Quando os aliados deixam de obedecer – A crise da liderança americana no século XXI
A crescente autonomia de aliados como Israel, Arábia Saudita e parceiros europeus expõe os limites da influência dos Estados Unidos e sugere que o principal desafio da liderança americana no século XXI não é apenas conter rivais, mas coordenar coalizões em um mundo menos hierárquico e mais fragmentado

Quando se fala na crise da liderança americana, a atenção costuma se voltar para a ascensão da China, a guerra na Ucrânia ou o fortalecimento de fóruns como os Brics. A imagem predominante é a de uma superpotência pressionada por adversários cada vez mais capazes de desafiar sua posição internacional.
No entanto, um dos desafios mais importantes enfrentados pelos Estados Unidos no século XXI talvez não venha de seus rivais, mas de seus próprios aliados.
A escalada militar envolvendo Israel e o Líbano oferece um exemplo dessa transformação. Apesar da profundidade da parceria estratégica entre Estados Unidos e Israel, sustentada por décadas de cooperação militar, diplomática e de inteligência, os acontecimentos recentes demonstram que a capacidade americana de direcionar o comportamento de seus parceiros está longe de ser absoluta.
O episódio evidencia uma realidade frequentemente ignorada no debate público: aliados não são subordinados. E, em muitos casos, os maiores desafios de uma potência não decorrem da força de seus inimigos, mas da autonomia crescente daqueles que deveriam atuar ao seu lado.
‘Estados soberanos mantêm interesses próprios, respondem a pressões domésticas específicas e avaliam riscos de segurança a partir de perspectivas que nem sempre coincidem com as da potência líder da coalizão’
A percepção de que os Estados Unidos exercem controle quase automático sobre seus aliados é comum tanto entre defensores quanto entre críticos da política externa americana. No entanto, essa visão simplifica excessivamente a dinâmica das alianças. Estados soberanos mantêm interesses próprios, respondem a pressões domésticas específicas e avaliam riscos de segurança a partir de perspectivas que nem sempre coincidem com as da potência líder da coalizão.
O caso israelense ilustra esse dilema de forma particularmente clara.
Em diversos momentos dos últimos anos, os EUA manifestaram preocupação com os riscos de uma ampliação dos conflitos regionais e com a possibilidade de que novas frentes de combate aumentassem a instabilidade no Oriente Médio.
Para os Estados Unidos, evitar uma escalada regional mais ampla constitui um objetivo estratégico importante. Para Israel, entretanto, a percepção de ameaça é moldada por fatores distintos, incluindo considerações de segurança imediata, disputas políticas internas e avaliações próprias sobre os riscos representados por atores hostis em suas fronteiras.
‘Influência não é sinônimo de controle. Mesmo relações extremamente assimétricas possuem limites quando os interesses fundamentais dos atores envolvidos deixam de convergir’
Essa divergência não significa uma ruptura da aliança nem uma perda total de influência americana. Os Estados Unidos continuam sendo o principal parceiro estratégico de Israel e desempenham papel central em sua segurança. O que o episódio revela é algo mais complexo: influência não é sinônimo de controle. Mesmo relações extremamente assimétricas possuem limites quando os interesses fundamentais dos atores envolvidos deixam de convergir.
A literatura de relações internacionais há muito tempo reconhece esse problema. O cientista político Glenn Snyder observou que alianças são marcadas por uma tensão permanente entre dois temores opostos. De um lado está o medo do abandono, isto é, a possibilidade de que um aliado deixe de oferecer apoio quando necessário. De outro está o risco do aprisionamento (entrapment), quando um Estado se vê arrastado para conflitos ou estratégias que não correspondem plenamente aos seus interesses. A gestão de alianças consiste, em grande medida, na tentativa de equilibrar esses dois riscos.
‘A política internacional do século XXI tem se mostrado menos hierárquica do que muitos imaginavam’
Durante boa parte do período pós-Guerra Fria, a extraordinária concentração de poder nas mãos dos Estados Unidos contribuiu para a impressão de que Washington era capaz de coordenar seus aliados com relativa facilidade. Contudo, a política internacional do século XXI tem se mostrado menos hierárquica do que muitos imaginavam. Mesmo parceiros profundamente dependentes da proteção americana passaram a demonstrar maior disposição para defender suas próprias agendas, ainda que isso produza atritos com a potência que lidera a aliança.
O fenômeno tampouco se restringe ao Oriente Médio. A crescente autonomia de parceiros tradicionais dos Estados Unidos pode ser observada em diferentes regiões do mundo. A Arábia Saudita diversificou suas relações internacionais e ampliou sua margem de manobra diplomática. Em algumas ocasiões, aliados europeus demonstraram prioridades distintas das defendidas pelos EUA. Em outras regiões, governos procuram equilibrar suas relações com diferentes centros de poder, reduzindo sua dependência exclusiva da liderança americana.
Esses movimentos sugerem que o debate sobre o futuro da ordem internacional precisa ser reformulado.
‘O problema da liderança americana no século XXI não é apenas que seus adversários ficaram mais fortes. É também que seus aliados ficaram mais autônomos’
Durante anos, as discussões concentraram-se na ascensão de novas potências capazes de desafiar a posição dos Estados Unidos. Embora esse fator seja relevante, ele não explica sozinho os dilemas enfrentados pelos EUA. O problema da liderança americana no século XXI não é apenas que seus adversários ficaram mais fortes. É também que seus aliados ficaram mais autônomos.
Os Estados Unidos permanecem como a principal potência militar do sistema internacional. Sua capacidade de projeção de força, seus recursos econômicos e sua rede global de alianças continuam sem equivalente. No entanto, o poder material, por si só, não garante capacidade de coordenação política. Liderar uma ordem internacional exige mais do que recursos militares: exige persuadir, construir consensos e convencer parceiros de que seus interesses são compatíveis.
O caso de Israel e do Líbano revela precisamente os limites dessa tarefa. Mais do que um episódio regional, ele oferece uma janela para compreender transformações mais amplas da política internacional contemporânea.
‘A influência das grandes potências será cada vez menos medida pela capacidade de impor vontades e cada vez mais pela habilidade de administrar divergências’
Em um cenário marcado pela fragmentação de interesses e pela crescente autonomia dos atores estatais, a influência das grandes potências será cada vez menos medida pela capacidade de impor vontades e cada vez mais pela habilidade de administrar divergências entre aqueles que, em teoria, deveriam estar do mesmo lado.
Durante grande parte do século XX, especialmente no contexto da Guerra Fria, as alianças eram frequentemente interpretadas como estruturas relativamente hierárquicas. A existência de uma ameaça comum contribuía para reduzir divergências e fortalecer a disciplina interna dos blocos.
O ambiente internacional contemporâneo, porém, é substancialmente diferente. Mesmo quando compartilham interesses estratégicos gerais, os aliados divergem sobre prioridades, prazos, custos aceitáveis e objetivos políticos. A convergência deixou de ser automática.
Nesse contexto, a liderança internacional torna-se menos uma questão de comando e mais uma questão de coordenação. O desafio não consiste apenas em conter adversários ou demonstrar superioridade militar, mas em manter coalizões coesas apesar das diferenças que inevitavelmente surgem entre seus membros.
‘A dificuldade enfrentada pelos EUA diante das decisões de seus parceiros revela que o exercício da hegemonia é mais complexo do que sugerem as concepções tradicionais de poder’
A dificuldade enfrentada pelos EUA diante das decisões de seus parceiros não é necessariamente um sinal de declínio irreversível, mas revela que o exercício da hegemonia é mais complexo do que sugerem as concepções tradicionais de poder.
A principal questão para os Estados Unidos, portanto, não é apenas se continuarão sendo a potência dominante do Sistema Internacional. É se conseguirão adaptar sua liderança a um ambiente em que mesmo aliados próximos se sentem cada vez mais livres para agir de acordo com seus próprios cálculos estratégicos. Se o século XX foi marcado pela capacidade americana de organizar alianças, o século XXI poderá ser definido pela dificuldade de mantê-las alinhadas.
Sob essa perspectiva, Israel e Líbano representam mais do que um foco de instabilidade regional. Representam um lembrete de que a influência política possui limites, mesmo para a maior potência do mundo. E talvez seja justamente nessa tensão, entre poder material sem precedentes e capacidade decrescente de coordenação, que reside um dos traços mais característicos da ordem internacional contemporânea.
Karina Stange Calandrin é colunista da Interesse Nacional, professora de relações internacionais no Ibmec-SP e na Uniso, pesquisadora de pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP e doutora em relações internacionais pelo PPGRI San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP).
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