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05 novembro 2026

Os significados internacionais da vitória de Lula

Resultado das urnas criou claros limites à expansão da extrema direita nas Américas, talvez mesmo no mundo, e confirma a possibilidade de que o país continue a se relacionar com seus vizinhos de maneira soberana, ao invés de submissa e ideológica

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursa após vitória nas eleições 2026, no hotel Intercontinental. Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil

Depois de uma eleição muito disputada, tivemos a confirmação de que o presidente Lula vai cumprir mais um mandato no comando do país. Quais são os significados imediatos e de médio prazo desse resultado para o Brasil e a América Latina?

O primeiro significado é que a derrota do filho mais velho do clã Bolsonaro representa um freio importante imposto na tendência regional recente de eleger candidatos da extrema direita. Esse processo foi fortalecido nos últimos dois anos com o retorno de Donald Trump ao poder nos EUA, gerando uma verdadeira onda conservadora “laranja” na nossa região. Isso se traduziu nas vitórias de Daniel Noboa no Equador, Antonio Kast no Chile, Keiko Fujimori no Peru, e Abelardo de la Espriella na Colômbia, levando muitos analistas a crer que o avanço do conservadorismo no Brasil era inexorável. 

Nesse sentido, a vitória de Lula criou claros limites à expansão da extrema direita nas Américas, talvez mesmo no mundo, e confirma a possibilidade de que o país continue a se relacionar com seus vizinhos de maneira soberana, ao invés de submissa e ideológica. Isso ficou inclusive demonstrado quando do imediato reconhecimento da vitória de Lula por parte de quase todos  os líderes de governos de direita da região, criando a possibilidade de articulação das forças progressistas regionais, com potencial impactos nas eleições congressuais e regionais da Colômbia e do México, além das presidenciais na Argentina e El Salvador no ano de 2027.

‘Ficou claro que é possível criar um modelo para furar a “bolha” por meio de uma militância digital voluntária tal como foi feito por Janones’

O segundo significado principal são os limites do controle das narrativas políticas impostos pelas redes sociais, que até recentemente pareciam incontornáveis. É evidente que tais instrumentos tecnológicos ainda possuem um desmesurado peso político, o que exige melhor regulamentação dos mesmos. Mas, em todo caso, ficou claro que é possível criar um modelo para furar a “bolha” por meio de uma militância digital voluntária tal como foi feito por Janones, além da importância de se fortalecer a tradicional mobilização popular de rua, com engajamento em panfletagem e manifestações. Modelo esse que já tem sido replicada pelas forças progressistas da França, Espanha e Argentina, que se sentem hoje mais seguras em investir na mobilização social.  

O terceiro significado chave é a barreira impostas nos avanços militares esperados pelo Escudo das Américas. Esse programa, criado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos e com ampla adesão pelos governos de extrema-direita, permite a atuação de tropas militares norte-americanas na região, podendo colocar em risco a política de paz e livre-circulação do Atlântico Sul defendida pelo Brasil. 

‘A vitória popular de Lula sinaliza para a continuidade de uma inserção internacional em moldes autônomos’

Por fim, sintetizando os elementos anteriores, a vitória popular de Lula sinaliza para a continuidade de uma inserção internacional em moldes autônomos. Desde seu primeiro mandato Lula conseguiu o feito de expandir e aprofundar relações econômicas e estratégicas com novos atores fora do eixo Ocidental, sem que isso ameaçasse o tradicional relacionamento com os EUA e com países europeus. 

Não fosse assim, como entende que o presidente brasileiro pudesse ser bem recebido tanto por George W. Bush, quanto por Hu Jintao. Essa dinâmica se efetivou, em grande parte por meio de uma forte tradição da diplomacia brasileira, qual seja, a de consolidar um bom relacionamento com vizinhos, a fim de, assim, ter mais peso quando de uma projeção maior em escala global. E foi exatamente na América Latina, onde os governos Lula apresentou sua maior presença, tanto na expansão econômica, quanto na criação e fortalecimento de organizações regionais, como a Unasul e Celac.  

‘Embora ancorada na nossa região, a inserção internacional mais ativa do Brasil nos últimos anos não ficou restrita a esse âmbito. E teve nos Brics seu maior instrumento geopolítico estratégico’

Embora ancorada na nossa região, a inserção internacional mais ativa do Brasil nos últimos anos não ficou restrita a esse âmbito. E, especialmente nos últimos mandatos, tanto de Lula, como do PT, esse processo teve nos Brics seu maior instrumento geopolítico estratégico. E é esse eixo onde talvez a reeleição de Lula possa talvez apresentar maior relevância prática. Afinal, em um continente ainda amplamente governado por uma extrema direita de viés ideológico, ter aliados para além da região poderá talvez servir como contrapeso, mesmo que no sentido de permitir manter bons relacionamentos com vizinhos, mas sem que haja coação e alinhamentos automáticos.

Aprofundar relacionamentos com outros atores chaves no cenário internacional, como a União Europeia, assim como com membros dos BRICS+ e G20 deverão pois corretamente ancorar as política externa brasileira nos próximos anos. Esperamos que isso não implique – e não deveria implicar – em um distanciamento maior junto aos EUA. Mas dado que aquele país parece estar optando por agir internacionalmente em bases mais ideológicas do que pragmáticas, o que foi demonstrado na acolhida do candidato derrotado que falaciosamente argumenta ter sido forçado a sair do país por razões políticas, será importante ter muita atenção aos próximos passos da extrema direita em nosso hemisfério.

Rafael R. Ioris é professor de história latino-americana no Departamento de História da Universidade de Denver. É pesquisador do Instituto de Estudos dos Estados Unidos no Brasil e autor de vários artigos e capítulos de livros sobre a história do desenvolvimento no Brasil e em outras partes da América Latina e sobre o curso das relações EUA-América Latina, particularmente durante a Guerra Fria. Autor de livros como Qual desenvolvimento? Os debates, sentidos e lições da era desenvolvimentista, Transforming Brazil: A history of national development in the postwar era. É non-resident fellow do Washington Brazil Office, em DC.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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