08 novembro 2022

iii-Brasil: Com vitória de Lula, imprensa estrangeira adota tom mais positivo sobre o Brasil

Série de reportagens, artigos e textos editoriais elogiosos ao resultado das eleições e ao político brasileiro em todos os veículos analisados ampliaram a cobertura favorável ao país. Tom positivo se refletiu na comemoração ao fim de variados problemas que costumam ser associados ao governo de Jair Bolsonaro, como a questão ambiental e da democracia

Série de reportagens, artigos e textos editoriais elogiosos ao resultado das eleições e ao político brasileiro em todos os veículos analisados ampliaram a cobertura favorável ao país. Tom positivo se refletiu na comemoração ao fim de variados problemas que costumam ser associados ao governo de Jair Bolsonaro, como a questão ambiental e da democracia

Por Daniel Buarque e Fabiana Mariutti*

iii-Brasil – 31 de outubro a 6 de novembro de 2022

Visibilidade: 161 reportagens em 7 veículos analisados

Classificação das notícias:

55% Neutras

26% Negativas

19% Positivas

A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência da República gerou um aumento na proporção de textos da imprensa estrangeira a mencionar o Brasil com tom positivo. Uma série de reportagens, artigos e textos editoriais com reconhecimento ao vitorioso em todos os veículos analisados pelo Índice de Interesse Internacional (iii-Brasil) ampliaram a cobertura favorável ao país.

Na semana que se iniciou na segunda-feira após o segundo turno das eleições presidenciais, 19% dos textos sobre o Brasil tinham viés favorável, com potencial de melhorar a imagem internacional do país. Este percentual é um dos mais altos registrados desde o início da análise da cobertura externa sobre o país, que também representa 8 pontos acima da média semanal de textos com tom positivo, que é de 11%. E é especialmente relevante por se tratar da cobertura de política, rompendo com uma tradição em que as menções positivas ao país se concentravam em temas mais “leves” como cultura e esportes.

No total, foram registrados 161 textos com menção ao Brasil nos sete veículos analisados. A maior parte dos textos sobre o Brasil  (55%) no período teve tom neutro. O período desta semana registrou ainda 26% de textos com tom negativo, com potencial de piorar o prestígio do país no mundo. 

O segundo turno das eleições presidenciais escalou a visibilidade do país na imprensa internacional nas últimas duas semanas. No total, entre 24 de outubro e 6 de novembro foram registradas 330 reportagens com menções de destaque ao Brasil nos sete veículos da imprensa estrangeira analisados pelo iii-Brasil. Isso representa uma média de 165 artigos por semana, quase três vezes a média de 59 reportagens sobre o país registradas semanalmente ao longo das 29 semanas de análise até as eleições. 

https://interessenacional.com.br/edicoes-posts/entenda-como-funciona-o-indice-de-interesse-internacional-monitoramento-de-noticias-sobre-o-brasil-no-exterior/

Na semana anterior, que se encerrou no domingo da eleição, havia sido possível perceber uma oscilação do tom editorial usado pelos jornais estrangeiros para falar sobre o país no período. Até o domingo, dia da eleição, era evidente o olhar crítico sobre a situação política do país, com artigos a respeito da tensão vivida pelo país, análises negativas sobre o governo de Bolsonaro e a preocupação noticiosa sobre o estado da democracia brasileira. A partir do fim do domingo (30), alguns jornais estrangeiros já noticiaram a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva com um tom mais positivo, o que acabou se reforçando na semana seguinte, como analisado neste relatório. 

Abordagens positivas, em muitos casos, se refletiram na celebração ao fim de muitos estorvos associados ao governo de extrema-direita. É o caso da questão ambiental, que foi relatado com ênfase pela imprensa estrangeira, e também da democracia.

Isso ficou bem evidente na cobertura do jornal americano The New York Times. O diário publicou artigos falando sobre os avanços que Lula conseguiu na proteção das florestas durante seus governos anteriores, e diz que ele pode atuar para reduzir o desmatamento. Além disso, também publicou uma reportagem elogiando a atuação das instituições brasileiras durante a eleição e indicou que os EUA podem aprender com o Brasil formas de assegurar a democracia.

“No Brasil, quando a apuração mostrou que o titular havia sido destituído após apenas um mandato, o governo respondeu de forma conjunta, rápida e decisiva. O presidente do Senado, o procurador-geral, os ministros do STF e os chefes do tribunal eleitoral foram juntos à televisão e anunciaram o vencedor. O presidente da Câmara, talvez o aliado mais importante do presidente, leu então um comunicado reiterando que os eleitores haviam falado. Outros políticos de direita rapidamente seguiram o exemplo”, diz.

De forma semelhante, o francês Le Monde chamou a vitória de Lula de “alívio global”: “A democracia falou no Brasil. No domingo, 30 de outubro, ela demitiu o atual presidente Jair Bolsonaro após um mandato de caótico e raivoso exemplificado pelo tratamento abismal da pandemia de Covid-19, o saque da Amazônia, ataques à democracia e um fluxo constante de declarações racistas, sexistas e homofóbicas”.

O diário britânico The Guardian, tradicionalmente um dos mais críticos ao governo de Bolsonaro reverteu o tom negativo com o qual vinha descrevendo a política brasileira. “Volta de Lula é boa para o Brasil e para o mundo”, diz o editorial. “Sob Bolsonaro, o Brasil perdeu seu rumo – e sua cabeça. A vitória de Lula mostra que o país pode voltar ao caminho da sanidade”, diz.

O jornal espanhol El País publicou pelo menos sete artigos de opinião positivos sobre a vitória de Lula, ao longo da semana. Em um editorial que reflete a opinião da publicação, diz que o Brasil volta à cena internacional e reforça a democracia no mundo. “Em poucas ocasiões uma eleição repercute sobre a marcha do mundo com tanta intensidade como o caso da presidencial do Brasil”, diz. “O novo mundo que se apresenta no atual terremoto geopolítico europeu em torno da ascensão iliberal e autoritária, e sobretudo por conta da guerra de Putin contra a Ucrânia, necessita de um Brasil como o de Lula, aberto de novo à cena internacional e comprometido com o futuro da democracia e a ordem internacional multilateral”, diz.

Também nesse sentido elogioso, o diário português Público veiculou um artigo de opinião parabenizando o Brasil pela escolha de Lula.  “É admirável o povo brasileiro na coragem, na liberdade, na esperança, na expressão, na capacidade de encaixe, na luta, na desinibição, no humor, na combatividade e na filosofia de vida”, diz.

O argentino Clarín publicou textos de opinião mais neutros, falando sobre os desafios que vão ser enfrentados pelo novo presidente brasileiro, mas destacou positivamente a visita do presidente do país a Lula logo após o resultado das eleições. 

Até mesmo o chinês China Daily, normalmente avesso à cobertura sobre política brasileira e mais neutro em suas descrições do país, embarcou no otimismo da mídia estrangeira sobre a eleição de Lula. Em editorial, o jornal fala da perspectiva de cooperação entre China e Brasil com o novo presidente. A publicação cita a mensagem oficial do governo chinês parabenizando Lula e diz que há otimismo na China em relação a Lula. “Afinal, os dois mandatos da presidência anterior de Lula testemunharam um significativo aprimoramento das relações, e o próprio ex-presidente tinha um histórico de liderança pragmática e consciente da importância da cooperação internacional e, portanto, um firme defensor do multilateralismo.”

Uma semana de novembro de 2022 que marca o início da transição da percepção externa sobre um país visto como adoecido para um mais realista, que pelo menos, começa a se recuperar. Apesar desse evidente aumento no tom positivo usado para tratar de assuntos relacionados diretamente com o Brasil, a cobertura estrangeira da semana após a eleição ainda destacou de forma negativa questões ligadas à política brasileira, ainda doente com reações adversas. Afinal, em 2017, um pesquisador britânico ao ser entrevistado para uma pesquisa sobre a reputação do país, resumiu o Brasil como um país esquizofrênico1.  

A crítica dos conteúdos dos jornais analisados tangenciam essa evidência científica, por ser explicitamente clara à reação do presidente atual, que demorou a admitir a derrota em público, falou de forma vaga e pareceu insuflar protestos contra o resultado. Adicionalmente, apresentou viés negativo na cobertura sobre essas manifestações de caráter golpista dos eleitores de Bolsonaro. Ainda que a opinião dos veículos apontasse para a recuperação da saúde mental e física da democracia brasileira, a maioria dos noticiários deixam indícios indubitáveis que o país ainda enfrenta sérios sintomas dos problemas acarretados nos últimos quatro anos, com visíveis necessidades terapêuticas com intervenções para tratamento econômico, social, ambiental e cultural em busca da cura efetiva da política nacional, da melhora da reputação e da recuperação da diplomacia pública do Brasil no exterior.

Retrospectiva 

Desde o início de abril, o iii-Brasil, ao estudar a imagem internacional do Brasil, coletou e analisou em média 66 reportagens por semana com menções de destaque ao país nos sete veículos de imprensa analisados. 

Ao longo do levantamento das últimas 31 semanas, o iii-Brasil registrou em média 51% de reportagens de tom neutro, 38% de menções com tom negativo e 11% de textos positivos sobre o país. 


*Daniel Buarque é editor-executivo do Interesse Nacional, doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor dos livros “Brazil, um país do presente” (Alameda) e “O Brazil É um País Sério?” (Pioneira).

Fabiana Mariutti atua como professora universitária, pesquisadora e consultora; obteve pós-doutorado, doutorado e mestrado em Administração e bacharel em Comunicação Social. Estuda a marca Brasil desde 2010. Autora dos livros: “Country Reputation: The Case of Brazil in the United Kingdom: Four Stakeholders’ Perspectives on Brazil’s Brand Image(2017) e Country Brand Identity: Communication of the Brazil Brand in the United States of America (2013).


1Mariutti, F., & Giraldi, J. (2020). Country brand personality of Brazil: a hindsight of Aaker’s theory. Place Branding and Public Diplomacy, 16(3), 251-264.


O Índice de Interesse Internacional (iii-Brasil) é uma análise da imagem do país realizada a partir de um levantamento sistemático de dados sobre notícias que mencionam o Brasil a cada semana em sete publicações internacionais, selecionadas como representativas da imprensa internacional por serem reconhecidas internacionalmente como “newspapers of record”. São elas: The Guardian (Reino Unido), The New York Times (Estados Unidos), El País (Espanha), Le Monde (França), Clarín (Argentina), Público (Portugal) e China Daily (China).

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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