O ano começa depois do Carnaval
Agenda política foi antecipada por desfile polêmico no carnaval do Rio, mas agora começam de fato as movimentações sobre as eleições, as decisões sobre economia e as viagens e discussões internacionais do governo

Como gostamos de repetir, o ano político e econômico no Brasil começa depois do Carnaval. Neste ano, excepcionalmente, começou durante o Carnaval.
A agenda política começou durante o Carnaval com os questionamentos jurídicos sobre a antecipação do período eleitoral com o enredo da escola de samba Acadêmicos de Niterói sobre a vida de Lula (Do alto do Mulungu surge a Esperança. Lula, o Operário do Brasil).
‘Como dizia Talleyrand, não foi apenas um crime, mas um erro que poderá dar muita dor de cabeça ao PT’
Como dizia Talleyrand, não foi apenas um crime, mas um erro que poderá dar muita dor de cabeça ao PT, se estivéssemos em um país normal, em termos de aplicação isenta da Justiça. Não sendo o caso do Brasil, o abuso eleitoral não vai dar em nada, a não ser desgaste para o PT, a começar pelo rebaixamento da escola de samba, como se pode acompanhar pelas redes sociais.
A agenda política continuará com as apurações e os vazamentos dos dois escândalos financeiros do momento: as irregularidades do INSS e a quebra do Banco Master.
O foco nas atividades do STF, especialmente de Alexandre de Moraes e de Dias Toffoli, vai continuar com novos desdobramentos, como o dos choques entre a Polícia Federal e o Supremo.
O Congresso poderá ser uma fonte de mais incertezas com a evolução da CPMI sobre o INSS e possíveis desdobramentos em relação ao Banco Master e as atividades pouco sociais de seu presidente e altas autoridades.
‘Até o fim de março, vão continuar as articulações para a composição das chapas estaduais e federal para as eleições’
Até o fim de março, vão continuar as articulações para a composição das chapas estaduais e federal para as eleições ao Congresso e aos governos estaduais para a montagem dos palanques.
Na disputa presidencial, continuará o suspense sobre a vice-presidência de Lula com a manutenção ou não de Geraldo Alckmin. Continuará a incerteza sobre o real potencial da candidatura de Flávio Bolsonaro pela divisão do grupo bolsonarista raiz (Michelle Bolsonaro não apoiará Flávio, e o apoio de Tarcísio de Freitas se limitará a São Paulo). Também pelo fato novo criado pelo PSD de Gilberto Kassab, com o trio de governadores que se apresentam como candidatos independentes dos polos petista e bolsonarista (apesar de Caiado e Ratinho estarem dispostos a apoiar Flávio Bolsonaro, se ele for para o segundo turno).
‘Continuará a política do governo de aumentar os gastos do Executivo e das emendas do Congresso, sem se preocupar com a crise fiscal que só faz crescer’
Do ponto de vista da agenda econômica, continuará a política do governo de aumentar os gastos do Executivo e das emendas do Congresso, sem se preocupar com a crise fiscal que só faz crescer. A taxa de juros a 15% continuará a afetar negativamente o crescimento da economia, sendo até exemplo do que poderá ocorrer em outros países, como mostra artigo da revista The Economist desta semana.
A agenda internacional continuará intensa.
Começou na Quarta-Feira de Cinzas com a visita de Lula à Índia (para a Cúpula da IA) e à Coreia do Sul.
Na Índia, Lula encontrou-se com o presidente francês, Emmanuel Macron, para discutir o acordo Mercosul-UE, o Conselho da Paz, que a França já recusou entrar, e o Brasil ainda não se decidiu, mas a forte tendência é que também recuse em vista da tradicional defesa do multilateralismo e do fortalecimento da ONU.
‘Começarão os preparativos para a viagem do presidente Lula a Washington para encontro com Donald Trump’
Enquanto isso, começarão os preparativos para a viagem do presidente Lula a Washington para encontro com Donald Trump. As negociações comerciais, paralisadas até aqui, as conversas sobre minerais estratégicos e sobre o Conselho da Paz deverão ser prioridades na agenda bilateral, que terá, com o pano de fundo, uma possível interferência do governo de Washington nas eleições presidenciais de outubro.
Continuarão presentes nas preocupações do governo, podendo em algum momento sair do controle, as guerras na Ucrânia, em Gaza e as ameaças de ataque ao Irã, contra a vontade dos países do Golfo, que vêem uma possível ampliação do conflito armado com entrada de Israel e o possível fechamento do Estreito de Ormuz, com fortes repercussões do preço do petróleo, se ocorrer.
Os EUA dizem que os países que aderiram ao Conselho da Paz colocarão US$ 5 bilhões, mas os ataques de Israel continuam, e não se sabe o destino dos palestinos para permitir o plano de reconstrução anunciado em Davos pelo genro de Trump. O Brasil acompanha de perto essa agenda.
A partir de agora, as eleições presidenciais de outubro ocuparão todos os espaços, que só serão interrompidas pela Copa do Mundo em junho/julho.
Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.
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