23 março 2023

Daniel Buarque: Mesmo sem Trump e Bolsonaro, populismo continua ameaçando a democracia

Mobilização do trumpismo e do bolsonarismo mesmo sem seus líderes indica que a onda populista se mantém e pode voltar ainda mais extremista do que antes. Para o cientista político Daniel Drache, a democracia liberal, a ordem constitucional e o Estado de Direito continuam sob ataque em muitos países, e é preciso estar alerta

Mobilização do trumpismo e do bolsonarismo mesmo sem seus líderes indica que a onda populista se mantém e pode voltar ainda mais extremista do que antes. Para o cientista político Daniel Drache, a democracia liberal, a ordem constitucional e o Estado de Direito continuam sob ataque em muitos países, e é preciso estar alerta

Manifestante golpista se ajoelha na frente da cavalaria da PM durante ataque de eleitores de Bolsonaro à Praça dos Três Poderes em Brasília (Foto: Agência Brasil)

Por Daniel Buarque*

As derrotas de Donald Trump e Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais mais recentes nos EUA e no Brasil podem dar a impressão de que a onda global de governos populistas de extrema-direita está perdendo força. Essa visão é um engano, segundo o cientista político Daniel Drache. Para ele, o movimento é mundial, continua forte e transcende alguns líderes que podem ser derrotados nas urnas.

“O que temos agora é uma nova fase, em que vemos o bolsonarismo sem Bolsonaro e o trumpismo sem Trump, com outros líderes que podem ser ainda mais extremistas do que os originais. A próxima onda do populismo vai ser ainda mais à direita de Trump e Bolsonaro,  por mais difícil de acreditar que seja”, disse Drache em entrevista à Interesse Nacional.

Professor da universidade de York, no Canadá e co-autor do livro Has Populism Won?, ele explicou que o populismo permanece como uma insurgência global, como um ataque à democracia liberal e ao constitucionalismo que se baseia no discurso de ódio e na mentira para obter poder. 

“O populismo está vencendo? Sim, porque a democracia liberal está sob ataque’

“O populismo está vencendo? Sim, porque a democracia liberal está sob ataque. O que vemos em muitos países é que a ordem constitucional e o Estado de Direito estão sob ataque, especialmente em relação a imigrantes, ao multilateralismo, e a minorias”, avalia.

Nesse contexto, explicou, é normal esperar que esses líderes populistas sejam reeleitos com frequência, independentemente das suas declarações e ações contra minorias, como se vê na Hungria e em Israel. Mas mesmo em casos como o Brasil, onde Lula venceu a eleição, isso aconteceu por uma margem muito pequena. Assim como nos EUA, os democratas estão no poder, mas os republicanos ganharam o voto popular nas eleições legislativas nos EUA. 

“A eleição de meio de mandato nos EUA elegeu mais negacionistas eleitorais e extremistas de direita do que antes. Há muitas luzes de alerta piscando em todo o país indicando que o trumpismo está mais profundamente enraizado do que o que os resultados das eleições sugerem”, disse. “No Brasil, acho que é uma situação semelhante. A extrema-direita não venceu por pouco, e continua forte”. 

https://interessenacional.com.br/edicoes-posts/por-que-o-populismo-tem-um-apelo-duradouro-e-ameacador/

Para Drache, trata-se de uma nova fase da onda populista. O diferencial, explicou, é que não há uma desmobilização desse movimento no caso de derrotas eleitorais. “A primeira fase dessa onda foi a mobilização que levou à vitória em eleições em mais de 35 países. A fase dois é atacar mais e de uma forma mais direta e maquiavélica o constitucionalismo e ao Estado de Direito em muitos países.”

Sobre o Brasil, Drache acredita que os processos na Justiça contra os golpistas que realizaram ataque em Brasília em 8 de janeiro podem até aumentar o movimento populista, dado que o “martírio” dos que forem presos pode incentivar o grupo. “Portanto, o que provavelmente veremos nos próximos quatro anos no Brasil é um conflito crescente.”

https://interessenacional.com.br/edicoes-posts/o-ataque-golpista-no-brasil-e-um-reflexo-do-descredito-da-democracia-em-nivel-global/

O que é populismo?

O estudo de Drache define populismo como um sistema de mensagens políticas em que há uma oposição entre o povo e as elites corruptas. O cerne do enquadramento populista é a ideia de que os poderosos da sociedade estão devorando a parte de todos, o que gera ressentimento contra as elites. O curioso, entretanto, é que isso tudo é construído em cima de um líder autoritário que faz parte das elites e foi financiado pelas elites. 

“É muito mais complicado do que se pode imaginar. O populismo tem esse traço autoritário por causa do líder carismático e das crenças da população que segue este líder. O paradoxo do populismo é que ele produz líderes como Lincoln, emancipadores, mas também os napoleões, conquistadores e ditadores. Então o populismo tem dentro de si o contraste entre o povo e as elites, mas também tem, é claro, a multidão sendo usada pelas elites para conquistar altos cargos. Há sempre esse dualismo dentro do movimento populista”.

O problema, segundo ele, é que a política populista destrói o modelo democrático de construção de soluções acordadas por diferentes interesses. O objetivo passa a ser apenas o de destruir o oponente. “A ideia de há um meio-termo, acomodação e compromisso é estruturalmente muito difícil de conseguir porque as questões sobre valores, religião e o papel do Estado na vida pública estão tão polarizadas que não há respostas fáceis contra a fragmentação”, disse.

‘Em países como o Brasil, os Estados Unidos, o Reino Unido, a Hungria, Israel, a Índia, a Turquia, por exemplo, não há mais possibilidades de acomodação e concessões que estão no coração do modelo liberal democrático’

“Em países como o Brasil, os Estados Unidos, o Reino Unido, a Hungria, Israel, a Índia, a Turquia, por exemplo, não há mais possibilidades de acomodação e concessões que estão no coração do modelo liberal democrático. A dinâmica de votação mudou drasticamente em muitos países, e os eleitores de centro, os independentes que podem oscilar entre a direita e a esquerda, estão desaparecendo e não cumprem mais o papel de fazer parte de uma coalizão vencedora. Então, o que você tem é uma sociedade altamente polarizada, e isso torna muito difícil até mesmo para os democratas liberais atacar as raízes do populismo moderno.”

“O populismo está entrincheirado e tem capacidade de vencer eleições –nem todas as eleições, mas vencerão o suficiente para permanecerem poderosos e presentes e, mesmo quando não vencem, são poderosos e presentes.”


*Daniel Buarque é colunista e editor-executivo do portal Interesse Nacional, pesquisador do pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP e doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor dos livros “Brazil, um país do presente” (Alameda) e “O Brazil É um País Sério?” (Pioneira).

https://interessenacional.com.br/edicoes-posts/daniel-buarque-ataques-a-democracia-ameacam-construcao-do-prestigio-do-brasil/

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional


Daniel Buarque é editor-executivo do portal Interesse Nacional. Pesquisador no pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP), doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. Jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de livros como "Brazil’s international status and recognition as an emerging power: inconsistencies and complexities" (Palgrave Macmillan), "Brazil, um país do presente" (Alameda Editorial), "O Brazil é um país sério?" (Pioneira) e "o Brasil voltou?" (Pioneira)

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