EUA acusam Brasil de integrar rede de espionagem da China
Comitê Especial da Competição Estratégica entre os EUA e China classificou o Brasil como parte de uma rede global de espionagem militar chinesa na América do Sul

Teve pouca – ou nenhuma – repercussão relatório do Comitê Especial da Competição Estratégica entre os EUA e China, da Câmara dos Representantes do Congresso dos EUA, de 26 de fevereiro passado, no qual o Brasil é classificado como parte de uma rede global de espionagem militar chinesa na América do Sul, com fontes primárias, imagens de satélite e documentos governamentais chineses.
A parte do documento em que o Brasil é citado se chama América Latina na Órbita Chinesa (Pulling Latin America into China’s Orbit) e foi produzido pelo Comitê Especial da Câmara dos Representantes dos EUA sobre o Partido Comunista Chinês.
A China opera sob Military-Civil Fusion (MCF): empresas aeroespaciais são legalmente obrigadas a incluir estruturas do PCCh com autoridade de supervisão. A distinção civil/militar simplesmente não existe no direito chinês da forma que existe no ocidental. Toda cooperação espacial com entidades chinesas é, por definição legal, potencialmente acessível ao PLA.
O objetivo estratégico é a Space Domain Awareness (SDA): detectar, rastrear e caracterizar todos os objetos em órbita — satélites adversários, detritos, sistemas de armas — para alimentar o que o PLA chama de “guerra informacionalizada”. O órgão que centraliza esses dados é a PLA Base 37, que recebe informações de toda a rede global, inclusive da América Latina.
‘A localização desses centros na América Latina resulta do fato de a China ter um problema geométrico. A América Latina resolve esse problema’
O documento explica que a localização desses centros na América Latina resulta do fato de a China ter um problema geométrico. Estações terrestres só se comunicam com satélites quando estes estão na linha de visão direta. Sem bases no hemisfério ocidental, o PLA teria pontos cegos enormes nas órbitas de seus satélites militares — incluindo os de reconhecimento e os de guia terminal para mísseis hipersônicos e ICBMs. A América Latina resolve esse problema.
Segundo o documento, a principal informação é a de que instalações espaciais na América Latina — apresentadas como projetos científicos ou comerciais —representaram, na prática, uma infraestrutura militar de duplo uso integrada ao Exército de Libertação Popular (PLA). O Brasil aparece nominalmente como hospedeiro de duas dessas instalações porque resolve o ponto cego equatorial. Estariam localizadas duas instalações espaciais.
A primeira é a Tucano Ground Station, na Bahia — fruto de um acordo de 2020 entre a startup brasileira Ayla Nanosatellites e a chinesa Beijing Tianlian Space Technology, empresa vinculada à China Academy of Space Technology e à China Aerospace Science and Technology Corporation, ambas com ligações diretas ao PLA.
‘O relatório aponta que esse arranjo pode, na prática, aprimorar precisão de rastreamento, consciência situacional espacial e resiliência de comando em ativos civis e militares’
O acordo prevê armazenamento e troca de dados operacionais entre as redes de antenas das duas empresas. O relatório aponta que esse arranjo pode, na prática, aprimorar precisão de rastreamento, consciência situacional espacial e resiliência de comando em ativos civis e militares.
Segundo o documento norte-americano, a Ayla assinou também um memorando com o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial da Força Aérea Brasileira, incluindo treinamento de militares em simulação orbital e uso de antenas da FAB como estrutura de backup da estação de Tucano. O comitê americano conclui que esse arranjo fornece à China um canal para observar e influenciar a doutrina espacial militar brasileira — enquanto estabelece presença permanente numa região que os EUA consideram vital para sua segurança nacional.
A segunda instalação é o China-Brazil Joint Laboratory for Radio Astronomy Technology, na Serra do Urubu, na Paraíba — formalizado em 2025 entre o CESTNCRI (20º Instituto de Pesquisa do CETC, profundamente integrado à base industrial de defesa da China) e as universidades federais da Paraíba e de Campina Grande.
O projeto ancora-se no telescópio BINGO, atualmente em construção em São Paulo. O relatório aponta que os algoritmos de filtragem de interferência de radiofrequência do sistema — usados pelos astrônomos para “limpar” o sinal do cosmos — poderiam ser capazes de interceptar, classificar e isolar pulsos de radar militares, telemetria de satélites e atividade de guerra eletrônica com extrema sensibilidade.
O Itamaraty se pronunciou sobre a alegada estação espacial na Bahia, negando sua existência. Não houve pronunciamento público em relação ao segundo laboratório na Paraíba.
‘O governo de Washington está pressionando a Argentina e o Chile em relação a instalações semelhantes’
O governo de Washington está pressionando a Argentina e o Chile em relação a instalações semelhantes. Por pressão norte-americana, Argentina encerrou o projeto CART de radiotelescópio chinês em 2025. O Chile cancelou o data center sino-chileno no Atacama após o embaixador americano levantar formalmente o tema.
Não há notícia pública de que o Brasil estaria sendo pressionado para encerrar os referidos programas como fizeram a Argentina e o Chile. O relatório do Congresso foi publicado em fevereiro. A imprensa brasileira só o repercutiu em junho — e de forma fragmentada. O governo Lula não emitiu nota. A FAB não se pronunciou. O Itamaraty respondeu parcialmente.
Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.
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