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20 julho 2026

Guerra de Trump enfraquece a superpotência e fortalece o Irã

Ao prolongar um conflito sem alcançar objetivos como a mudança de regime em Teerã ou o fim do programa nuclear iraniano, Donald Trump teria enfraquecido a posição estratégica dos Estados Unidos, fortalecido a coesão interna do Irã e aberto espaço para maior influência de China e Rússia no equilíbrio global de poder

Foto: Casa Branca

A guerra EUA-Irã já se prolonga por mais de quatro meses sem perspectiva de desfecho. O cessar fogo previsto no Memorando de Entendimento, de 17 de junho último, foi descumprido. O Irã atacou três embarcações que trafegavam no Estreito de Ormuz fora da zona autorizada, e os EUA retaliaram. 

A guerra no terreno revela duas frentes: os EUA bloqueiam portos do Irã, que ataca bases norte-americanas no Golfo. Numa perspectiva mais ampla, a guerra pode ser vista como uma equação militar-político-religiosa com três variáveis principais: doméstica, regional e global. 

A dimensão doméstica revela, no Irã, a ascendência dos Guardas Revolucionários (IRGC), que consolidaram sua hegemonia, em detrimento do poder do clero islâmico e da influência dos políticos reformistas. Nos EUA, parcela crescente da população norte-americana contesta a guerra, declina o apoio a Trump e os republicanos estão ameaçados de perder a maioria na Câmara, nas eleições de 4 de novembro.

A vertente regional do conflito demonstra inegável projeção da influência do Irã, pela resistência aos bombardeios norte-americanos e israelenses, por assegurar o controle do Estreito de Ormuz, e pelos danos causados às bases norte-americanas. Do lado dos EUA, a assimetria militar não se reflete em ganhos no terreno, em virtude das represálias iranianas – ataques às bases norte-americanas e à infraestrutura de países do golfo. 

‘No plano global, China e Rússia são os grandes beneficiários da guerra’

No plano global, China e Rússia são os grandes beneficiários da guerra. As forças norte-americanas, em grande medida, estão mobilizadas no Golfo Pérsico. Isso reduz sua capacidade de atuação militar em teatros estratégicos para as potências rivais – Taiwan, para a China, e Ucrânia, para a Rússia. 

Instinto versus Razão – Trump x assessores, acadêmicos e especialistas

Numerosos acadêmicos, jornalistas e assessores civis e militares de reconhecido prestígio internacional avaliam Trump como o grande perdedor, e a guerra como seu maior erro estratégico. Entre esses figuram John Mearsheimer, Thomas Friedman, Richard Wolf, Fareed Zakaria, e Glenn Diesen. 

Número bem menor considera os EUA vitoriosos no conflito, como James Jeffrey, Dennis Ross e John Spencer. Os primeiros dão mais peso ao equilíbrio de poder regional e global, aos desdobramentos geopolíticos, à coesão social e às consequências econômicas da guerra. Os segundos priorizam a dimensão militar e a infraestrutura física. 

‘A consideração fundamental a respeito do atual estágio da guerra reside na constatação de que Trump não alcançou qualquer dos quatro objetivos centrais contemplados’

A consideração fundamental a respeito do atual estágio da guerra reside na constatação de que Trump não alcançou qualquer dos quatro objetivos centrais contemplados: mudança de regime (regime change); fim do programa nuclear iraniano; eliminação da fabricação de mísseis; e neutralização dos proxies iranianos – Hezbollah, Houthis, milícias na Síria e no Iraque. 

EUA-Israel – A metáfora do rabo que mexe o cachorro. 

É quase consensual a visão de que o Irã não representa ameaça existencial aos Estados Unidos. Apesar disso, Trump decidiu iniciar uma guerra de escolha contra o Irã. Teve grande influência nessa decisão Benjamin Netanyahu – articulador de políticas de regime change  no Irã – com o argumento de que o Programa Nuclear Iraniano (Joint Comprehensive Peace Agreement- JCPA) visa a destruição de Israel. 

Apesar dessa convicção, o primeiro-ministro israelense não contemplava um ataque direto israelense ao território iraniano.  Entretanto, essa percepção mudou, no segundo mandato de Trump, por duas razões: o apoio incondicional dos EUA a Israel; e a recente superioridade militar israelense em relação ao Irã.

Em 7 de outubro de 2023, Israel foi vítima de ataque terrorista do Hamas, com 1.200 civis israelenses mortos. A desproporcional resposta israelense resultou em verdadeiro genocídio, com a morte de mais de 70 mil palestinos na Faixa de Gaza, o que configurou um quadro de dupla barbárie, por parte de Israel e do Hamas. 

A investida contra o Hezbollah – após o ato terrorista do Hamas – e o inédito ataque israelense-norte-americano às instalações nucleares em território iraniano deixaram evidente a superioridade militar de Israel na região, reforçada pela tímida represália iraniana. Aquelas operações, conhecidas como a Guerra dos Doze Dias, em junho de 2025, desenhavam um novo Oriente Médio: flagrante hegemonia militar de Israel; forte alinhamento de Netanyahu com Trump; e aparente incapacidade bélica do Irã.

Naquele momento de vitória israelense-norte-americana, Trump poderia ter paralisado as hostilidades e optado por não iniciar uma guerra contra o Irã. Se assim tivesse agido, estaria em linha com as posições da Arábia Saudita, demais países do Golfo, e em conformidade com a citada recomendação da ampla maioria de assessores civis e militares, de especialistas e acadêmicos – todos contrários a uma guerra contra o Irã. Mas o primeiro-ministro israelense considerava aquele o momento ideal para iniciar uma guerra com os quatro objetivos citados no início deste artigo. Foi então que Trump cometeu o grande erro estratégico de obedecer a Netanyahu. Passou a valer a conhecida metáfora – O rabo que mexe o cachorro. 

Além de seduzido por Netanyahu, Trump estava influenciado por suas exitosas investidas recentes: sequestro de Maduro na Venezuela e instalação de um chavismo amigável aos EUA; cancelamento dos contratos entre autoridades chinesas e panamenhas para exploração do Canal do Panamá; e Guerra dos Doze Dias.  

‘Ao iniciar a guerra, os Estados Unidos subestimaram a histórica resistência iraniana a três tentativas de dominação do país pelas superpotências’

Ao iniciar a guerra, os Estados Unidos subestimaram a histórica resistência iraniana a três tentativas de dominação do país pelas superpotências – russa no século 18, britânica no século 19 e norte-americana no pós- II Guerra Mundial. 

Ignoraram também a forte base cultural-religiosa da Revolução Iraniana de 1979 e sua consolidação, na Guerra Irã-Iraque, com oito anos de duração e quase um milhão de baixas. Na expectativa de reeditar no Irã o êxito alcançado na Venezuela, Trump cometeu o segundo grave erro estratégico – o assassinato do líder supremo Ali Khamenei. A consequência imediata foi fortalecer os Guardas Revolucionários (International Revolutionary Guards Council – IRGC) – o segmento mais radical do regime –  e eclipsar as duas outras forças – o clero islâmico ortodoxo e os liberais moderados.  

‘A guerra de Trump provocou efeito contrário ao contemplado – fortaleceu o sentimento nacional e a coesão social’

Apesar da resiliência, a teocracia militar iraniana tem enfrentado forte oposição popular. A cada dez anos em média, desde 1979,  rebeliões com centenas de milhares de manifestantes se insurgem contra o autoritarismo, a violência policial, as medidas antidemocráticas, perseguição às mulheres e violações sistemáticas de direitos humanos. Isso fragilizou muito a base popular da Revolução, mas não a ponto de colocar em risco sua sobrevivência. Nesse cenário, a guerra de Trump provocou efeito contrário ao contemplado – fortaleceu o sentimento nacional e a coesão social. 

Líbano – Entre o expansionismo de Israel e o radicalismo do Hezbollah

A trajetória até agora descrita – ações e reações norte-americanas e iranianas – precisa ser complementada pelo comportamento israelense. Diferentemente de EUA e Irã, Israel não deseja o fim do conflito, mas sua permanência, até o objetivo último – a aniquilação da teocracia militar iraniana. 

Por isso, o primeiro-ministro israelense insiste em manter o clima de hostilidades militares no Sul do Líbano, com o propósito de aniquilar o Hezbollah. Ora, muito dificilmente o regime iraniano aceitará esse desfecho, pois significaria a submissão do Líbano à hegemonia político-militar de Israel. Aliás, essa condição já se desenhou nas últimas semanas, embora de forma muito frágil, com o acordo estratégico entre os governos israelense e libanês. 

Essa fratura entre as posições de Trump e de Netanyahu assumiu recentemente proporções inéditas e constitui hoje um difícil dilema para Israel, que tem nos EUA um aliado histórico, sem o qual não pode ter o papel de hegemon no Oriente Médio. A esse elemento complicador no xadrez regional deve ser acrescentado o papel de maior protagonismo assumido pela Turquia, que vê com preocupação a ascendência militar israelense, e passou a contar, nas últimas semanas, com o apoio de Trump.

Memorando de pouco entendimento.

Em grande medida, a complexa configuração de forças anteriormente descrita explica o árduo caminho para as negociações de um cessar-fogo. 

Apesar das dificuldades, avançaram as negociações, com a intermediação do Paquistão, e foi firmado o Memorando de Entendimento (MOU), em meados de junho último. Embora os dois países tenham interesse em evitar uma guerra prolongada e em reduzir os custos econômicos e humanos do conflito, permanecem profundas divergências a respeito de temas sensíveis, tais como: enriquecimento de urânio; segurança regional; sanções econômicas; garantias políticas e mecanismos de verificação.

O núcleo duro das divergências é o binômio fechamento do Estreito de Ormuz (Irã) versus bloqueio militar dos portos iranianos (EUA). Entretanto, a questão crucial continua sendo a negociação de um Acordo sobre o Programa Nuclear Iraniano.

Um diagnóstico realista do conflito precisa levar em conta essa vertente crucial – a questão nuclear. Trump tem urgente necessidade de encerrar uma guerra que fragiliza sua base política, tanto pela aproximação de difíceis eleições de meio de mandato, como pela elevação no preço da gasolina, que passou de 2,90 dólares o galão, antes do conflito, para os atuais 4,10 dólares. A reação internacional, sensível à elevação dos preços internacionais de combustíveis, se soma às pressões domésticas.

Conclusão

Trump precisa terminar a guerra com urgência, mas “não tem as cartas” para negociar um acordo favorável aos EUA. Teerã acredita que, quanto mais tempo durar o conflito, mais ansioso estará o presidente para terminá-lo. Na realidade, o tempo joga a favor do Irã. 

Para agravar o impasse de Trump, um futuro acordo de paz precisa – para alcançar apoio doméstico nos EUA e em Israel – incluir um novo Acordo sobre o Programa Nuclear Iraniano que vá além do firmado, em 2015, por Obama e cinco países aliados, mas revogado por Trump em 2018.  

Trump não alcançou qualquer dos objetivos ao iniciar a guerra. Os bombardeios aéreos não eliminaram o poder militar iraniano (mísseis e drones), nem do Hezbollah e dos Houthis. Os EUA se voltaram então para a guerra naval, com o bloqueio dos portos, na expectativa de asfixiar a economia iraniana. Em represália, o Irã atacou bases norte-americanas e a infraestrutura de seus aliados no Golfo. Enquanto isso, o Estreito de Ormuz continuava fechado. 

O Memorando de Entendimento, foi a aparente janela de oportunidade que permitiu breve trégua. Entretanto, seu texto refletiu um presidente acuado, refém de uma guerra que não consegue vencer. O MOU foi interpretado como um documento de rendição. Isso levou Trump a retomar bombardeios aos portos, e o Irã a atacar bases norte-americanas nos países vizinhos. Diante desse cenário, o cenário mais provável parece ser a continuidade da instável convivência de ataques militares com negociações diplomáticas.

Sergio Abreu e Lima Florêncio é colunista da Interesse Nacional, economista, diplomata e professor de história da política externa brasileira no Instituto Rio Branco. Foi embaixador do Brasil no México, no Equador e membro da delegação brasileira permanente em Genebra.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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