EUA x Venezuela – Presidente sequestrado, regime tutelado.
Ataque promovido por Trump dificilmente resultará em um ponto fora da curva da sequência de desastres e tragédias das intervenções norte-americanas no século XXI

O sequestro de Nicolás Maduro pelo governo dos Estados Unidos no dia 3 de janeiro poderá produzir tanto certeza como indefinições na Venezuela e no mundo.
Primeiro, a certeza da permanência do regime autoritário bolivariano, embora tutelado pelos EUA. Segundo, um conjunto de indefinições: os rumos da disputa por hegemonia no interior do núcleo militar; a capacidade do regime pós-Maduro de dominar os grupos paramilitares dissidentes; e os próximos alvos do expansionismo norte-americano na região e no mundo.
Trump deixou claras as prioridades de sua intervenção: monitoramento do país (“os EUA governarão a Venezuela até uma transição segura”); aliança com dirigentes pragmáticos do atual regime bolivariano (vice-presidente Delcy Rodrigues); marginalização da liderança popular-democrática de Maria Corina Machado; e combate à influência da China, da Rússia e do Irã na América Latina.
‘A intervenção de Trump na Venezuela é a expressão regional da recém lançada Estratégia de Segurança Nacional e a reedição prática do Corolário Roosevelt da Doutrina Monroe, de 1904 – Big stick policy’
A intervenção de Trump na Venezuela é a expressão regional da recém lançada Estratégia de Segurança Nacional e a reedição prática do Corolário Roosevelt da Doutrina Monroe, de 1904 – Big stick policy. É o primeiro ataque militar dos EUA na América do Sul em mais de 200 anos de história, e ocorre 36 anos após a última intervenção militar na América Central (Panamá).
Trump fez alertas de que, na América Latina, outras nações – Colômbia, Cuba e México – poderiam ser objeto de ações norte-americanas. No mundo, além do bombardeio cirúrgico ao Irã, Trump nunca se opôs ao invasor Putin, tendo por vezes dele se aproximado, em contraste com o abandono de aliados, como a Dinamarca, ao afirmar “precisamos da Groenlândia do ponto de vista da segurança nacional”.
O intervencionismo norte-americano no século XXI revela uma sucessão de fracassos – Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria. O ataque à Venezuela e o sequestro de Maduro se somará a essa sequência de desastres e tragédias, ou será um ponto fora da curva?
Intervenções norte-americanas no século XXI – Trajetória de fracassos
O fim da Guerra Fria, com a queda do Muro de Berlim e o desmembramento da União Soviética, em 1991, interrompeu por apenas uma década o intervencionismo dos EUA, sempre sob a justificativa de ameaças à segurança nacional, de defesa da democracia liberal e da estabilização de regiões estratégicas. Entretanto, ao invés disso, o resultado das intervenções foi o enfraquecimento ou o colapso do Estado, o aumento de conflitos internos e a desestabilização regional, como pode ser comprovado nos quatro exemplos a seguir .
A intervenção no Afeganistão, em 2001, destinada a derrubar o regime Talibã e a desmantelar a Al-Qaeda, passou a ter objetivos muito mais ambiciosos – reconstrução do Estado, criação de forças de segurança e democratização.
‘O resultado efetivo da intervenção no Afeganistão foram instituições frágeis, e um Estado dependente de financiamento, de proteção externa e incapaz de monopolizar o uso da força’
O resultado efetivo foi o oposto – instituições frágeis, marcadas pelo clientelismo e pela corrupção, além de um Estado dependente de financiamento, de proteção externa e incapaz de monopolizar o uso da força. Após 20 anos de intervenção, colapsava o Estado, com humilhante retirada dos norte-americanos do país.
Dois anos depois do ataque terrorista de 2001 às Torres Gêmeas de Nova York, o governo Bush lançou uma das mais desastrosas operações militares da história recente. Sob a alegação, infundada, da posse de armas de destruição em massa pelo governo de Saddam Hussein, tropas norte-americanas invadiram o Iraque, com a alegação de implantar um regime democrático, aliado do Ocidente.
A era pós-Saddam Hussein provocou fragmentação do poder, sectarismo e foi pautada pela exclusão política dos sunitas e enfraquecimento da identidade nacional, com o fortalecimento de milícias armadas autônomas ou sob forte influência iraniana. O país mergulhou numa guerra civil sectária entre 2006 e 2008, agravada, a partir de 2014, pela ascensão do Estado Islâmico (ISIS).
‘A intervenção norte-americana, somada à de outros países, transformou a Líbia num Estado falido’
A mudança de regime na Líbia, fruto da intervenção de 2011, teve como justificativa a proteção de civis, mas na prática produziu a queda do ditador Muammar Gaddafi e um país fragmentado por governos rivais, milícias armadas e intervenções estrangeiras indiretas -Turquia, Rússia, Egito e Emirados Árabes Unidos. A intervenção norte-americana, somada à de outros países, transformou a Líbia num Estado falido, mais instável, violento e fragmentado do que sob o regime autoritário de Gaddafi.
A Síria é um caso distinto, porque não houve propriamente uma intervenção norte-americana, mas sim apoio a grupos rebeldes e presença militar parcial dos EUA no leste do país. Embora sem intervir diretamente , o envolvimento dos EUA – hostil à ditadura de Assad apoiada pela Rússia – contribuiu para prolongar o conflito e internacionalizar a guerra.
Ditador sequestrado – Autoritarismo preservado
O sequestro de Maduro foi sem dúvida uma exitosa e espetacular operação policial-militar. Mas seu maior teste serão os desdobramentos da Venezuela pós-Maduro.
Seguirão um curso de desestabilização e caos contrário às pretensões hegemônicas de Washington? Para evitar essa trajetória, Trump optou por aproximar-se do regime chavista e afastar-se da liderança popular protagonizada por Maria Corina Machado, hostilizada pelos militares. Em lugar da líder do movimento que derrotou Maduro nas eleições, Washington vem procurando selar aliança com setores pragmáticos do bolivarianismo, representados por Delcy Rodrigues, ex-vice-presidente, ex-ministra do petróleo e atual presidente da Venezuela.
‘O êxito operacional do sequestro do ex-presidente torna o big stick um instrumento político concreto e confere maior credibilidade às ameaças de Trump’
O êxito operacional do sequestro do ex-presidente torna o big stick um instrumento político concreto e confere maior credibilidade às ameaças de Trump, o que lhe dá melhores condições de negociação com o governo bolivariano.
O preço cobrado por Trump para apoiar a atual presidente é sua total subordinação aos interesses norte-americanos no país. A resposta de Delcy Rodrigues é a ambivalência, presente em seus dois discursos: o primeiro, para o público interno, em defesa da soberania da Venezuela, fiel aos princípios do bolivarianismo; o segundo, que anuncia intenção de cooperar com o governo norte-americano.
Essa estratégia de não confrontar o atual governo e de buscar a cooptação tem por objetivo assegurar estabilidade, por meio da manutenção da estrutura de poder vigente (militar).
‘O jogo de Trump se baseia na defesa dos interesses norte-americanos no país e em um sistema de alianças que a assegurem’
Nesse sentido, a estratégia de Trump foge do padrão usual das intervenções norte-americanas, que anunciavam planos ambiciosos de reconstrução do Estado e fortalecimento de instituições democráticas (Afeganistão e Iraque). O jogo de Trump se baseia na defesa dos interesses norte-americanos no país e em um sistema de alianças que a assegurem. Daí a busca da estabilidade interna.
O primeiro fator que deverá dificultar essa estabilidade resulta da provável perda de vantagens econômicas do estamento militar. Desde o primeiro governo chavista (2000), os militares capturaram a maior fatia dos recursos derivados não só da receita da estatal de petróleo (PDVSA), mas também do faturamento de empresas dos setores agropecuário e industrial, em grande medida dirigidas por militares.
O ataque norte-americano visou assegurar a exploração do petróleo venezuelano por empresas norte-americanas, o que deverá reduzir a receita da PDVSA e consequentemente dos militares. Nos demais setores da economia, é possível que ganhe força uma onda de privatizações, o que também prejudicaria as estatais e os militares, que ocupam cargos de direção nessas empresas.
‘Outra dimensão da intervenção dos EUA está ligada à tentativa de conter a crescente influência da China, da Rússia e do Irã na América do Sul’
Outra dimensão da intervenção dos EUA está ligada à tentativa de conter a crescente influência da China, da Rússia e do Irã na América do Sul. Isso explica as declarações de Trump de estender o arco de intervenções para outros cinco países da região.
Esse movimento é preocupante para o conjunto da América do Sul, inclusive para o Brasil, diante de notícias de que diplomatas norte-americanos ligados ao partido Republicano estariam articulando formas que possam permitir aos EUA o uso irrestrito do Aeroporto de Fernando de Noronha e da Base Aérea de Natal.
Ao ampliar o escopo territorial da intervenção, Trump poderá alimentar forças desestabilizadoras.
Essas residem no núcleo duro da resistência à intervenção, constituído pelas FANB- Forças Armadas Nacionais Bolivarianas (contingente de cerca de 150 mil militares ativos). Esse núcleo é integrado também por guerrilheiros colombianos, aliados ao governo de Maduro, e membros tanto do Exército de Libertação Nacional (ELN), como das extintas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).
Alguns desses grupos mantêm vínculos com o tráfico, que beneficia alguns dos dois mil generais venezuelanos. As forças paramilitares são compostas igualmente pela milícia civil bolivariana, com efetivos estimados entre 200 e 400 mil membros, mas com pouca capacidade de arregimentação de seus quadros.
Conclusão
Este artigo começou com uma questão central: o ataque à Venezuela se somará à sequência de desastres e tragédias das intervenções norte-americanas no século XXI, ou será um ponto fora da curva? Nossa conclusão é que dificilmente o ataque promovido por Trump resultará em um ponto fora da curva.
A intervenção atual tem a vantagem de não alimentar veleidades do passado, tais como a reconstrução do Estado ou a defesa da democracia liberal, presentes nos casos do Afeganistão e do Iraque.
‘O jogo de Trump é a dura realpolitik’
O jogo de Trump é a dura realpolitik. Ela está presente no campo da política doméstica (aliança com o autoritarismo militarista bolivariano), na esfera energética (monopólio da gestão dos recursos de petróleo e gás) e no campo da geopolítica (exclusão da influência chinesa, russa e defesa da “Venezuela para os americanos”).
Entretanto, essa vantagem estratégica fica dissolvida pela índole expansionista de ampliar o escopo da intervenção para outros países da região, como formulada por Trump. Ao mesmo tempo, os obstáculos políticos e econômicos tornam improvável que a experiência norte-americana na Venezuela seja um ponto fora da curva das intervenções ao redor do mundo.
O modelo político da Venezuela bolivariana – populismo rentista – é produto de um conjunto de fatores responsáveis pelo retrocesso político e pela recessão econômica: nacionalização dos principais setores da economia; instrumentalização política da PDVSA; crescimento vertiginoso da população abaixo da linha da pobreza; inflação crônica e recorrentes episódios de hiperinflação; descontrole das contas públicas e crônico endividamento estrutural.
‘A estabilidade da era pós-Maduro dependerá, em grande medida, da eficácia da repressão/cooptação dos núcleos duros de resistência ao ataque norte-americano’
A estabilidade da era pós-Maduro dependerá, em grande medida, da eficácia da repressão/cooptação dos núcleos duros de resistência ao ataque norte-americano. Ao mesmo tempo, dependerá da manutenção da estrutura de poder bolivariana, que exigirá, como condição para ser cooptada, a manutenção do modelo rentista – base para os privilégios extraordinários do segmento militar.
Independente do futuro político do regime pós-Maduro, o ataque norte-americano ao país simboliza a ruptura com o direito internacional, com os princípios consagrados na carta da ONU e com a histórica convivência pacífica no continente sul-americano. A transgressão desses princípios, associada à intenção manifestada por Trump de colocar em risco de intervenção norte-americana cinco outros países latino-americanos, constitui inaceitável ameaça a ser combatida pelas forças democráticas da região.
Sergio Abreu e Lima Florêncio é colunista da Interesse Nacional, economista, diplomata e professor de história da política externa brasileira no Instituto Rio Branco. Foi embaixador do Brasil no México, no Equador e membro da delegação brasileira permanente em Genebra.
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