhias norte-americanas que venderão o petróleo para quem quiser comprar, inclusive a China e a Rússia, a preço de mercado. 

‘Os EUA atingem o segundo alvo da operação: Cuba’

Com isso, os EUA atingem o segundo alvo da operação: Cuba. 

O governo de Havana nos últimos anos conseguia petróleo subsidiado de Caracas, o que evitava o agravamento da situação econômica já bastante debilitada. Com a suspensão do petróleo subsidiado, a crise econômica em Cuba se agravará, ameaçando a estabilidade do regime cubano, objetivo declarado de Rubio.

Nos EUA, haverá forte reação da opinião pública e do Congresso. A operação contradiz a filosofia MAGA de evitar ataques militares a outros países e poderá ser considerada ilegal por não ter sido comunicada antecipadamente ao Congresso norte americano. 

A intenção do governo de Washington vai ser contestada por todos os que consideram que Trump não está dando prioridade  ao governo de seu próprio país.

‘Causa grande surpresa a inexistência de qualquer reação à captura do líder venezuelano’

Conhecendo a coesão militar do governo Maduro e a recente nota da liderança do exército de fidelidade e apoio ao presidente, causa grande surpresa a inexistência de qualquer reação à captura do líder venezuelano, aparentemente dentro de uma base militar. Por outro lado, causa também surpresa a reação da vice-presidente, Delcy Rodrigues, que já teria conversado com Marco Rubio, mas, ao assumir a presidência por decisão da Corte Suprema, foi apoiada pelos militares, e fez fortes declarações na defesa do regime bolivariano.

Como seria previsível, a reação internacional dos líderes europeus foi fraca e cautelosa, enquanto as da Rússia e China, parceiros mais próximos da Venezuela, foi mais forte, porém comedida.

No Brasil, o governo brasileiro se manifestou por nota do presidente Lula que considerou a ação norte-americana contrária ao Direito Internacional e que a “ação representa uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente perigoso para toda a comunidade internacional e ultrapassam uma linha inaceitável”. 

Por outro lado, o Ministro Mauro Vieira participou ontem por vídeo conferência de reunião de países latino americanos e do Caribe (CELAC) e hoje o Brasil participa de encontro do Conselho de Segurança da ONU para tratar da situação na Venezuela.

Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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