11 março 2026

Desmantelamento de organizações e criação do Conselho da Paz mostram desprezo de Trump pela ordem internacional liberal

Em 20 de janeiro de 2025, Donald Trump tomou posse como 47º presidente dos Estados Unidos (EUA). No mesmo dia, ele retirou o país da Organização Mundial da Saúde (OMS), agência especializada da Organização das Nações Unidas (ONU), alegando, entre outros pontos, a má gestão da pandemia da covid-19 pela organização e a exigência de […]

Foto: Casa Branca

Em 20 de janeiro de 2025, Donald Trump tomou posse como 47º presidente dos Estados Unidos (EUA). No mesmo dia, ele retirou o país da Organização Mundial da Saúde (OMS), agência especializada da Organização das Nações Unidas (ONU), alegando, entre outros pontos, a má gestão da pandemia da covid-19 pela organização e a exigência de “pagamentos injustamente onerosos dos EUA, muito desproporcionais aos pagamentos cobrados de outros países”, como, por exemplo, a China. Ainda nesse dia, Trump também retirou os EUA do Acordo de Paris e encerrou o Plano Internacional de Financiamento Climático dos EUA, bem como todos os compromissos financeiros do país por meio da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre o Clima.

Em 4 de fevereiro de 2025, o ataque do presidente Trump às organizações internacionais continuou com a Ordem Executiva 14199, que visava revisar, em até 180 dias, todas as organizações internacionais e os tratados dos quais os EUA faziam parte e contribuíam financeiramente, para que decisões sobre permanência ou retirada fossem tomadas com base no alinhamento dessas entidades e nos renovados interesses estadunidenses no segundo governo Trump.

Em seguida, o presidente dos EUA anunciou a saída do país do Conselho de Direitos Humanos da ONU e a revisão da participação na Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), com a concretização da retirada em julho de 2025. Trump também suspendeu as contribuições à Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente (UNRWA, na sigla em inglês), afirmando que a única alternativa dos palestinos que viviam na Faixa de Gaza era deixar o território, que seria transformado em um “empreendimento imobiliário” turístico.

Desde então, o governo Trump protagonizou uma série de episódios que evidenciaram seu desprezo pelo direito internacional e pela chamada ordem internacional liberal, baseada em regras e organizações intergovernamentais cuja constituição foi fortemente influenciada, em conteúdo e forma, pelos próprios EUA no pós-Segunda Guerra Mundial.

Nesse sentido, destaca-se o papel central dos EUA na Conferência de Bretton Woods de 1944, que teve como objetivo planejar a ordem econômica internacional do pós-guerra e promover a cooperação internacional e a recuperação dos países afetados pelo conflito. Ao final da Conferência, foi acordada a criação do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD, parte do Grupo Banco Mundial) e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Desde então, essas organizações contribuíram para avançar a hegemonia e os interesses dos EUA no Sistema Internacional, com esse país detendo, historicamente, as maiores cotas e o maior poder de voto em ambas as organizações.

Como compreender a saída dos EUA de organizações internacionais?

Evidentemente, a resposta, assim como a realidade, não é simples. Trump radicalizou seu discurso e prática no seu primeiro ano do segundo mandato e optou por retirar o país de diversas organizações, sobretudo do Sistema ONU, afirmando que seus fundos, agências e programas são, em geral, ineficientes e promotores de valores e ideais distintos dos renovados interesses estadunidenses. Assim, retirou o país de diversas instâncias do Sistema ONU, cortou financiamentos essenciais ao trabalho de campo de uma série de agências e se articulou constantemente com outras nações para minar o trabalho da organização e as negociações intergovernamentais em temas como desenvolvimento, meio ambiente e gênero ao longo de 2025.

A revisão da participação dos EUA em organizações internacionais excedeu o prazo inicialmente previsto pela Ordem Executiva de fevereiro de 2025, mas, em janeiro de 2026, a promessa foi cumprida com a retirada do país de 35 organizações não pertencentes à ONU e de 31 agências e organizações especializadas da ONU, totalizando a saída sem precedentes de uma nação de exatamente 66 organizações intergovernamentais simultaneamente.

Alguns analistas – inclusive do Projeto 2025, manual de políticas desenvolvido pela conservadora Heritage Foundation para o segundo governo Trump – defendiam a revisão da participação dos EUA em todas as organizações internacionais. Isso incluía o BIRD e o FMI, mas a saída das organizações tradicionais de Bretton Woods, nas quais os EUA detêm uma posição de poder privilegiada, não foi verdadeiramente cogitada pelo alto escalão do governo e não ocorreu. E, apesar de terem abandonado uma série de entidades do Sistema ONU, os EUA não se retiraram completamente da organização e continuam a marcar presença em sua Assembleia Geral e em seu Conselho de Segurança, onde detêm – e continuam a exercer – o poder de veto.

Os reais objetivos do novo Conselho da Paz

Assim, nota-se a complexidade entre o discurso e a prática dos EUA de Trump e sua relação com as organizações internacionais centrais da ordem internacional. Contudo, ao mesmo tempo em que não as abandonou por completo, o país se destacou pela criação de outras instâncias, com destaque para o Conselho da Paz (Board of Peace).

O Conselho da Paz foi uma proposta de Donald Trump, de setembro de 2025, aprovada por uma resolução do próprio Conselho de Segurança da ONU em novembro do mesmo ano. Estabelecido de fato em janeiro de 2026, seu objetivo declarado é facilitar a negociação da paz entre Israel e Palestina e, posteriormente, coordenar os fundos destinados à reconstrução da Faixa de Gaza.

Diversos países foram convidados a participar do Conselho, dentre os quais o Brasil, mas apenas vinte aceitaram, entre eles Israel, Catar, Arábia Saudita, Turquia e Egito. Sua primeira reunião ocorreu ainda em janeiro de 2026, com diversas outras nações presentes como observadoras. Nesse contexto, vale ressaltar que a criação dessa entidade representa, na prática, mais um desafio para o já desgastado Conselho de Segurança da ONU, o principal espaço para a negociação de questões de paz e segurança internacionais.

Trump passou a liderar o Conselho da Paz em sua capacidade individual e não como presidente dos EUA. Logo, poderá continuar à frente da entidade mesmo após o término de seu mandato. Sete homens foram nomeados por ele para um mandato de dois anos, que pode ser prorrogado ou encerrado a seu critério, para conduzir os trabalhos do Conselho da Paz. São eles: o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio; o antigo conselheiro, genro e investidor imobiliário, Jared Kushner; o enviado especial para o Oriente Médio dos EUA e investidor imobiliário, Steve Witkoff; o antigo primeiro-ministro inglês, Tony Blair; o CEO da empresa de ativos Apollo Global Management, Marc Rowan; o Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Robert Gabriel; e o presidente do Grupo Banco Mundial, Ajay Banga.

Cada membro desse Conselho Executivo é responsável por supervisionar uma área específica relacionada às questões da Faixa de Gaza. Nesse contexto, a presença do presidente do Grupo Banco Mundial borra os limites e o processo regular de atuação do BIRD como banco multilateral de desenvolvimento, ao mesmo tempo em que escancara a perniciosidade da relação dos EUA com a instituição.

Em anonimato, um funcionário de alto escalão do BIRD afirmou à Devex que “toda a estrutura do [Conselho da Paz] depende da credibilidade do Banco Mundial. Sem o aval do Banco, os investidores veriam isso como um esforço de reconstrução altamente politizado e sem prestação de contas independente” (…). Banga concedeu essa credibilidade incondicionalmente”.

Na prática, o papel do Banco Mundial na Faixa de Gaza ainda não está claro, mas, dada a presença de diversos profissionais do ramo imobiliário no Conselho, é evidente a busca por lucros e a parcialidade do órgão e de sua função de gestão de um território, reforçando o genocídio e a segregação da população palestina, que tem pouco ou quase nenhum poder na entidade.

Isso parece reforçar-se nas negociações para que um dos maiores bancos de investimento, o JPMorgan Chase, preste serviços bancários ao Conselho da Paz na chamada reconstrução da Faixa de Gaza. Embora funcionários do governo Trump tenham se recusado a comentar as tratativas com o banco, acrescentaram que o governo estava “explorando todas as opções que pudessem [nos] ajudar a levar assistência a Gaza da maneira mais eficiente e eficaz possível”.

Os EUA de Trump se afastaram e se retiraram, em um ato sem precedentes, de uma série de organizações internacionais. Mas a permanência e a mobilização de outras, como discutido no caso do Banco Mundial, apontam para a sua importância persistente para a governança global e para um Estado central, mesmo em um contexto de desmonte da ordem internacional. Resta observar como e se outros Estados buscarão dar novos sentidos a elas.


Rúbia Marcussi Pontes, PhD Candidate, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

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