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Daniel Buarque: Vitória de Milei e tropeços marcam ano de dificuldades na busca por protagonismo regional

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Começo do governo Lula buscou reforçar a importância da integração e da cooperação sul-americana com foco em fortalecer os laços no continente e impulsionar o país a ter papel de liderança. Eleição na Argentina e tropeços durante o ano mostram os desafios encontrados no processo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante sessão de abertura da Cúpula CELAC-UE (Foto: PR)

Por Daniel Buarque*

A vitória de Javier Milei nas eleições presidenciais da Argentina e o convite para que o ex-presidente Jair Bolsonaro compareça à posse, e não o atual governante do Brasil, coroam um ano de desafios e tropeços na tentativa brasileira de retomar protagonismo na América do Sul. Por mais que Luiz Inácio Lula da Silva tenha recolocado a integração regional como prioridade da sua pauta na tentativa de reconstruir o status internacional do país, erros no processo e a conturbada realidade da região mostraram que este não é um caminho fácil.

Em sua primeira viagem internacional desde que assumiu o terceiro mandato, Lula esteve na Argentina, no Uruguai e se reuniu com líderes regionais durante a Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). Naquele momento, no início de 2023, a atenção estava voltada ao que era descrito como uma nova onda de governos de esquerda na região, selando o processo de reconstrução do lugar do Brasil no mundo iniciado pelo novo governo. Desde de que voltou ao poder, Lula falou sobre a importância de desenvolver uma maior integração do Brasil com a região a fim de promover os laços políticos e melhorar as perspectivas para as economias locais.

‘Ter um papel de liderança da América do Sul seria uma das melhores opções para o Brasil conseguir ampliar seu prestígio internacional’

Trata-se de um objetivo válido, uma vez que a comunidade de política externa das grandes potências aponta que ter um papel de liderança da América do Sul seria uma das melhores opções para o país conseguir ampliar seu prestígio internacional. No processo de alcançar um alto status, tornar-se uma potência regional primeiro é um passo comumente encontrado na literatura de relações internacionais como um facilitador em diferentes partes do mundo. Além disso, a política externa do país em relação aos vizinhos foi uma das áreas mais impactadas negativamente pela mudança de perfil da diplomacia brasileira sob Bolsonaro. 

O problema é transformar este objetivo em realidade.

Lula enfrentou dificuldades desde o começo nas relações com vários dos vizinhos mais importantes nessa tentativa de reconstruir uma relação forte do país com a região. Logo em sua primeira viagem, ficou evidente a pretensão do Uruguai de flexibilização das regras do Mercosul para permitir negociações bilaterais com a China, por exemplo, o que não é aceito pelo Brasil e revelou tensões na região.

‘Lula enfrentou dificuldades desde o começo nas relações com vários dos vizinhos mais importantes nessa tentativa de reconstruir uma relação forte do país com a região’

Menos de seis meses após chegar ao poder, o Brasil organizou uma reunião de presidentes da América do Sul, mas alcançou resultados limitados. O documento final indicava a dificuldade para se conseguir apoio entre todos os países. Um mês depois, em julho, a reunião de presidentes do Mercosul marcou a transferência da coordenação do bloco da Argentina para o Brasil, mas também revelou o aprofundamento de uma crise existencial e de divergências entre os países membros do grupo sub-regional.

Também pode ser visto como um tropeço o debate em torno da ideia de criar uma moeda comum para ser usada pelo Mercosul, o que criou ruído e acabou não avançando no sentido de dar protagonismo positivo para o Brasil na região.

O ano foi marcado ainda pela tensão por conta da atenção exagerada dada pelo Brasil ao ditador venezuelano Nicolas Maduro. Lula recebeu Maduro de forma isolada durante o encontro com líderes regionais e disse que o venezuelano teria de mudar a narrativa construída contra seu país, em um posicionamento que recebeu fortes críticas dos presidentes do Chile e do Uruguai, o que foi visto como um tropeço. 

Meses depois, em outubro, quando foram assinados acordos entre o governo de Maduro e a oposição pela realização de eleições presidenciais na Venezuela em 2024, foi a Noruega que se destacou pela mediação, deixando o Brasil apenas como testemunha do processo. E o Brasil também não conseguiu até o momento evitar a tensão entre o governo Maduro e a Guiana por conta território que a Venezuela pretende incorporar.

Um mês antes do fim do primeiro ano do novo governo Lula, entretanto, foi o principal vizinho que deixou a marca mais dura no processo de reconstrução do lugar do Brasil na região. Durante a campanha na Argentina, Milei atacou o presidente brasileiro e declarou que não queria ter relações próximas com o país, que é um dos principais parceiros comerciais da Argentina. Eleito, convidou Bolsonaro à posse, enquanto a principal candidata para assumir o ministério das Relações Exteriores do país disse que a Argentina não vai promover relações com o Brasil

Dessa vez, Lula adotou um tom mais pragmático. Reconheceu que pode haver dificuldades nas relações com Milei, mas ressaltou que a política externa não precisa ser feita com base em amizades, mas na defesa democrática dos interesses nacionais. Além disso, é evidente que a Argentina tem muito mais a perder com o afastamento, uma vez que o Brasil tem uma situação mais confortável economicamente, além de ter outros parceiros comerciais mais importantes pelo mundo. Ainda assim, é um desafio para a liderança regional do país.

Ao voltar ao poder, Lula declarou que o protagonismo do Brasil na região se concretizaria pela retomada da integração sul-americana a partir do Mercosul, e tem tentado acelerar a assinatura do acordo do bloco com a União Europeia, especialmente após a vitória de Milei (mas antes da sua posse). A realidade regional, entretanto, tem se mostrado um desafio complicado para o país, mesmo quando ele acerta nos passos para tentar assumir este protagonismo.


*Daniel Buarque é editor-executivo do portal Interesse Nacional, doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor dos livros “Brazil, um país do presente” (Alameda) e “O Brazil É um País Sério?” (Pioneira).


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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