14 fevereiro 2023

Hayle Melim Gadelha: A cara do Brasil no Festival do Futuro

Celebração da posse de Luiz Inácio Lula da Silva sintetizou a estética de uma plataforma política majoritária e dialogou com uma imagem de que o Brasil poderá se beneficiar nos próximos anos. Para diplomata, apresentação de alguns dos mais importantes músicos brasileiros cantou um país plural, capaz de aportar soluções para um mundo em transformação

Celebração da posse de Luiz Inácio Lula da Silva sintetizou a estética de uma plataforma política majoritária e dialogou com uma imagem de que o Brasil poderá se beneficiar nos próximos anos. Para diplomata, apresentação de alguns dos mais importantes músicos brasileiros cantou um país plural, capaz de aportar soluções para um mundo em transformação

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante o Festival do Futuro, na Esplanada dos Ministérios (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Por Hayle Melim Gadelha*

Amanhã vai ser outro dia[1]

O Festival do Futuro, que tomou a Esplanada dos Ministérios em 1º de janeiro para celebrar a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não só sintetizou a estética de uma plataforma política majoritária mas dialogou, também, com certa imagem de que o Brasil poderá beneficiar-se nos próximos anos.  Com fina curadoria, cerca de 60 dos mais importantes músicos brasileiros, de diversas gerações, raízes, regiões e gêneros, cantaram um país plural, pacífico, sofisticado, inclusivo, criativo, capaz de aportar soluções para um mundo em transformação.

Canta, canta, minha gente, deixa a tristeza pra lá, canta forte, canta alto, que a vida vai melhorar[2]

No governo passado, a pasta da Cultura – rebaixada a secretaria – descaracterizou a lei Rouanet, colecionou embates com a classe artística e foi cenário de episódios controversos, do “pum do palhaço” ao pastiche goebbeliano, passando pela defesa do armamentismo e pela postura ante a crise sanitária.

Arruma suas malas, dá no pé e vá-se embora, vá-se embora[3]

Na seara internacional, lançou-se numa cruzada contra o progressismo e o marxismo cultural. Teve repercussão o traslado do coração de dom Pedro I, a contragosto do finado, para comemorar o bicentenário da Independência.

No ano passado eu morri, mas este ano eu não morro[4]

Nos anos passados, João Gilberto e outros grandes partiram sem homenagens oficiais. No Festival do Futuro, cuja magistral direção artística foi assinada por Batman Zavareze, empregou-se alta tecnologia – videomapping, drones – para festejar a memória cultural brasileira. Pelos palcos Elza Soares e Gal Costa passaram, entre tantos outros, Pelé, Villa-Lobos, Pixinguinha, Gláuber Rocha, Wilson Simonal, Paulo Gustavo, Nelson Sargento, Ismael Ivo, Cassiano, Cartola.

Essa noite vai se arrepiar, ao lembrar que aqui passaram sambas imortais, que aqui sangraram pelos nossos pés, que aqui sambaram nossos ancestrais[5]

Gospel e Exu estiveram presentes no Futuro ecumênico; cada região do país, indígenas, mulheres, negros, LGBTQIA+ tornaram a pertencer, aos palcos e à plateia.

E a gente vai à luta e conhece a dor, consideramos justa toda forma de amor[6]

As artes plásticas dialogaram todo o tempo com a música. Os Orixás de Djanira, removidos do Palácio do Planalto no passado, foram incorporados à exposição Brasil do Futuro, no Museu da República. Fragmentos da mostra projetados na Esplanada coloriram o Festival.

A gente não quer só comida, a gente quer bebida, diversão e arte[7]

A união e a reconstrução do país, slogan do governo entrante, foram simbolizadas com tributos gráficos às bandeiras de cada estado da federação. A restituição do lábaro estrelado, que deu forma aos palcos, foi inspirada em Abdias do Nascimento.

A verdade é que você – povo brasileiro – tem sangue crioulo[8]

Quebrando protocolos, os casais Lula da Silva e Alckmin desfilaram pela Esplanada, juntos em carro aberto, enquanto se reforçava, nos palcos, a mensagem de unidade na diversidade. “Não existem dois Brasis”. O poeta sertanejo Antonio Marinho fez coro.

Metade é tua razão, metade é teu coração, ambas procurando o bem do povo que te pariu; uma metade é Brasil, outra metade também[9]

Em um dos palcos, uma voz desafia – e vence – padrões sociais e os acordes de uma guitarra

Meu nome é Gaaaaaaal[10]

No Congresso, o presidente elegeu a desigualdade como mote de seu primeiro discurso. Emocionou-se ao falar dos desempregados que passam fome e pedem ajuda no semáforo. No Festival do Futuro, Flor Gil evocava os saberes de seu avô.

De um lado esse carnaval, do outro a fome total[11]

No outro palco, grita a luta pela sobrevivência da mulher negra e a superação da pobreza.

Malandro, só peço favor de que tenhas cuidado; olha, as coisas não andam tão bem pro teu lado, assim você mata a Elzinha de dor[12]

Na rampa do Planalto, uma catadora negra passa a Lula da Silva a faixa presidencial, que antes percorrera as mãos de uma criança, um metalúrgico, um professor, um ativista anticapacitista, um artesão, uma cozinheira e o cacique Raoni.

É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte[13]

Ato contínuo, no show Futuro Ancestral, cujo título alude ao livro de Ailton Krenak, o balé de Ingrid Silva misturou-se com samba, rap, funk, soul, jazz, afrotechno e tantos outros sons que não cabem em caixas.

A carne mais barata do mercado foi a carne negra; não é mais[14]

A presença da nova ministra da Cultura sinalizou o sentido de resgate e fortalecimento das políticas culturais e de valorização da arte afro-brasileira.

E nas cabeças, enchem-se de liberdade, o povo negro pede igualdade, deixando de lado as separações, ê, Faraó[15]

No dia mesmo de sua posse, depois de cerimônias na Esplanada, no Congresso, no Palácio do Planalto e no Itamaraty, os casais Lula da Silva e Alckmin compareceram ao Festival do Futuro, numa reverência à cultura. Beijaram-se no palco.

Trocaram a presidência, uma nova esperança, sofri na tempestade, agora eu quero a bonança[16]

O Presidente anunciou a criação dos ministérios da Cultura, dos Direitos Humanos e Cidadania, das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Povos Indígenas. Artistas da Amazônia ecoaram a promessa presidencial de alcançar o desmatamento zero da floresta, grandeza a ser compartilhada com a Humanidade de maneira responsável e autônoma.

É nisso que eu estou também, me agarrando, nesta árvore chamada esperança, vai florescer e vai dar muitos frutos[17]

O mandatário preconizou, ainda, um Brasil justo e soberano, o fim do isolamento internacional e a integração cultural latino-americana – princípio inscrito na Constituição – como norte da diplomacia brasileira.

Nas veias abertas da América Latina, tem fogo cruzado queimando nas esquinas, um golpe de estado ao som da carabina, um fuzil. Se a justiça é cega, a gente pega quem fugiu[18]

Uma cultura rica, não estereotipada ou sensualizada, transmitiu a cara de um Brasil jovem, efervescente, pronto para contribuir para um mundo mais sustentável, equilibrado e solidário. A potente mensagem tem lastro na realidade e respaldo do meio artístico, que abriu mão de cachês.

A sorrir, pretendo levar a vida[19]

O roteiro minuciosamente elaborado do Festival do Futuro empregou, de maneira eficiente, arte e tecnologia para reificar uma narrativa política interna que, por sua vez, atende ao imperativo brasileiro de estabelecer laços duradouros de confiança com as sociedades estrangeiras. Os valores plasmados no festival coadunam-se com aqueles que a comunidade das nações voltou a abraçar. Sustentados no tempo, com credibilidade e consistência, têm o condão de elevar a imagem e o lugar do Brasil no sistema internacional em rearranjo.

Beijinho no ombro, só quem tem disposição[20]

Mitigando percepções negativas e reforçando atributos positivos de sua reputação, o país poderá fomentar fluxos de investimentos, comércio, turistas e estudantes, valorizar os produtos nacionais, garantir melhor tratamento aos compatriotas no exterior e ampliar a capacidade de moldar as agendas globais.

É hoje o dia da alegria, e a tristeza nem pode pensar em chegar[21]

De seu lado, o público, que refletia a multiplicidade e a alegria dos artistas, permaneceu na Esplanada até o raiar do sol do dia depois do amanhã.

Pro dia nascer feliz, o mundo inteiro acordado e a gente a dormir[22]


*Hayle Melim Gadelha é doutor em relações internacionais pelo King’s College London e diplomata. Suas opiniões pessoais não necessariamente refletem a posição oficial do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional.


Referências:

[1] Trecho de “Apesar de você”, composta por Chico Buarque (1978) e interpretada, no Festival do Futuro, por Drik Barbosa, Marissol Mwab, Ellen Oléria, Fioti, Rael, Rappin Hood, Salgadinho e Gog.

[2] Trecho de “Canta, canta minha gente”, composta por Martinho da Vila (1974) e cantada, no Festival do Futuro, pelo autor com Aline Calixto, Fernanda Abreu, Jards Macalé, Maria Rita, Paula Lima, Leoni, Renegado, Rogeria Holtz, Teresa Cristina, Romero Ferro, Zélia Duncan e Delacruz.

[3] Trecho de “Tá na hora do Jair já ir embora”, composta por Tiago Doidão (2022) e cantada, no Festival do Futuro, pelo autor com Juliano Madeirada.

[4] Trecho de “Sujeito de sorte”, composta por Belchior (1976) e reproduzida no Festival do Futuro.

[5] Trecho de “Vai passar”, composta por Chico Buarque (1984) e reproduzida no Festival do Futuro.

[6] Trecho de “Toda forma de amor”, composta por Lulu Santos (1987) e interpretada, no Festival do Futuro, por Zélia Duncan.

[7] Trecho de “Comida”, composta pelos Titãs (1987) e interpretada, no Festival do Futuro, por Paulo Miklos.

[8] Trecho de “Olhos coloridos”, composta por Macau (década de 1970) e interpretada, no Festival do Futuro, por Paula Lima.

[9] Poema de Antonio Marinho (2023), declamado, no Festival do Futuro, pelo próprio autor.

[10] Trecho de “Meu nome é Gal”, composta por Gal Costa (1969) e reproduzida, no Festival do Futuro, em vídeo no qual a autora canta junto ao guitarrista Victor Biglione.

[11] Trecho de “Novidade”, composta por Gilberto Gil e Hebert Vianna (1986) e interpretada, no Festival do Futuro, por Flor Gil.

[12] Trecho de “Malandro”, composta por Jorge Aragão e João Batista Alcântra (1968) e interpretada, no Festival do Futuro, por Zélia Duncan e Teresa Cristina.

[13] Trecho de “Divino maravilhoso”, composta por Caetano Veloso (1969) e interpretada, no Festival do Futuro, por Thalma de Freitas, Alessandra Leão, Chico César, Geraldo Azevedo, Fernanda Takai, Francisco El Hombre e Luê, Johnny Hooker, Lirinha, Marcelo Jeneci, Odair José, Otto, Paulo Miklos e Tulipa Ruiz.

[14] Trecho de “Carne”, composta por Marcelo Yuka, Seu Jorge e Ulisses Cappelletti (1998) e interpretada, no Festival do Futuro, por Ellen Oléria e por Renegado.

[15] Trecho de “Faraó, divindade do Egito”, composta por Luciano Gomes (1987) e interpretada, no Festival do Futuro, por Margareth Menezes e BaianaSystem.

[16] Trecho de “Rap da felicidade”, composta pelos MCs Cidinho e Doca (1994) e cantada, no Festival do Futuro, por Delacruz.

[17] Trecho de “Última Lágrima”, composta por Gaby Amarantos (2021) e cantada, no Festival do Futuro, pela própria autora.

[18] Trecho de “Sulamericano”, composta por BaianaSystem (2019) e cantada, no Festival do Futuro, pelos próprios autores.

[19] Trecho de “O sol nascerá”, composta por Cartola e Elton Medeiros (1961) e interpretada, no Festival do Futuro, por Jards Macalé.

[20] Trecho de “Beijinho no ombro”, composta por Valesca Popozuda (2014) e cantada, no Festival do Futuro, pela própria autora.

[21] Trecho de “É hoje”, composta para a União da Ilha por Didi e Mestrinho (1982) e interpretada, no Festival do Futuro, por Fernanda Abreu.

[22] Trecho de “Pro dia nascer feliz”, composta por Cazuza (1985) e reproduzida no Festival do Futuro.


Daniel Buarque é editor-executivo do portal Interesse Nacional. Pesquisador no pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP), doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. Jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de livros como "Brazil’s international status and recognition as an emerging power: inconsistencies and complexities" (Palgrave Macmillan), "Brazil, um país do presente" (Alameda Editorial), "O Brazil é um país sério?" (Pioneira) e "o Brasil voltou?" (Pioneira)

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