03 agosto 2023

Daniel Buarque: O Brasil e o conceito de ‘seriedade’ nas relações internacionais

Tentativa de participar da negociação pela paz na Ucrânia não encontrou o apoio necessário para colocar o Brasil na mesa junto a grandes potências. Limitações do país se alinham ao conceito de ‘seriedade’ em relações internacionais, que indica que os países sérios são os que são consultados em grandes questões da política global

Tentativa de participar da negociação pela paz na Ucrânia não encontrou o apoio necessário para colocar o Brasil na mesa junto a grandes potências. Limitações do país se alinham ao conceito de ‘seriedade’ em relações internacionais, que indica que os países sérios são os que são consultados em grandes questões da política global

Lula e Zelensky conversam por chamada de vídeo (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Por Daniel Buarque*

A tentativa do governo brasileiro de colocar o país como um mediador para buscar a paz na guerra na Ucrânia não teve até agora um peso internacional significativo que permitisse que tivesse um papel importante nesta grave crise global. Apesar de gerar alguns acenos simpáticos por seu discurso contra o conflito, a proposta tem esbarrado na rejeição ocidental (em aliança com a Ucrânia) à postura brasileira de neutralidade. 

O Brasil também enfrenta o desafio de não ser visto pelas grandes potências como um país sério o suficiente para ter influência em questões de grande significância internacional. Essa é uma interpretação possível a partir da análise das percepções externas sobre o status do país e de uma discussão sobre o que significa o conceito de “país sério” nas relações globais.

‘Interpretação comum sobre o que é um “país sério” se concentra na capacidade de influenciar questões de relações internacionais e ter uma voz relevante no mundo’

Mesmo sem uma definição universalmente compartilhada pela academia, uma interpretação comum sobre o que é um “país sério” se concentra na capacidade de influenciar questões de relações internacionais e ter uma voz relevante no mundo. 

Como bem resumiu um membro da Câmara dos Lordes e ex-assessor de política externa do governo britânico entrevistado durante minha pesquisa de doutorado, ser levado a sério significa: “Ser consultado sobre grandes questões, porque o país é um dos grandes atores do mundo. (…) Se o Reino Unido considera uma ação militar, por exemplo, telefonemas para o presidente brasileiro não estão na lista de prioridades do primeiro-ministro… Isso indica se você é levado a sério ou não”, disse. 

O conceito foi discutido no meu artigo What makes a serious country? The status of Brazil’s seriousness from the perspective of great powers, publicado na edição mais recente da revista acadêmica Place Branding and Public Diplomacy. Baseado em minha pesquisa de doutorado, ele analisa como as elites em países poderosos avaliam a discussão sobre a seriedade do Brasil como ator global. O artigo argumenta que o Brasil é reconhecido como sério de forma condicional, somente quando isso as ajuda a avançar em seus interesses globais.

https://interessenacional.com.br/edicoes-posts/o-reconhecimento-condicional-da-seriedade-do-brasil-pelas-grandes-potencias/

Como dito, essa análise é importante porque até o momento não há um consenso acadêmico sobre o conceito de “seriedade” em relações internacionais. Estudos anteriores baseados no caso do Brasil argumentaram que “nações sérias” são uma construção ocidental baseada em uma visão de modernidade e individualismo, à qual países periféricos menos desenvolvidos podem ter dificuldade em se adaptar por causa de suas próprias culturas, identidades e tradições. O conceito parecia ignorar, porém, que China, Rússia e Japão, por exemplo, não sustentam essa visão ocidental, mas ainda são tradicionalmente considerados sérios.

https://interessenacional.com.br/edicoes-posts/livro-discute-a-imagem-internacional-do-brasil-e-analisa-se-o-pais-e-visto-como-serio/

O artigo publicado na PBPD discute a percepção que a comunidade de política externa tem sobre o significado de um país sério quando discutem o caso do Brasil. A partir de uma série de avaliações deste tipo, é possível argumentar que ser percebido como um país sério significa ser um ator importante na política internacional e ter uma voz forte nas questões globais. Isso pode ser adquirido pelo potencial de poder bruto, seja econômico ou militar, e a capacidade de se envolver em assuntos globais. 

Quando questionados sobre o que entendem por “país sério”, os entrevistados deram diferentes interpretações. Algumas eram favoráveis ao Brasil, citando a arrogância de grandes potências que veem nações menores e emergentes como indignas de atenção. Outras alegavam a necessidade de ter poder militar (e vontade de usá-lo) como condição para que um país seja reconhecido como sério. Os informantes chineses costumam criticar a ética de trabalho do Brasil, que consideram frouxa e permissiva, e o fato de a população do país gostar de se divertir, como prova de que ele não é tão sério. Outras interpretações apontam para os muitos problemas internos do Brasil como parte da razão para a ideia de que não é sério.

‘A incapacidade de ter influência sobre os rumos das grandes questões globais parece ser especificamente o caso do Brasil na tentativa de negociar a paz na guerra da Ucrânia’

A incapacidade de ter influência sobre os rumos das grandes questões globais parece ser especificamente o caso do Brasil na tentativa de negociar a paz na guerra da Ucrânia. Por um lado, a Rússia não considerou os interesses e posições brasileiros ao decidir invadir o país e manter a guerra por mais de um ano. A Ucrânia, por sua vez, não incluiu o Brasil entre os parceiros prioritários na construção da sua reação ao ataque. E as potências ocidentais, que até querem o apoio brasileiro, não parecem muito preocupadas com os interesses do país. 

Todos querem que o Brasil esteja ao seu lado, mas não acham que ele seja uma prioridade ou que vá ajudar a decidir os rumos da guerra. Como já dito em outra coluna com base na mesma pesquisa, o país é visto como um “peão disputado”, uma peça pouco válida, mas que os diferentes lados em disputa querem ao seu lado. A questão é que a opinião do “peão” não é considerada tão válida, e séria o suficiente, para ter influência nos rumos do conflito.


*Daniel Buarque é colunista e editor-executivo do portal Interesse Nacional, pesquisador do pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP e doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor dos livros “Brazil, um país do presente” (Alameda) e “O Brazil É um País Sério?” (Pioneira).


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional 


Daniel Buarque é editor-executivo do portal Interesse Nacional. Pesquisador no pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP), doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. Jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de livros como "Brazil’s international status and recognition as an emerging power: inconsistencies and complexities" (Palgrave Macmillan), "Brazil, um país do presente" (Alameda Editorial), "O Brazil é um país sério?" (Pioneira) e "o Brasil voltou?" (Pioneira)

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