24 março 2023

Fernanda Nanci Gonçalves: O que esperar da visita de Lula a Xi Jinping

As relações entre Brasil e China têm uma longa trajetória e muitas potencialidades que podem ser exploradas no encontro do presidente brasileiro com o Chinês. Para professora de relações internacionais, uma das prioridades é diversificar a pauta comercial entre os países, de forma a ampliar a complexidade da economia brasileira

As relações entre Brasil e China têm uma longa trajetória e muitas potencialidades que podem ser exploradas no encontro do presidente brasileiro com o Chinês. Para professora de relações internacionais, uma das prioridades é diversificar a pauta comercial entre os países, de forma a ampliar a complexidade da economia brasileira

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a apresentação de cartas credenciais do embaixador da China no Brasil, Zhu Qingqiao (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Fernanda Nanci Gonçalves*

As relações entre Brasil e China têm se mostrado intensas, sobretudo a partir de 1993, ano no qual foi formalizada a Parceria Estratégica Sino-Brasileira, que marcou um aprofundamento nas relações bilaterais em três áreas: político-diplomática, econômica-comercial e científica-tecnológica.

No contexto da criação de uma nova ordem mundial pós-Guerra Fria, a parceria estratégica representava para o Brasil a possibilidade de diversificar relações fora do eixo América Latina-Europa-Estados Unidos. Por outro lado, a China observava no Brasil a oportunidade de penetração na América Latina. Menos de 20 anos depois, no ano de 2009, os chineses se tornaram o maior parceiro comercial brasileiro, ultrapassando os EUA, tradicional parceiro do país[1].

Embora as relações entre Brasil e China tenham se tornado objeto de maior atenção da academia e da opinião pública a partir da intensificação das relações comerciais, ressalta-se que o relacionamento bilateral não é recente. Em 1971, o Brasil reconheceu a República Popular da China (RPC) no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) e não mais Taiwan. A partir de então, os países participaram de articulações dos países do Terceiro Mundo em contestação à Guerra Fria, chegando inclusive a firmar uma cooperação estratégica na área científica-tecnológica, com a assinatura do Protocolo de Pesquisa e Produção Conjunta de Satélites Sino-Brasileiros de Recursos Terrestres (CBERS) nos anos 1980, que rende frutos até hoje.

Com o fim do isolacionismo chinês da Era Mao Tsé-Tung (1949-1976), houve uma inserção mais ativa do país nos debates da comunidade internacional, sobretudo com a abertura comercial em 1982. Nos anos 1990 e principalmente a partir do século XXI, a China fortaleceu sua presença no mundo, entrando na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001.

Apesar de no governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) a China já ser tratada como um parceiro importante do Brasil, em especial no final de seu segundo mandato, foi entre 2003 e 2010, durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que se observou uma relevância ainda maior à China na agenda diplomática brasileira, no âmbito da estratégia de inserção internacional que se convencionou chamar de “autonomia pela diversificação”[2]. O boom das commodities favoreceu as relações comerciais entre os países e, sem dúvidas, a China teve papel central para manter a economia brasileira com um desempenho ativo ao longo do período[3].

Mesmo nos governos subsequentes, em que o Brasil passou por uma aguda crise econômica, que ainda dá sinais até os dias atuais, a China tem mantido o posto de maior parceiro comercial brasileiro, mantendo os EUA com o segundo lugar do ranking. As relações comerciais com o país são marcadas principalmente pela exportação de minérios de ferro, óleos brutos de petróleo, soja, celulose e carne.

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Assim, percebe-se que desde os anos 1970 o relacionamento entre Brasil e China evoluiu e amadureceu, dando origem a uma Parceria Estratégica nos anos 1990 que se fortaleceu no século XXI. O comércio bilateral passou de US$ 3,1 bilhões em 2001 para US$ 98 bi em 2019. Ademais, desde 2015, os chineses são os maiores investidores diretos de capitais no país[4].

Contudo, o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022) marcou um período de tensão nas relações, uma vez que tanto o presidente quanto seus filhos, chanceler e aliados próximos teceram diversas declarações críticas e xenofóbicas ao parceiro chinês, além de ser evidente o alinhamento ideológico do governo ao presidente estadunidense Donald Trump em meio à guerra comercial travada pelos EUA com os chineses. Mas, apesar da retórica antiChina e anticomunismo, o governo de Bolsonaro manteve os compromissos previamente assumidos com os chineses, realizou encontros com o presidente Xi Jinping, firmou novos acordos e moderou sua retórica a partir das pressões que sofreu de diversos setores empresariais e governamentais. Como resultado, apesar dos imbróglios diplomáticos, no campo comercial as relações continuaram a crescer.

‘A expectativa não é aprofundar as relações de dependência, mas explorar o potencial chinês para aproveitá-lo em parcerias que possam fomentar endogenamente a capacidade tecnológica e inovadora no Brasil’

A chegada de Lula à presidência em 2023 criou boas expectativas com relação ao aprofundamento das relações bilaterais, visto que há enorme potencial de cooperação em diferentes matérias, como política, economia, meio ambiente, educação, ciência e tecnologia. A expectativa não é aprofundar as relações de dependência do Brasil com relação à China, o que foi observado nas últimas décadas, mas explorar o potencial chinês para aproveitá-lo em parcerias que possam fomentar endogenamente a capacidade tecnológica e inovadora no Brasil, promovendo o desenvolvimento e auxiliando na reindustrialização em diferentes setores. Ademais, como realizado no passado recente, existe a perspectiva de que a aproximação diplomática do governo chinês possa, nesse novo momento internacional, retomar a proposição de revisionismo da ordem internacional por meio da articulação entre países do Sul Global que reivindicam a atualização das estruturas de poder internacionais.

Assim, a visita de Estado que Lula realiza a China neste mês tem mobilizado setores governamentais, empresários e ocupado crescente espaço na mídia. Mas, o que podemos esperar deste tão aguardado encontro bilateral? De fato, há muito o que esperar, uma vez que a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do país, Hua Chunying, declarou que a visita do presidente brasileiro levará a parceria “a um novo patamar”.

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Os principais temas da agenda bilateral são comércio, investimentos, reindustrialização, transição energética, mudança climática, paz e segurança mundial. A visita é considerada tão importante pelo governo brasileiro que tem uma delegação recorde, conforme afirmam fontes do Itamaraty. Cerca de 240 empresários (que arcaram com os custos de sua viagem), dos setores de finanças, agronegócio, tecnologia, inovação, construção, entre outros, acompanharão o presidente, com o objetivo de ampliar o intercâmbio comercial e atrair investimentos de empresários chineses. Também compõem a comitiva parlamentares, governadores, ministros de Estado, secretários e assessores.

O Itamaraty anunciou que inúmeros acordos têm a possibilidade de serem firmados, cerca de 20, e que já estão em negociação. Um dos temas importantes é diversificar a pauta comercial entre os países, de forma a ampliar a complexidade da economia brasileira. Um acordo esperado é na área da indústria automobilística, com a possibilidade de aquisição da antiga fábrica da Ford em Camaçari (BA) pela BYD.

Com relação à Guerra na Ucrânia, a expectativa é que os países mantenham o empenho em buscar uma saída negociada para a guerra, apesar da proximidade da China do lado russo. Embora exista uma atenção grande da mídia às declarações conjuntas que poderão surgir neste encontro bilateral, ao manter uma postura de mediação e neutralidade, o Brasil não criará tensões com outro aliado importante, os EUA.

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Outro assunto importante nesta viagem é o agrupamento BRICS, uma vez que o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), instituição deste grupo, fica em Xangai, por onde passará o presidente Lula. A esse respeito, o mandatário já deixou expressa a sua intenção de indicar a ex-presidente Dilma Rousseff para ocupar a presidência da entidade, sendo provável que ela também o acompanhe na viagem. Ademais, não foram poucas as vezes que Lula, enquanto oposição, candidato e presidente, reforçou em seus discursos a importância de revitalizar o BRICS.

Como se pode notar, as relações entre Brasil e China têm uma longa trajetória e muitas potencialidades, cabendo ao novo governo de Lula explorá-las ao máximo em prol dos diferentes interesses setoriais e nacionais. Se a ampla agenda a ser negociada renderá frutos na prática é algo que precisaremos ficar atentos e observar no curto e médio prazo. No passado, já aconteceram ocasiões de amplas expectativas de acordo com os chineses resultarem em negociações que não foram bem-sucedidas. A aguardar a vista de Estado e os seus efetivos resultados.


*Fernanda Nanci Gonçalves é colunista da Interesse Nacional. É professora e coordenadora do curso de relações internacionais do Unilasalle-RJ, pesquisadora do NEAAPE (Iesp-Uerj) e colaboradora do OPSA (Iesp-Uerj).


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional


Referências:

[1] BIATO JR., Oswaldo. A parceria estratégica sino-brasileira: origens, evolução e perspectivas (1993-2006). Brasília: FUNAG, 2010.

PINTO, Isabelle Carvalho Costa; GONÇALVES, Fernanda. Relações Bilaterais Brasil-China: uma análise dos desafios e das potencialidades da parceria estratégica. Boletim Historiar, v.06, n.3, jul./set. 2019, p.32-49.

[2] VIGEVANI, Tullo; CEPALUNI, Gabriel. A política externa de Lula da Silva: a estratégia da autonomia pela diversificação. Contexto Internacional, Rio de Janeiro, v. 29, n. 2, p. 273-335, 2007.

[3] PINTO, Isabelle Carvalho Costa; GONÇALVES, Fernanda. Relações Bilaterais Brasil-China: uma análise dos desafios e das potencialidades da parceria estratégica. Boletim Historiar, v.06, n.3, jul./set. 2019, p.32-49.

[4] ALMEIDA, Jorge. Tapas e beijos: as relações Brasil-China no governo Bolsonaro, Diplomatique, 17 de setembro de 2020. Disponível em:<Tapas e beijos: as relações Brasil-China no governo Bolsonaro (diplomatique.org.br)>.


Daniel Buarque é editor-executivo do portal Interesse Nacional. Pesquisador no pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP), doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. Jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de livros como "Brazil’s international status and recognition as an emerging power: inconsistencies and complexities" (Palgrave Macmillan), "Brazil, um país do presente" (Alameda Editorial), "O Brazil é um país sério?" (Pioneira) e "o Brasil voltou?" (Pioneira)

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