10 junho 2026

Entre Kissinger e Tucídides

A comparação entre a abertura diplomática promovida por Nixon e Kissinger nos anos 1970 e a recente aproximação entre Trump e Xi Jinping revela mais diferenças do que semelhanças. Enquanto a estratégia americana na Guerra Fria reorganizou o equilíbrio global ao explorar a divisão sino-soviética, o atual diálogo busca apenas administrar uma rivalidade direta entre as duas maiores potências do mundo. Em um cenário marcado por alianças fluidas, interdependência econômica e ausência de liderança hegemônica, a relação sino-americana continua sendo o eixo central da política internacional, mas sem capacidade de restaurar uma ordem global estável. A diplomacia reduz tensões e amplia a previsibilidade, porém não elimina a competição estratégica nem a crescente fragmentação do sistema internacional

Foto: Ilustração criada com IA

Em julho de 1971, Henry Kissinger desembarcou secretamente em Pequim e abriu caminho para uma das maiores inflexões diplomáticas do século XX. A viagem preparou a visita de Richard Nixon à China no ano seguinte e redesenhou a geometria da Guerra Fria. 

Mais de cinco décadas depois, uma nova cúpula em Pequim, agora entre Donald Trump e Xi Jinping, desperta a tentação imediata da comparação histórica. Mais ainda porque, em Washington, outra coincidência chama atenção: Marco Rubio acumula hoje, ainda que em contexto muito distinto, as funções de secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional, combinação associada de forma quase mítica a Kissinger nos anos 1970.

A semelhança, porém, deve ser tratada com cuidado. 

Kissinger ainda não era secretário de Estado em 1971; ocupava então o posto de conselheiro de Segurança Nacional. Só em 1973, ao ser nomeado secretário de Estado, tornou-se o primeiro a exercer simultaneamente as duas funções. Rubio, por sua vez, passou a acumular os dois cargos em 2025, tornando inevitável a comparação formal. Mas é justamente aí que começa a diferença substantiva. 

A semelhança institucional existe. A equivalência estratégica, não.

A ruptura de 1971

A cúpula de 1971/1972 foi uma operação de ruptura. A diplomacia americana percebeu que o mundo comunista não era monolítico e decidiu explorar a cisão sino-soviética. Washington aproximou-se de Pequim não porque houvesse afinidade política, ideológica ou econômica, mas porque a China podia ser usada como contrapeso à União Soviética.

A abertura à China alterou a relação entre as três grandes potências da Guerra Fria, ampliou a margem americana na negociação com Moscou, ajudou a criar condições para a distensão e ofereceu a Nixon uma via diplomática para reposicionar os Estados Unidos em meio ao desgaste da Guerra do Vietnã.

A lógica, portanto, era triangular. 

‘A genialidade estratégica de Kissinger consistiu em compreender que a divisão entre adversários podia ser mais útil do que a tentativa de contê-los como se formassem um bloco único’

Os Estados Unidos não estavam apenas se aproximando da China; estavam deslocando a China dentro do equilíbrio global de poder. Pequim deixava de ser tratada exclusivamente como parte do campo comunista e passava a ser vista como peça autônoma em uma competição maior. A genialidade estratégica de Kissinger consistiu em compreender que a divisão entre adversários podia ser mais útil do que a tentativa de contê-los como se formassem um bloco único.

A cúpula da contenção

A cúpula recente entre Trump e Xi tem natureza quase oposta. Ela não inaugura uma nova geometria internacional. Tampouco transforma a China em instrumento da estratégia americana contra uma terceira potência. Ao contrário: a China é hoje o principal competidor estratégico dos Estados Unidos.

O encontro buscou reduzir tensões, organizar canais de diálogo e produzir algum grau de estabilidade, sobretudo em temas comerciais, agrícolas, tecnológicos e de segurança. Houve anúncios de compras chinesas de produtos agrícolas americanos, discussões sobre aviação, mecanismos bilaterais de comércio e investimento, minerais críticos, Taiwan, Irã e estabilidade estratégica. 

‘A cúpula parece ter produzido alívio tático, não uma reordenação estrutural’

Ainda assim, a cúpula parece ter produzido alívio tático, não uma reordenação estrutural. Mercados e governos podem ter recebido sinais de previsibilidade, mas não houve mudança de fundo na rivalidade sino-americana.

Essa diferença é decisiva. Em 1971, os Estados Unidos usaram a China para administrar a Guerra Fria. Hoje, os Estados Unidos tentam administrar a própria China. 

Em 1971, Pequim era uma oportunidade estratégica. Hoje, é o centro do problema estratégico americano. Nixon e Kissinger podiam explorar a distância entre Moscou e Pequim. Trump e Rubio não dispõem de uma potência equivalente a ser usada contra a China. A triangulação deu lugar à competição direta.

Há, também, um outro ponto sobre o “mundo de 1971” que precisa ser lembrado. Os EUA nesse momento tinham aliados incontestes que entendiam no “poder americano” um sentido de porto seguro

‘Kissinger não foi o primeiro a perceber a China como uma realidade diferente, um outro contexto para pensar relações de poder’

Kissinger não foi o primeiro a perceber a China como uma realidade diferente, um outro contexto para pensar relações de poder. No início dos anos 1970 as relações de poder ainda estavam marcadas pelos quadros mentais da Segunda Guerra Mundial. Vale também lembrar que o principal arquiteto militar da vitória americana, o general George Marshall, foi designado pelo presidente Harry Truman para uma missão especial: construir algum equilíbrio negociado entre o Partido Comunista Chinês e os Nacionalistas do Kuomitang no que era a principal cobiça (ou troféu?) asiática das forças vitoriosas da Segunda Guerra. 

Kissinger compreendeu bem o significado da permanência do general Marshall no Império do Meio (de dezembro de 1945 a janeiro de 1947) e o quanto essa permanência foi fator gerador da lógica do Plano Marshall, para que o mundo destruído pela Segunda Guerra tivesse uma outra assimilação do que significava o “American way of life”. 

‘Kissinger ofereceu reequilíbrio de poder em torno das ansiedades de desenvolvimento de Pequim. Nada disso está presente na visão de mundo do atual secretário de Estado americano que pensa poder em termos de competição direta’

Marshall compreendeu bem a impossibilidade da divisão igualitária de poder na China entre nacionalistas e maoistas. Mas, percebeu também oportunidades futuras no mundo chinês para a máquina econômica americana. Não para aquele momento. Kissinger retomou essa percepção fazendo uma outra oferta para reequilíbrio de poder em torno das ansiedades de desenvolvimento de Pequim. Nada disso está presente na visão de mundo do atual secretário de Estado americano que pensa poder em termos de competição direta.

Kissinger, Rubio e dois mundos diferentes

Também é preciso cuidado com a coincidência entre Kissinger e Rubio. O fato de ambos concentrarem, em momentos diferentes, funções centrais da política externa americana não significa que exerçam o mesmo papel histórico. 

Kissinger era um arquiteto de equilíbrio de poder. Sua diplomacia partia de uma leitura sistêmica da Ordem Internacional, da hierarquia entre ameaças e da possibilidade de rearranjar posições relativas entre grandes potências. Seu legado é controverso, mas sua lógica era estratégica.

‘A diferença não está apenas entre dois homens, mas entre dois mundos’

Rubio, por outro lado, atua em um contexto muito mais fragmentado, sob uma presidência mais personalista, transacional e menos comprometida com a arquitetura institucional da antiga liderança americana. A diferença não está apenas entre dois homens, mas entre dois mundos. Nos anos 1970, a Guerra Fria tinha uma estrutura dura, mas reconhecível. Havia dois polos principais, alianças relativamente disciplinadas, regras tácitas de contenção, áreas de influência e uma gramática comum de dissuasão.

A abertura à China não acabou com a Guerra Fria, mas reorganizou seu funcionamento. Ao explorar a rivalidade sino-soviética, os Estados Unidos ajudaram a estabilizar a competição em novos termos. A diplomacia de Nixon e Kissinger não produziu paz, mas produziu uma nova arquitetura de equilíbrio.

A falsa nova Guerra Fria

É exatamente por isso que a tentação de chamar o momento atual de “nova Guerra Fria” precisa ser tratada com cautela. A expressão é sedutora porque há, de fato, uma rivalidade sistêmica entre Estados Unidos e China. Há disputa tecnológica, militar, comercial, geopolítica e, em alguns temas, ideológica. Mas isso não basta para caracterizar uma nova Guerra Fria no sentido clássico.

O mundo atual não está organizado em dois blocos rígidos. A China não lidera um campo equivalente ao soviético. A Rússia é parceira de Pequim, mas não subordinada a ela. A Índia compra petróleo e armamentos russos, mas também dialoga com Washington. Países do Golfo negociam simultaneamente com Estados Unidos, China, Rússia e Europa. Mesmo aliados tradicionais dos Estados Unidos buscam margens maiores de autonomia.

‘A Guerra Fria original dependia de blocos. O momento presente é marcado justamente pela ausência de blocos disciplinados’

Barry Buzan tem razão ao chamar atenção para a possibilidade de uma nova configuração de rivalidade global, mas a ideia de uma “Terceira Guerra Fria” parece insuficiente para explicar a fluidez do sistema atual. A Guerra Fria original dependia de blocos. O momento presente é marcado justamente pela ausência de blocos disciplinados. Há alinhamentos seletivos, não campos fechados. Há dependências cruzadas, não separação sistêmica plena. Há rivalidade entre grandes potências, mas também interdependência econômica transformada em arma.

A China critica a ordem liderada pelos Estados Unidos, mas depende profundamente dela. Os Estados Unidos continuam sendo a maior potência militar do mundo, mas já não organizam seus aliados com a mesma autoridade política do passado. O resultado não é uma nova Guerra Fria plenamente formada, mas uma Ordem Internacional menos ordenada, mais transacional e mais sujeita à lógica da força.

A advertência de Tucídides

Há ainda uma diferença simbólica importante. Na cúpula recente, Xi Jinping mencionou a chamada Armadilha de Tucídides, perguntando se China e Estados Unidos seriam capazes de superá-la e construir um novo paradigma de relações entre grandes potências. A referência não é casual. A expressão, popularizada por Graham Allison, remete ao risco de guerra quando uma potência ascendente desafia uma potência estabelecida.

Ao mobilizá-la diante de Trump, Xi não apenas descreveu um dilema acadêmico; lançou uma advertência política. A mensagem implícita é clara: se Washington tratar a ascensão chinesa como ameaça existencial e tentar bloqueá-la, o conflito pode deixar de ser apenas uma possibilidade teórica. Trata-se, portanto, de uma ameaça em linguagem sofisticada, apresentada como convite à prudência.

Esse ponto reforça a diferença com 1971. Na abertura Nixon-Kissinger, Pequim não se apresentava como a potência ascendente que exigia reconhecimento paritário dos Estados Unidos. A China era ainda uma força revolucionária, pobre, isolada e interessada em romper o cerco soviético. Hoje, Xi fala a partir de outra posição: a de uma potência que reivindica status, espaço estratégico e legitimidade para reorganizar parte da Ordem Internacional.

‘A Armadilha de Tucídides, nesse sentido, não é apenas uma metáfora histórica. É uma forma de dizer que a China considera perigosa qualquer tentativa americana de impedir sua ascensão’

A Armadilha de Tucídides, nesse sentido, não é apenas uma metáfora histórica. É uma forma de dizer que a China considera perigosa qualquer tentativa americana de impedir sua ascensão. Na Guerra Fria original, a disputa entre Estados Unidos e União Soviética se dava entre dois blocos ideológicos e militares relativamente separados. Hoje, o problema é outro: uma potência estabelecida e uma potência ascendente estão profundamente interdependentes, mas cada vez mais dispostas a transformar essa interdependência em instrumento de pressão.

A ameaça não está apenas na separação entre dois mundos, como no século XX, mas na fricção permanente dentro de um mesmo sistema econômico global.

Da triangulação à fragmentação

Por isso, a comparação com 1971 ilumina mais as diferenças do que as semelhanças. A abertura de Nixon à China ocorreu dentro de uma Guerra Fria estruturada. A cúpula de Trump com Xi ocorre em um mundo menos ordenado, mais transacional e mais fragmentado. A primeira reorganizou uma disputa entre blocos. A segunda tenta administrar uma competição sem blocos claros.

Em 1971, havia uma geometria estratégica que podia ser manipulada. Hoje, há um tabuleiro mais fluido, no qual vários atores jogam em múltiplas direções ao mesmo tempo. 

‘A rivalidade sino-americana é o eixo mais importante da política internacional contemporânea, mas não organiza sozinha todo o sistema’

Rússia, Índia, União Europeia, governos do Golfo, Turquia e países do Sul Global não se encaixam de forma automática em campos rígidos. Movem-se conforme interesses, oportunidades e vulnerabilidades. A rivalidade sino-americana é o eixo mais importante da política internacional contemporânea, mas não organiza sozinha todo o sistema.

A consequência é que a cúpula de Pequim pode até produzir estabilidade, mas não produz ordem. Pode reduzir a temperatura da rivalidade sino-americana, abrir canais de diálogo, acomodar interesses comerciais e evitar escaladas desnecessárias. Tudo isso é relevante. Em um sistema internacional instável, a previsibilidade entre Washington e Pequim já é um ganho. Mas isso não equivale ao retorno de uma Ordem Internacional estruturada por regras compartilhadas ou por uma liderança hegemônica capaz de disciplinar aliados, adversários e parceiros.

É neste contexto que precisa ser lembrado o “preço” cobrado por Pequim para que a legião de empresários trilionários que acompanhou o presidente Trump, na visita de agora, retomasse investimentos e negócios no mercado chinês de um bilhão e meio de consumidores.

‘Os investimentos americanos no território chinês podem voltar, as compras chinesas no cenário produtivo americano idem, desde que não se fale mais em independência de Taiwan’

Os investimentos americanos no território chinês podem voltar, as compras chinesas no cenário produtivo americano idem, os fluxos de metais das terras raras não sofrerão qualquer soluço (o verdadeiro fator de derretimento absoluto das ameaças tarifárias naquele inesquecível fim de semana de setembro passado em Genebra, em que Scott Bessent só disse sim), desde que… não se fale mais em independência de Taiwan! 

As regras compartilhadas por lideranças hegemônicas perdem seu valor de face e o presidente Trump esquece todos os superlativos para avisar que irá “rever o envio para o Congresso” da autorização para venda de US$ 14 bilhões em armas, anunciado em novembro. 

Avançar nessa venda seria o mesmo que cancelar o convite à visita em setembro de Xi Jinping a Washington. E seria o adeus à retomada de negócios com o mundo chinês, a começar dos modestos 200 aviões da Boeing. Não há poder hegemônico disponível para disciplinar esse poder emergente. Aceitar as exigências chinesas dá o tom e os termos possíveis para dar alguma estabilidade e previsibilidade a uma Ordem Internacional claudicante e nada hegemônica.    

A permanência da Lei da Selva

O que emerge é algo diferente: uma estabilidade parcial dentro daquilo que Ian Bremmer chamou de “Lei da Selva”, isto é, um ambiente internacional em que a ausência de liderança hegemônica efetiva e de regras amplamente respeitadas aumenta o peso da força, da coerção e das barganhas entre grandes potências. 

A expressão pode parecer dura, mas descreve bem um ambiente no qual Estados, empresas e sociedades continuam dependendo de cadeias globais, fluxos comerciais e instituições internacionais, ao mesmo tempo em que cada potência procura transformar essas interdependências em instrumentos de coerção.

‘A ordem não se recompõe apenas porque os grandes predadores decidem conversar’

A rivalidade não desaparece porque há acordos comerciais. A competição não se dissolve porque líderes se reúnem. E a ordem não se recompõe apenas porque os grandes predadores decidem conversar.

Em 1971, os Estados Unidos ainda conseguiam usar a diplomacia para redesenhar a estrutura da Guerra Fria. Hoje, a diplomacia americana parece mais voltada a limitar danos, ganhar tempo e impedir que a competição com a China saia do controle. Essa é uma diferença fundamental. 

A cúpula Nixon-Mao abriu uma nova fase da Guerra Fria. A cúpula Trump-Xi pode abrir apenas uma fase menos caótica da rivalidade atual.

Talvez essa seja a conclusão mais importante. O paralelo histórico é útil, mas não porque 2026 repita 1971. Ele é útil porque mostra o quanto o sistema internacional mudou. Antes, a diplomacia americana explorava divisões entre adversários para reorganizar a ordem. Agora, tenta administrar a fragmentação de uma ordem que já não controla plenamente.

A Guerra Fria tinha riscos imensos, mas possuía uma lógica reconhecível. O mundo atual tem rivalidades intensas, alianças fluidas, interdependências armadas e ausência de árbitro. Pode haver acomodação entre Trump e Xi. Pode haver trégua comercial. Pode até haver alguma estabilidade estratégica. Mas nada disso encerra a Lei da Selva. Apenas confirma que, nela, até os mais fortes precisam negociar pausas, distâncias e zonas de caça.

Gunther Rudzit e Leonardo Trevisan são professores do curso de Relações Internacionais da ESPM

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

Tags:

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