02 junho 2023

Cem anos de Kissinger: seu legado pode ser misto, mas sua importância foi enorme

Criticado por desrespeitar o direito internacional e violar a soberania de muitas nações, o diplomata, acadêmico e estrategista norte-americano nascido na Alemanha acreditava na ‘realpolitik’ e deixou uma marca na política global

Criticado por desrespeitar o direito internacional e violar a soberania de muitas nações, o diplomata, acadêmico e estrategista norte-americano nascido na Alemanha acreditava na ‘realpolitik’ e deixou uma marca na política global

Henry Kissinger, Richard Nixon and Golda Meir stood smiling with aides.
Henry Kissinger com o então presidente dos EUA Richard Nixon e a premiê israelense Golda Meir na Casa Branca em 1973 (Foto: Library of Congress)

Por André Carvalho, Anurag Mishra e Zeno Leoni*

Henry Kissinger, que completou cem anos em maio. é amplamente considerado uma das figuras mais influentes nas relações internacionais do século XX. O diplomata, acadêmico e estrategista norte-americano nascido na Alemanha deixou um legado indelével na política global que continua a atuar como um marco para estudiosos de relações internacionais, estudantes e praticantes de política de Estado de hoje.

A partir do final da década de 1960, Kissinger desempenhou um papel importante na formação da política externa dos Estados Unidos e na condução da complexa dinâmica da era da Guerra Fria. Suas contribuições para as relações internacionais tiveram um impacto duradouro, rendendo-lhe reconhecimento como um estrategista e diplomata visionário.

Poucos discordariam de que a influência de Kissinger na política externa dos Estados Unidos foi imensa, principalmente como pensador e acadêmico. Mas seu impacto mais significativo foi por meio de seu trabalho como secretário de Estado e conselheiro de segurança nacional dos presidentes dos Estados Unidos, Richard Nixon e Gerald Ford.

Uma de suas principais contribuições foi seu trabalho para a reaproximação dos EUA com a República Popular da China, planejando a viagem histórica de Nixon à China em 1972 por meio de negociações secretas e diplomacia hábil. Foi um evento marcante na política externa dos EUA que moldou o envolvimento de Washington com Pequim desde então.

A participação de Kissinger nas negociações dos acordos de paz de Paris de 1968 a 1973, que efetivamente encerraram o envolvimento direto dos EUA na Guerra do Vietnã, foi outra conquista importante. Seus esforços incansáveis na diplomacia entre os EUA, Vietnã do Norte e Vietnã do Sul contribuíram para estabelecer um cessar-fogo e evacuar os soldados americanos, encerrando o envolvimento direto dos EUA.

Henry Kissinger, Richard Nixon and John Wayne sit around a desk in an office in front of flags.
Henry Kissinger com Richard Nixon e o ator John Wayne (EatPay3/Wikimedia Commons, CC BY-NC)

Mas, apesar dos elogios, triunfos – e até do Prêmio Nobel da Paz em 1973 por sua contribuição aos acordos de Paris – o histórico e o legado de Kissinger são controversos. Há muito tempo existe um debate sobre a abordagem de Kissinger aos assuntos internacionais, que, de acordo com seus muitos detratores, muitas vezes negligenciava considerações éticas.

Preocupações sobre ligações com violações de direitos humanos e enfraquecimento de valores democráticos foram provocadas por seu apoio a regimes autoritários como o Chile de Augusto Pinochet. Independentemente disso, Kissinger nunca vacilou em sua convicção de que sua diplomacia deveria colocar os interesses dos EUA em primeiro lugar, ao mesmo tempo em que apreciava a complexidade do cenário internacional.

Política externa

Desde seus dias no governo, e depois por sua contínua influência como um renomado acadêmico, o pensamento estratégico e a abordagem diplomática de Kissinger moldaram a política externa dos EUA de maneiras significativas.

A maior contribuição de Kissinger para a política externa dos Estados Unidos foi sua defesa da realpolitik. Ele acreditava que os EUA deveriam basear suas decisões de política externa em uma avaliação clara e sistemática da dinâmica do poder e na busca da estabilidade geopolítica.

Foi uma abordagem que enfatizou a busca pragmática dos interesses nacionais em vez de uma adesão estrita a princípios ideológicos abstratos.

A principal característica dessa realpolitik era a importância de manter um equilíbrio de poder, acreditando que os EUA deveriam se envolver ativamente com outras grandes potências para impedir que qualquer nação ganhasse hegemonia ou ameaçasse o domínio dos EUA.

Essa abordagem moldou a maneira como lidou com os principais eventos geopolíticos durante a Guerra Fria, como a mencionada normalização das relações com a China, bem como o desenvolvimento de uma política de détente em relação à URSS no início dos anos 1970. Essa perspectiva também emergiu claramente em sua abordagem da invasão russa da Ucrânia.

https://interessenacional.com.br/edicoes-posts/um-legado-torturado-e-mortal-kissinger-e-a-realpolitik-na-politica-externa-dos-estados-unidos/

Kissinger também fez contribuições significativas para o controle de armas e esforços de não proliferação nuclear durante sua gestão no Departamento de Estado. Seu pensamento sobre a dissuasão nuclear enfatizou a estabilidade estratégica e a necessidade de prevenir a proliferação.

Nesse sentido, sua ênfase em negociações e engajamento diplomático – intensificada por seu método de “diplomacia de ponte aérea” – conseguiu reduzir a ameaça nuclear.

Ele desempenhou um papel fundamental na negociação de acordos de limitação de armas estratégicas (Salt) na década de 1970, que resultaram nos acordos históricos Salt I (1972) e Salt II (1979), promovendo a estabilidade nas relações EUA-URSS.

No Oriente Médio, sua “diplomacia de ponte aérea” demonstrou mais uma vez sua capacidade de trazer adversários à mesa de negociações, notadamente durante os conflitos árabe-israelenses da década de 1970 e a negociação do acordo Sinai II em 1975, que – temporariamente pelo menos – estabilizou as relações entre Israel e o Egito.

J’accuse: os críticos de Kissinger

Mas o legado de Kissinger também atraiu críticas contundentes. Entre seus críticos mais vocais e persistentes estava o falecido escritor e jornalista britânico Christopher Hitchens. O livro de Hitchens O julgamento de Kissinger apresentou uma série de argumentos sobre supostos crimes de guerra cometidos por seu “inimigo” americano.

Hitchens acusou Kissinger de desrespeitar o direito internacional e violar a soberania de muitas nações. Seu suposto envolvimento em ações militares controversas, como as campanhas secretas de bombardeio do Camboja e do Laos, atraiu críticas substanciais e levantou preocupações sobre responsabilidade e transparência na tomada de decisões da política externa dos EUA.

Além disso, os EUA – sob sua orientação – também são acusados de lançar operações secretas para derrubar o presidente legitimamente eleito do Chile, Salvador Allende, em 1973, a fim de instalar Pinochet e de fechar os olhos aos abusos dos direitos humanos ocorridos durante o regime de Pinochet.

Da mesma forma, o apoio ostensivo do país à ditadura de Suharto na Indonésia desrespeitou os direitos humanos e a ética básica. Sobre isso, Kissinger disse em entrevista ao The Spectator em 2022: 

“Sou, por instinto, um defensor da crença de que a América – com todas as suas falhas – tem sido uma força para o bem no mundo e é indispensável para a estabilidade do mundo. É nessa região que tenho feito meu esforço consciente.”

Apesar de todas as críticas, Kissinger suportou e continua sendo um respeitado estudioso e conselheiro de relações internacionais até hoje. Depois de deixar o governo em 1977, ele voltou à academia, atuando como professor na Universidade de Harvard, onde havia obtido seu doutorado em política. Como estudioso, Kissinger escreveu vários livros influentes, incluindo Diplomacia (1994), Sobre a China (2011) e Ordem Mundial (2014).

O fato de ele ter sido convidado para falar no Fórum Econômico Mundial em Davos neste ano mostra que, embora controverso, até hoje Henry Kissinger continua sendo uma figura altamente influente.


*André Carvalho é doutorando no departamento de Estudos de Guerra no King’s College London

Anurag Mishra é doutorando na Escola de Estudos Internacionais na Jawaharlal Nehru University

Zeno Leoni é professor do Departamento de Estudos de Defesa no Lau China Institute, King’s College London


Este texto é uma republicação do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original, em inglês.


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional


Daniel Buarque é editor-executivo do portal Interesse Nacional. Pesquisador no pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP), doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. Jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de livros como "Brazil’s international status and recognition as an emerging power: inconsistencies and complexities" (Palgrave Macmillan), "Brazil, um país do presente" (Alameda Editorial), "O Brazil é um país sério?" (Pioneira) e "o Brasil voltou?" (Pioneira)

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