Como Donald Trump está transformando a América Latina, segundo Brian Winter
Em artigo publicado na revista Foreign Affairs, o pesquisador Brian Winter, editor-chefe da Americas Quarterly, argumenta que a América Latina se tornou a área de política externa em que Donald Trump mais avançou sua agenda, e que nenhum governo americano dedicou tanta atenção e recursos à região em pelo menos 40 anos. Segundo Winter, esse […]

Em artigo publicado na revista Foreign Affairs, o pesquisador Brian Winter, editor-chefe da Americas Quarterly, argumenta que a América Latina se tornou a área de política externa em que Donald Trump mais avançou sua agenda, e que nenhum governo americano dedicou tanta atenção e recursos à região em pelo menos 40 anos.
Segundo Winter, esse foco não decorre de uma grande teoria de política externa, mas do fato de a região ser instrumental para prioridades domésticas de Trump: conter a imigração irregular, reduzir mortes por overdose e garantir suprimentos de energia e minerais críticos, além de frear a influência chinesa.
O elemento mais marcante, para o autor, é o resgate explícito do intervencionismo americano dos séculos XIX e XX. Após a operação militar que capturou Nicolás Maduro em janeiro de 2026, o próprio Trump celebrou o que chamou de “Doutrina Donroe”, uma versão atualizada e personalista da Doutrina Monroe.
Winter reconhece resultados de curto prazo. A cooperação com o México de Claudia Sheinbaum produziu extradições de dezenas de chefes de cartéis, reforço no controle migratório e um ambiente que coincide com a queda de 14% nas mortes por overdose nos EUA em 2025. Houve ainda recuos de Pequim na região, o pacote de US$ 20 bilhões que ajudou a estabilizar a Argentina de Javier Milei e uma onda de vitórias da direita — 12 das últimas 15 eleições presidenciais na região.
Por outro lado, os ataques a supostos barcos de drogas no Caribe, com mais de 200 mortos, podem ser, nas palavras do autor, ilegais e ineficazes, já que investigações independentes não encontraram redução na oferta de cocaína.
O Brasil ocupa lugar central na análise: Winter classifica como o maior revés de Trump na região a tentativa fracassada de usar tarifas e sanções para pressionar o governo brasileiro e o Supremo Tribunal Federal a arquivar as acusações criminais contra Jair Bolsonaro.
O resultado foi uma reação nacionalista que fortaleceu a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, crítico de Trump. Bolsonaro acabou preso, e Trump retirou as tarifas. A frustração com Washington, escreve Winter, foi uma das principais razões para o Mercosul finalmente fechar o acordo comercial com a União Europeia, após mais de 25 anos de negociações.
O autor também nota que Brasil e México — os dois maiores países da região — ficaram de fora do “Escudo das Américas”, coalizão de combate militarizado às drogas montada por Trump com governos ideologicamente alinhados. Ainda assim, a influência americana no país persiste: quando o Departamento de Estado classificou duas organizações criminosas brasileiras como terroristas, o governo Lula protestou, mas 59% dos entrevistados pelo Datafolha apoiaram a medida. E Flávio Bolsonaro, candidato na eleição de outubro como herdeiro do movimento do pai, fez do apoio de Trump peça central de sua campanha.
A conclusão de Winter é ambivalente: os sucessos podem ser uma miragem que esconde ressentimento crescente. No século XX, foi esse tipo de ressentimento que produziu líderes antiamericanos como Fidel Castro e Juan Perón. Com decisões pendentes sobre Cuba, México e Venezuela, o intervencionismo de Trump pode ter o efeito oposto ao desejado: empurrar a região para os braços da China.
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