22 junho 2023

Daniel Buarque: Os Estados Unidos contra o golpe no Brasil

Em contraste com a atuação americana no golpe de 1964, novas evidências apontam para uma campanha do governo Biden para evitar um golpe de Bolsonaro contra as eleições do ano passado. Como pesquisador havia avaliado em 2022, os militares brasileiros dependem de parcerias internacionais, que poderiam ser desfeitas em caso de ruptura democrática

Em contraste com a atuação americana no golpe de 1964, novas evidências apontam para uma campanha do governo Biden para evitar um golpe de Bolsonaro contra as eleições do ano passado. Como pesquisador havia avaliado em 2022, os militares brasileiros dependem de parcerias internacionais, que poderiam ser desfeitas em caso de ruptura democrática

Ilustração de reportagem do Financial Times sobre a campanha americana contra um golpe de Estado no Brasil (Foto: Reprodução)

Por Daniel Buarque*

Há tempos que existe um amplo consenso na historiografia do Brasil do século passado a respeito da influência norte-americana no golpe militar que derrubou João Goulart e implantou uma ditadura no Brasil a partir de 1964. A ideia de que os EUA conspiraram contra a democracia brasileira é comprovada por documentos e ajuda a entender os processos que levaram à consolidação do governo autoritário que controlou o país sob violência por mais de duas décadas. Neste início de século XXI, por outro lado, já se desenvolve uma narrativa de influência dos Estados Unidos no sentido oposto, em defesa da democracia e contra a possibilidade de um golpe de Estado por parte do governo de Jair Bolsonaro em 2022.

Os posicionamentos do governo de Joe Biden a respeito das frequentes ameaças e declarações de Bolsonaro contra o sistema eleitoral brasileiro sempre foram divulgadas abertamente na mídia brasileira. Em junho de 2022, durante reunião bilateral na Cúpula das Américas, Biden afirmou a Bolsonaro que confiava no sistema eleitoral brasileiro. Logo depois da infame reunião em que o brasileiro reuniu diplomatas estrangeiros para denunciar as urnas eletrônicas, o governo dos Estados Unidos afirmou que as eleições brasileiras servem como modelo para o mundo. Pouco antes do primeiro turno, em setembro, o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Christopher Johnson, reiterou a confiança do seu país no sistema eleitoral brasileiro. “Nós confiamos, sim”, disse o diplomata.

‘Vem à tona um relato sobre a campanha sistemática do governo Biden para defender a democracia brasileira de qualquer tentativa de Bolsonaro de rejeitar o resultado das urnas’

Mais do que as declarações públicas, entretanto, vem à tona nesta semana um relato sobre uma campanha sistemática do governo Biden para defender a democracia brasileira de qualquer tentativa de Bolsonaro de rejeitar o resultado das urnas e tentar se manter no poder com apoio dos militares.

Uma longa reportagem investigativa publicada pelo jornal Financial Times revela que o objetivo dos americanos era enfatizar duas mensagens consistentes para generais brasileiros aliados de Bolsonaro: Washington se manteria neutro em relação a qualquer resultado da eleição, mas não toleraria tentativas de questionar o processo de votação ou o resultado das urnas.

A reportagem é resultado de entrevistas com seis funcionários do governo dos EUA envolvidos na campanha contra a possibilidade de golpe e também com várias figuras de instituições brasileiras. Ela relata a história de como o governo Biden se envolveu em uma campanha incomum de mensagens públicas e privadas para posicionar os americanos como contrários à ruptura democrática no Brasil.

‘Oficiais americanos explicaram aos militares brasileiros as consequências de apoiar qualquer ação inconstitucional, como um golpe’

https://interessenacional.com.br/edicoes-posts/daniel-buarque-mesmo-sem-trump-e-bolsonaro-populismo-continua-ameacando-a-democracia/

Um dos pontos mais importantes do texto publicado pelo jornal de economia diz respeito aos sinais que os americanos davam aos militares em relação às parcerias entre as Forças Armadas dos dois países. Os oficiais americanos explicaram aos militares brasileiros as consequências de apoiar qualquer ação inconstitucional, como um golpe. “Haveria ramificações negativas significativas para o relacionamento bilateral entre militares, se eles fizessem algo [contra a democracia], e eles precisavam respeitar o resultado da eleição”, disse um alto funcionário do governo ao jornal. “A declaração dos EUA foi muito importante, principalmente para os militares”, relatou um brasileiro sobre o caso. “Eles recebem equipamentos dos EUA e fazem treinamento lá, então ter um bom relacionamento com os EUA é muito importante para os militares brasileiros . . . A declaração foi um antídoto contra a intervenção militar”.

Esta dependência do Brasil em relação aos militares americanos e o peso disso para evitar um golpe no país já tinham sido apresentados pelo professor Sean Burges, da universidade de Carleton, no Canadá, em entrevista ao Interesse Nacional em julho do ano passado. Segundo ele, se os generais entrassem na questão política e ajudassem Bolsonaro a dar um golpe, poderia haver sérios problemas para o Brasil. 

https://interessenacional.com.br/edicoes-posts/sean-burges-ruptura-democratica-afetaria-parcerias-que-garantem-a-seguranca-nacional-do-brasil/

“A capacidade de proteger o Brasil, de se envolver nas parcerias internacionais para manter o que é necessário para a soberania militar do Brasil é de fato altamente dependente das relações internacionais. Se os militares intervierem, a primeira coisa que você verá é um colapso repentino da cooperação, especialmente com os Estados Unidos. E por mais que os brasileiros não queiram admitir publicamente, isso é algo muito importante. (…) Tudo vai ser interrompido. O treinamento conjunto, as missões conjuntas, as consultas conjuntas, tudo isso vai desaparecer muito rapidamente. (…) E esse tipo de pressão provavelmente está acontecendo nos bastidores. A esperança é que haja uma divisão dentro das Forças Armadas entre os politicamente ativos e engajados e um grupo que está realmente genuinamente preocupado com a segurança nacional do Brasil”, disse Burges à época.

Os relatos apresentados pelo Financial Times reforçam esta interpretação sobre a importância de conexões internacionais e o comportamento dos militares enquanto o governo tentava gerar desconfiança sobre o processo eleitoral. O jornal faz questão de deixar claro, entretanto, que as fontes ouvidas sempre reforçaram que a manutenção da democracia foi obra das instituições brasileiras, e que os EUA apenas deram sinais a seu favor. 

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Assim como aconteceu no golpe de 1964, a conexão externa foi importante, mas o contexto doméstico foi o que determinou os rumos da política brasileira. Dessa vez com um resultado positivo, garantindo a manutenção e a saúde da democracia do país — bem como seus importantes laços com alguns de seus principais aliados no resto do mundo.


*Daniel Buarque é colunista e editor-executivo do portal Interesse Nacional, pesquisador do pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP e doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor dos livros “Brazil, um país do presente” (Alameda) e “O Brazil É um País Sério?” (Pioneira).

https://interessenacional.com.br/edicoes-posts/daniel-buarque-ataques-a-democracia-ameacam-construcao-do-prestigio-do-brasil/

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional 

Editor-executivo do portal Interesse Nacional. Jornalista e doutor em Relações Internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. Mestre pelo KCL e autor dos livros Brazil’s international status and recognition as an emerging power: inconsistencies and complexities (Palgrave Macmillan), Brazil, um país do presente (Alameda Editorial), O Brazil é um país sério? (Pioneira) e O Brasil voltou? (Pioneira)

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