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Fausto Godoy: A visita do chanceler da China

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Viagem do ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, expôs o interesse do país em reforçar a parceria estratégica com o Brasil. Aproximação divide opiniões, inclusive no Itamaraty. Para embaixador, devemos avançar para onde os nossos interesses nacionais sejam melhor atendidos

O ministro chinês Wang Yi e o chanceler Mauro Vieira após cerimônia de assinatura de atos e declaração à imprensa, no Palácio Itamaraty (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Por Fausto Godoy*

Em nota à imprensa do dia 17 deste mês o Itamaraty comunicou que o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, estaria realizando, no período de 17 e 18 de janeiro, uma visita oficial ao Brasil para co-presidir com o nosso chanceler Mauro Vieira a IV Reunião do Diálogo Estratégico Global Brasil-China. Segundo o comunicado, na ocasião seriam “tratados temas bilaterais, multilaterais e regionais, além da presidência brasileira do G-20; a reforma da governança global; e a cooperação bilateral em comércio, investimentos e ciência, tecnologia e inovação”. Ou seja, tudo!

Lamentavelmente notei pequeno interesse de parte da nossa imprensa por um assunto que considero da maior relevância para nós: o futuro e os desdobramentos da “parceria estratégica” que firmamos com a República Popular da China, em 1993. Parceria esta, aliás, que nos foi proposta pelos próprios chineses durante uma visita do então vice-primeiro-ministro e encarregado das reformas econômicas, Zhu Rongji, ao Brasil. Cabe notar, melancolicamente, que naquele momento o nosso PIB (US$ 368,3 bilhões) era apenas ligeiramente inferior ao da China (US$ 444,7 bilhões).

‘A proposta de relações especiais atendia a duas vertentes: uma parceria política que defluía do peso específico dos dois países nas suas respectivas regiões, e a expansão do comércio bilateral’

O Brasil era, então, um dos poucos países – de que me lembre, os Estados Unidos, a França e a Rússia – com os quais a República Popular mantinha relações especiais. A proposta a nós atendia, escrevi na minha tese do Curso de Altos Estudos (CAE) do Itamaraty, a duas vertentes: a primeira era uma parceria política que defluía do peso específico dos dois países nas suas respectivas regiões, conforme os chineses afirmavam seguidamente; e a segunda, a expansão do comércio bilateral. 

A este último respeito, nunca é demais ressaltar que um dos principais desafios para os chineses, desde sempre, tem sido a questão da segurança alimentar para uma população que já era de 1,17 bilhão de indivíduos naquele ano. O Brasil lhes parec(e)ia, então, um “celeiro natural”.

De outro ângulo, foi firmado um acordo para o desenvolvimento de um projeto de satélites – o China-Brazil Earth Research Satelite (CBERS) – para monitoramento da Amazônia, que ambos alardeavam, então, como o primeiro na área de tecnologia-de-ponta firmado entre dois países em desenvolvimento. Este projeto, aliás, perdura até hoje e tem tido bons desdobramentos.

‘Em 1994, escutava o mantra de que “a China é um país pobre”, com o qual ela acedeu à Organização Mundial do Comércio (OMC) na qualidade de “economia em desenvolvimento”’

Eu parti em missão permanente na nossa Embaixada em Pequim, em 1994, e pude acompanhar por um breve tempo as transformações que as reformas da “economia socialista de mercado” de Deng Xiaoping estavam operando no país, causando grande impacto junto à população. Ainda assim, em conversa com alguns chineses da Academia de Ciências Sociais – o think tank do governo – escutava amiúde o mantra de que “a China é um país pobre, do Terceiro Mundo, etc.”, com o qual ela acedeu à Organização Mundial do Comércio (OMC) na qualidade de “economia em desenvolvimento”, gozando dos benefícios decorrentes desse “status”. Este foi, não obstante, um importante passo para a sua integração ao sistema multilateral de comércio, abrindo-lhe as portas para que se tornasse o gigante mercantil que hoje é.

O êxito obtido pela política do “socialismo com características chinesas” de Deng, a alavancou à vice-liderança da economia mundial (com prazo definido, segundo vários analistas, para se tornar a primeira até o final deste século). Dois grandes projetos basicamente passaram, então, a orientar seus próximos passos: o plano Made in China 2025, que o Politburo, sob a batuta do presidente Xi Jinping, incluiu nos XIII (2011/15) e XIV (2021/25) Planos Quinquenais. Eles estabeleceram as metas a serem alcançadas nesses quinquênios – e mais adiante – nas áreas de tecnologia, que a China entende constituírem a vanguarda do planeta. 

Foram identificados dez setores: inteligência artificial, internet 5G, setor aeroespacial, semicondutores, veículos elétricos e biotecnologia, entre outros, que capitaneados por empresas específicas garantirão não somente a transformação da sociedade, mas também capturarão cada vez mais os mercados globais. 

‘A China pretende deixar de ser a “fábrica do mundo” e se transformar numa potência tecnológica’

Desta forma, ela pretende deixar de ser a “fábrica do mundo” – de produtor de bens baratos, de baixa tecnologia, alavancados por mão-de-obra barata e pelas cadeias de abastecimento que desenvolveu pelo planeta afora  – e se transformar numa potência tecnológica: bye-bye rua 25 de março. Possível, ou sequer plausível?

A outra vertente – e que fez parte das tratativas em Brasília – foi incentivar o Brasil a integrar de forma ativa o projeto mais abrangente do governo chinês em décadas: a Iniciativa Cinturão e Rota, adotada em 2013 e conhecida popularmente como a “Nova Rota da Seda”. Como sabemos, esta iniciativa busca restaurar a que foi a principal via de comércio da humanidade, e fez o apogeu da China até que as potências europeias no século XIX vieram destronar o império Qing e instaurar o que os chineses chamam de “o século das humilhações”, semente do revanchismo anticolonialista que desembocou na vitória do Partido Comunista Chinês e na tomada do governo, em 1949. 

Só que desta vez não serão os produtos que fizeram a sua glória e a transformaram na principal economia ao longo dos séculos – seda, chá, especiarias, porcelanas, etc. – que contam, mas aqueles que estão alinhados no plano Made in China 2025 (o ativismo da montadora de carros elétricos BYD no Brasil é, aliás, uma amostra do ímpeto chinês…). 

O Brasil se integraria aos mais de 150 países que já fazem parte do projeto. “Tragédia” geográfica, o isolamento da América do Sul – entre o Pacífico e o Atlântico – nos tem afastado até agora desta interligação que, por ora, vincula sobretudo a Ásia, à Europa e à África. Entretanto, alguns países da América Latina já aderiram à iniciativa. A Argentina tornou-se membro oficial em fevereiro do ano passado.

‘O interesse maior pelo Brasil recai na cooperação agrícola, economia verde, e no setor de infraestrutura (rodovias e portos, principalmente)’

Segundo transpirou, no nosso caso o interesse maior recai na cooperação agrícola, economia verde, e no setor de infraestrutura (rodovias e portos, principalmente). Obviamente, esta última área se destina a facilitar a exportação dos nossos produtos de especial interesse para os chineses – soja, minério de ferro e seus derivados, carne bovina, e petróleo e seus derivados -, que responderam por 30% das nossas exportações em 2022. Pauta restrita? Ainda assim, a República Popular tem sido o nosso principal parceiro comercial desde 2009.

O ativismo chinês divide as opiniões, inclusive no Itamaraty. Para alguns seria trocar de dependência: dos Estados Unidos/Europa Central pelos chineses “comunistas”, com todo o preconceito que envolve estes últimos. Circulou que a atual Embaixadora dos Estados Unidos, Elizabeth Bagley, “minutos após a despedida de Wang foi ao Itamaraty para se reunir com Vieira”, conforme noticiou o Estadão.

Este não é o momento para se discutir o que seja “comunismo”, sobretudo no país que abriga a maior quantidade de milionários do planeta, mas cabe registrar a divisão que a questão levanta no nosso governo e na nossa sociedade. Surge, então, a pergunta que não quer se calar: num cenário internacional de transição – irreversível para alguns – em direção ao Oriente, e sobretudo à Ásia, até que ponto conceitos e preconceitos vão obstaculizar a percepção do mundo que já está se cristalizando? 

Os que nascemos nos estertores da hegemonia britânica; passamos pela hegemonia compartilhada entre americanos e soviéticos; pela hegemonia absoluta americana; e agora pela novamente compartilhada, desta vez entre americanos e chineses (e olhemos para os indianos…), nos perguntamos qual é para nós a melhor “receita”.

Tive o privilégio de ingressar na carreira diplomática sob a liderança brilhante do chanceler Antonio Azeredo da Silveira e do seu “pragmatismo responsável”, que, trocando em miúdos, leva à conclusão de que “não interessa se o gato é branco ou negro, desde que cace ratos” (Deng Xiaoping dixit…). Foi um momento áureo da nossa diplomacia.

Ou seja, estou convencido de que devemos avançar para onde os nossos interesses nacionais sejam melhor atendidos. Com lucidez (e uma certa dose de salutar cinismo, diriam os politicamente incorretos).


*Fausto Godoy é colunista da Interesse Nacional. Bacharel em direito, doutor em direito internacional público pela Universidade de Paris (I) e diplomata, serviu nas embaixadas do Brasil em Bruxelas, Buenos Aires e Washington. Concentrou sua carreira na Ásia, onde serviu em onze países. Foi embaixador do Brasil no Paquistão e Afeganistão (2004/2007) e Cônsul-Geral em Mumbai (2009/10). É coordenador do “Centro de Estudos das Civilizações da Ásia” da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e curador da Ala Asiática do MON.

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Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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