19 fevereiro 2024

Daniel Buarque: Lula rompe com neutralidade, aposta em liderança do Sul Global e arrisca alienar Ocidente

Comparação de guerra em Gaza ao Holocausto gerou polêmica, mas não foi um lapso e indica aposta do país em um novo cenário global multipolar em que o Brasil poderia assumir um papel de liderança. Escolha traz riscos, mas, indo além do paralelismo histórico controverso, avaliar se a movimentação está certa ou errada neste momento parece ligado mais à ideologia de quem julga

Comparação de guerra em Gaza ao Holocausto gerou polêmica, mas não foi um lapso e indica aposta do país em um novo cenário global multipolar em que o Brasil poderia assumir um papel de liderança. Escolha traz riscos, mas, indo além do paralelismo histórico controverso, avaliar se a movimentação está certa ou errada neste momento parece ligado mais à ideologia de quem julga

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa da abertura da Cúpula da União Africana durante viagem à Etiópia (Foto: Ricardo Stuckert / PR)

Por Daniel Buarque*

Ao comparar a ação militar de Israel na Faixa de Gaza ao Holocausto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de fato cruzou uma linha importante da política externa brasileira. De forma aparentemente bem pensada (e não um lapso ou uma gafe, como alguns chegaram a tratar), o governante abandonou a pretensão de equidistância e neutralidade da diplomacia do país, criou uma polêmica séria ao usar o paralelismo histórico em torno de um momento traumático para o mundo e indicou de forma mais clara a posição brasileira em um possível novo cenário global.

Indo além da discussão específica sobre a linguagem utilizada, trata-se de uma aposta em uma ordem global multipolar e menos Ocidental. No lugar da tradicional equidistância marcada por discursos vagos pela paz, pode-se ver um posicionamento mais claro do país contra a atividade do Estado judeu (e seus aliados) e em defesa da população da Faixa de Gaza (e dos países que são críticos a Israel).

‘A declaração de Lula rompe com a percepção externa de que o Brasil é um país que fica sempre “em cima do muro” em grandes questões internacionais’

A declaração de Lula rompe com a percepção externa de que o Brasil é um país que fica sempre “em cima do muro” em grandes questões internacionais. A costumeira neutralidade da diplomacia brasileira já foi apontada por muitos observadores externos como sendo um empecilho à ambição do país de ter um papel de liderança global. Então é possível ver o posicionamento atual como uma tentativa de promover uma imagem do Brasil como um país que escolhe lados, que quer ser um líder, mesmo que isso tenha um preço político. É um movimento tático que pode fazer sentido.

Como toda aposta, o posicionamento traz riscos, mas também pode render recompensas.

Tomar partido de forma tão contundente, entretanto, é sempreperigoso. Ao eleger um lado a ser apoiado (ou criticado) em qualquer disputa, é natural que o lado oposto fique insatisfeito. No caso atual, é possível pensar que criticar Israel pode levar a um afastamento – ou até alienar – o Ocidente, e especialmente os EUA, tradicionais aliados do país. A linguagem utilizada ao adotar essa postura tem tudo para inflamar ainda mais os ânimos.

‘O risco principal nesse processo é que os governos americano e de países da Europa se alinhem a Israel e isolem o Brasil de discussões políticas importantes’

O risco principal nesse processo é que os governos americano e de países da Europa se alinhem a Israel e isolem o Brasil de discussões políticas importantes não só sobre a atual guerra, mas sobre grandes questões globais. Em um mundo dominado por esses países ocidentais, isso seria um problema para o Brasil.

Se a atual guerra em Gaza acabar sem uma mudança na situação geopolítica, e o Ocidente mantiver alguma forma de hegemonia, a escolha pela dura crítica a Israel pode se tornar um erro. 

Mas a aposta também pode dar certo. 

‘Lula parece acreditar em uma reorganização do mundo com vários polos de poder e tem se empenhado em reforçar relações com o Sul Global’

Lula parece acreditar em uma reorganização do mundo com vários polos de poder e tem se empenhado em reforçar relações com o Sul Global – como a China. Ao se posicionar de forma mais dura do que o normal contra Israel, é para estes países que o presidente acena, indicando que tem a coragem de assumir a liderança deles nessa “nova” ordem da política global.

Esse posicionamento ficou ainda mais claro quando, na mesma viagem internacional, o presidente evitou responsabilizar o governo russo pela morte do opositor Alexei Navalny. Enquanto os EUA culparam Putin diretamente, Lula disse que é preciso esperar a apuração do caso para se posicionar, evitando uma crítica a um país importante nesse cenário que vê ser construído. Mais uma vez, evita se alinhar ao Ocidente e acena ao Sul Global.

Se de fato houver um crescimento da mobilização da comunidade internacional liderada pelo Sul Global contra a ação israelense, a política externa brasileira pode acabar se beneficiando da fala de Lula. Especialmente, se houver uma consolidação da associação da guerra à ideia de genocídio, o Brasil pode se colocar como tendo sido um dos primeiros a se levantar contra ele. 

‘Considerando que o Brasil quer ter um papel importante no mundo, faz sentido o país assumir posturas mais claras em disputas internacionais e assumir riscos’

Considerando que o Brasil quer ter um papel importante no mundo, manter a posição tradicional de neutralidade é contraproducente, então faz sentido o país assumir posturas mais claras em disputas internacionais e assumir riscos. 

Ao contrário do que aconteceu sob Jair Bolsonaro, quando houve um alinhamento com o governo de Donald Trump (e não com os EUA) e as declarações do presidente colocavam em risco diretamente as relações com seu maior parceiro comercial (a China), o movimento atual parece mais estratégico. Ao usar Israel como proxy, uma representação do Ocidente, o Brasil de Lula deixa claro de que lado está, mas não entra em confronto direto com aliados importantes, não gera rompimentos imediatos além do próprio Estado israelense.

Sem considerar a questão da linguagem e da comparação ao nazismo, determinar se a decisão atual está certa ou errada a esta altura não tem nenhum fundamento além do alinhamento ideológico de quem julga. Quem defende Israel e o Ocidente vai ver no gesto um “erro histórico”, enquanto quem critica Israel e é a favor da aliança do Brasil com o Sul Global vai achar que o presidente acertou. O fato é que a declaração fez o Brasil se mexer no tabuleiro da política global, e isso é importante para quem quer ter alguma influência no mundo. 


*Daniel Buarque é colunista e editor-executivo do portal Interesse Nacional, pesquisador no pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP), doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. Jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de livros como Brazil’s international status and recognition as an emerging power: inconsistencies and complexities (Palgrave Macmillan), Brazil, um país do presente (Alameda Editorial) e O Brazil é um país sério? (Pioneira). 

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Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional 


Daniel Buarque é editor-executivo do portal Interesse Nacional. Pesquisador no pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP), doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. Jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de livros como "Brazil’s international status and recognition as an emerging power: inconsistencies and complexities" (Palgrave Macmillan), "Brazil, um país do presente" (Alameda Editorial), "O Brazil é um país sério?" (Pioneira) e "o Brasil voltou?" (Pioneira)

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