[stock-market-ticker symbols="AAPL;MSFT;GOOG;HPQ;^SPX;^DJI;LSE:BAG" stockExchange="NYSENasdaq" width="100%" palette="financial-light"]

in news

Daniel Buarque: Expansão do Brics é uma ‘formação de peões’ no xadrez geopolítico

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on telegram
Share on whatsapp
Share on email
Share on print

Analogia com jogo de tabuleiro permite ver a importância da atuação conjunta de nações que são percebidas como menos influentes no mundo. Ao contrário de grupos de status elevado como o Conselho de Segurança da ONU, aumentar o número de países no bloco que representa o Sul Global tem o potencial de ampliar a voz do grupo na política internacional

Luiz Inácio Lula da Silva assiste ao discurso de Xi Jinping durante sessão plenária da XV Cúpula do BRICS (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Por Daniel Buarque*

O debate sobre a ampliação do grupo de países que fazem parte do Brics esteve no topo da agenda da cúpula desses Estados emergentes, em Joanesburgo, nesta semana. E os presidentes de China, Rússia, África do Sul, Índia e Brasil chegaram a um acordo para incluir seis novos países no grupo: Argentina, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito, Irã e Etiópia. 

Apesar de passar a agregar nações com pouca relevância no cenário global (incluindo ditaduras com pouco prestígio e Estados à beira da falência), o objetivo desse plano é dar ao Sul Global mais peso e influência nos assuntos mundiais. Ao ampliar o bloco, aumenta-se a sua voz. Isso é algo que interessa a países como China e Rússia, por exemplo, pelo potencial de tornar o bloco um contrapeso viável ao Ocidente, especialmente aos Estados Unidos.

‘Aumentar o número de vozes no Brics pode aumentar sua força’

Aumentar o número de vozes no Brics pode aumentar sua força. Ao contrário do que acontece quando se pensa em um grupo de países poderosos como o P5, os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, aumentar o número de membros não dissolve o poder dos que já fazem parte do conjunto. No caso das grandes potências, se EUA, Rússia, Reino Unido, França e China reconhecessem algum outro país como um “par” no Conselho de Segurança, isso naturalmente diminuiria a percepção de poder que os cinco têm no mundo, diluindo a importância de cada um deles. 

No caso do Brics, a situação é diferente. Como o grupo ainda não tem status tão elevado na política internacional, a soma (mesmo com muitos países pouco representativos de forma isolada) tem a perspectiva de melhorar a situação dos países-membros na perspectiva global.

‘Isso interessa especialmente ao Brasil desde a volta de Lula ao governo, quando a velha ambição de aumentar o prestígio do Brasil no mundo voltou a ser prioridade’

E isso interessa especialmente ao Brasil desde a volta de Luiz Inácio Lula da Silva ao governo, quando a velha ambição de aumentar o prestígio do Brasil no mundo — deixada de lado durante os quatro anos de governo de Jair Bolsonaro — voltou a ser prioridade na chamada “Doutrina Lula”.

Este tipo de movimentação brasileira para criar um grupo de nações menos poderosas nas relações globais, a fim de ampliar a voz coletiva, é uma estratégia viável para aumentar o status de uma nação. E pode ser analisado sob a perspectiva de um jogo de xadrez geopolítico. 

Isso porque o Brasil é visto pelas grandes potências como um “peão” nesse grande jogo global. Por mais que essas nações com mais força tenham interesse em ter o país como aliado, elas acham que ele não tem força e relevância suficientes para ter infuência internacional por si só. 

A analogia com o jogo também pode ser usada para formular uma estratégia como a da ampliação do BRICS. Isso porque peças menos importantes neste jogo têm a possibilidade de agir de forma coletiva para ampliar a sua importância no tabuleiro. É o que se chama de “formação de peões”.

‘A maneira como os peões são organizados no tabuleiro pode ter um impacto significativo na natureza e direção do jogo’

A formação de peões no xadrez refere-se à disposição e estrutura dos peões de um jogador no tabuleiro. Por mais que não sejam valorizados, os peões são as peças mais numerosas no xadrez e têm características únicas de movimento e captura. A maneira como os peões são organizados no tabuleiro pode ter um impacto significativo na natureza e direção do jogo. 

Essas formações podem proporcionar uma defesa sólida contra o avanço do opositor, permitem criar contragolpes dinâmicos, ampliar o equilíbrio da disputa, permitindo o desenvolvimento de outras peças, entre outras vantagens na ação coletiva. 

Entender as características das diferentes formações de peões é essencial para jogar bem o xadrez, pois elas influenciam diretamente o curso do jogo e as decisões táticas e estratégicas que se tomará ao longo da partida.

Não chega a ser uma aposta livre de riscos, uma vez que está associada a uma crença na consolidação de um mundo cada vez mais multipolar, o que é apontado como uma ilusão por especialistas. E tem ainda o fato de os EUA verem a atitude como hostil e antiamericana, o que pode ser problemático por conta da importância da parceria brasileira com a maior potência do planeta. 

Mesmo assim, é uma estratégia consistente com a agenda da política externa do governo atual. E a partir dessa analogia e sob o ponto de vista do xadrez, incluir mais países no grupo não dissolve o poder dos membros atuais, e pode ajudar o grupo a atuar de forma concertada para poder aumentar a sua influência em disputas geopolíticas.


*Daniel Buarque é colunista e editor-executivo do portal Interesse Nacional, pesquisador do pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP e doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor dos livros “Brazil, um país do presente” (Alameda) e “O Brazil É um País Sério?” (Pioneira).


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

newsletter

Receba as últimas atualizações

Inscreva-se em nossa newsletter

Sem spam, notificações apenas sobre novas atualizações.

Última edição

Categorias

Estamos nas Redes

Populares