22 maio 2023

O Ocidente precisa oferecer um novo acordo ao Brasil, à Índia e à África do Sul

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Postura de potências médias em relação à guerra na Ucrânia indica o descontentamento com a liderança ocidental das instituições globais. Para economista, o desafio para o Ocidente é contrabalançar essas tendências de modo a manter esses países dentro de sua esfera de influência promovendo modelos alternativos ao atual estado das relações internacionais

Postura de potências médias em relação à guerra na Ucrânia indica o descontentamento com a liderança ocidental das instituições globais. Para economista, o desafio para o Ocidente é contrabalançar essas tendências de modo a manter esses países dentro de sua esfera de influência promovendo modelos alternativos ao atual estado das relações internacionais

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e chefes de delegações do G7 durante visita ao Parque Memorial da Paz de Hiroshima (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Por Jose Caballero*

A relutância de alguns países em apoiar a posição do Ocidente na Ucrânia é um alerta. Os líderes ocidentais devem agora determinar o que podem oferecer a Estados poderosos, incluindo Brasil, Índia e África do Sul, para mantê-los ao seu lado.

Uma nova geração de alianças poderia começar a redistribuir o poder global e conceder às economias emergentes maior participação nas decisões que afetam e refletem seus interesses. Novas alianças também podem incluir termos de comércio mais justos e esquemas de desenvolvimento ou ajuda mais eficazes.

Isso deve ajudar a garantir a sustentabilidade de uma aliança global mais ampla, por exemplo, para apoiar a Ucrânia. Atualmente, o consenso global para apoiar a Ucrânia parece estar se fragmentando. Por exemplo, apesar do apoio do Brasil a várias resoluções da ONU a favor da Ucrânia, o país não condenou a Rússia abertamente.

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O Brasil também rejeitou pedidos para enviar material militar para a Ucrânia. E durante o período em que a Índia foi membro do Conselho de Segurança da ONU, ela se absteve nas votações relacionadas ao conflito.

Tudo isso é um sinal de maior descontentamento com a liderança ocidental das instituições globais e da sua postura na tomada de decisões globais e é percebido, por alguns, como o Ocidente tendo muito poder sobre outros Estados.

Onde está o poder?

O poder internacional é amplamente definido pelas forças econômicas e militares relativas dos países, bem como pela sua influência histórica. O assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, por exemplo, é baseado em forças pós-Segunda Guerra Mundial.

As relações de poder são frequentemente descritas como entre superpotências ou “grandes potências” e potências não-grandes. Essas lacunas de poder levaram grandes economias, como Brasil, Índia e África do Sul, a serem tratadas como menos importantes nos assuntos internacionais.

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Alguns argumentam que instituições internacionais como a ONU concedem a potências não-grandes uma “voz maior” para influenciar os assuntos globais, mas simultaneamente restringem sua autonomia e esgotam seus já limitados recursos diplomáticos. A falta de veto (dado apenas à China, Reino Unido, Estados Unidos, França e Rússia) muitas vezes os obriga a alinhar suas posições políticas com as das superpotências.

Essa estrutura de poder acaba levando à marginalização de Estados que podem não ter força militar, mas são considerados forças econômicas por direito próprio, como Brasil, Índia e África do Sul.

China x Ocidente

A essa mistura de ressentimento sobre as desigualdades históricas de poder, a China acrescentou sua própria agenda e jogo de poder: fornecer e aprimorar fontes alternativas de influência política e econômica.

Neste momento, a China faz questão de mostrar que tem mais a oferecer ao Brasil, Índia, África do Sul e outros do que o Ocidente. Uma indicação disso foi que a visita do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva à China em abril de 2023 incluiu muitos acordos e compromissos de investimento.

Há também evidências de uma mudança política e econômica dos EUA para a China, em particular por meio da diminuição da dependência do dólar e do fortalecimento da aliança Brics do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

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Este bloco foi criado em 2009, sem dúvida para corroer o domínio político dos EUA e da Europa. Em 2015, os Estados membros criaram o Novo Banco de Desenvolvimento como forma de acessar o financiamento de infraestrutura por meio de uma alternativa às instituições econômicas lideradas pelo Ocidente, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional.

Então, em 2022, o bloco começou a discutir a expansão da adesão a outros países, como Argentina, Indonésia, Nigéria, Arábia Saudita, Tailândia e Emirados Árabes Unidos entre os que manifestaram interesse. A organização pretende representar uma parcela do PIB mundial 30% maior que a dos Estados Unidos, mais de 50% da população mundial e o controle de 60% das reservas mundiais de gás.

Ascensão da China

Enquanto isso, o poder militar da China na Ásia pode em breve exceder o dos EUA e, portanto, os EUA veem a necessidade de combater a influência da China nas instituições globais.

A posição declarada da China de não interferência nos assuntos domésticos de outras economias pode parecer mais favorável a outros países. Isso é frequentemente comparado às intervenções do Ocidente nos assuntos internos de outros países, particularmente a longa história de intervencionismo dos Estados Unidos em todo o mundo.

Uma aliança expandida dos Brics fornece uma plataforma institucional para que potências não-grandes, como Brasil e Índia, adquiram uma voz mais alta nos assuntos internacionais. Isso também pode conceder-lhes um papel mais proeminente na tomada de decisões que afetam seus interesses nacionais. É importante ressaltar que qualquer expansão de membros também aumentará a influência diplomática da China.

O desafio para o Ocidente é contrabalançar essas tendências de modo a manter países como Brasil, Índia e África do Sul dentro de sua esfera de influência. Um novo acordo, particularmente para esses grandes países democráticos, provavelmente será crucial e precisará ser algo que promova modelos alternativos ao atual estado das relações internacionais.


*Jose Caballero é economista sênior no Centro de Competitividade Global IMD, International Institute for Management Development (IMD)


Este texto é uma republicação do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original, em inglês.


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional


Daniel Buarque é editor-executivo do portal Interesse Nacional. Pesquisador no pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP), doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. Jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de livros como "Brazil’s international status and recognition as an emerging power: inconsistencies and complexities" (Palgrave Macmillan), "Brazil, um país do presente" (Alameda Editorial), "O Brazil é um país sério?" (Pioneira) e "o Brasil voltou?" (Pioneira)

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