05 abril 2023

Maria Auxiliadora Figueiredo: Uma nova Guerra Fria na África?

Estados Unidos e Rússia ampliam a tentativa de influenciar e ganhar espaço entre os países africanos, a exemplo de rivalidade do passado. Para embaixadora, governos africanos têm dificuldade em tomar partido na disputa de poder e não têm interesse em alinhamento a nenhum dos dois lados

Estados Unidos e Rússia ampliam a tentativa de influenciar e ganhar espaço entre os países africanos, a exemplo de rivalidade do passado. Para embaixadora, governos africanos têm dificuldade em tomar partido na disputa de poder e não têm interesse em alinhamento a nenhum dos dois lados

Vladimir Putin e líderes de países africanos durante a Cúpula Rússia-África (Foto:Tass)

Por Maria Auxiliadora Figueiredo*

Artigo de 19 de março, assinado pelo correspondente do The New York Times em Nairóbi, Declan Walsh, e publicado também pelo jornal O Globo do último dia 23, aborda a rivalidade russo-ocidental na África, com os seguintes títulos: “EUA e Rússia ensaiam ‘Nova Guerra Fria’ na África com disputa de influência e flerte com ditaduras” [i], em português, e, em tradução livre do inglês, “Uma ‘Nova Guerra Fria’ emerge na África ao mesmo tempo em que os EUA pressionam contra os ganhos da Rússia.” [ii]

No entender do autor:

“Joe Biden, passou a agir de forma mais direta na África e a usar novas estratégias, para fazer frente (…) ao recuo da França na região, que recentemente cedeu espaço para os russos nas antigas colônias como Mali e a República Centro-Africana. (…) Yevgeny Prigojin, o líder do Grupo Wagner, estabeleceu bases de atuação da milícia, em países vulneráveis do continente africano, ao enviar homens para ajudar a enfraquecer governos autoritários, geralmente em troca de dinheiro ou licenças para mineração de ouro e diamantes. A (recente) conspiração no Chade sugere que Prigojin está pronto para derrubar líderes que se coloquem no caminho do grupo. Essa mudança fez Washington adotar medidas mais diretas, como as usadas na Ucrânia, que têma intenção de ‘desacelerar, impedir, conter, e reverter’ a expansão do líder do Wagner na África.” [iii]

Yevgeny Prigojin e o seu Grupo Wagner ocupam a maior parte da literatura sobre Rússia na África constante da mídia ocidental. A revista The Africa Report, com sede no Reino Unido e vinculada ao Jeune Afrique Media Group, da França, por exemplo, divulga frequentes artigos sobre as atividades do grupo na África, tão frequentes que a presença da Rússia na África parece limitar-se às atividades de Prigojin.

https://interessenacional.com.br/edicoes-posts/maria-auxiliadora-figueiredo-a-presenca-da-africa-em-davos/

A Jeune Afrique publicou, em 20 de fevereiro último, matéria sobre webinário organizado pela Universidade de Moscou, pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia e pelo Clube Russo-Africano (organização criada recentemente), que contou com a participação de cerca de 60 jornalistas, intelectuais e influencers africanos e russos, com o objetivo de preparar a próxima reunião de cúpula Rússia-África, prevista para realizar-me em São Petersburgo em julho vindouro. Segundo a revista francesa, o encontro serviu para deixar claro que a informação referente à Rússia no continente africano está sujeita a considerável distorção da realidade, sobretudo por órgãos de imprensa como a France 24 e a RFI.

Tratava-se, portanto, de reunião destinada a encontrar meios para contra-arrestar o tendenciosismo anti-russo verificado na mídia internacional, questão sobre a qual o autor não se deteve como poderia ou deveria. Reparou, contudo, no artigo que, nas duas horas de debates do evento, não foi mencionada a “presença militar russa na África, através da companhia mercenária Wagner”. [iv]

Para o Centro de Estudos Estratégicos sobre África (Africa Center for Strategic Studies), sediado em Washington, DC., as iniciativas russas de cooperação com a África gozam de especial relevância. Em que pesem, porém, sua maior abrangência e diversificação, costumam ser analisadas, nas publicações do centro, de forma negativa e seus objetivos, rotineiramente considerados escusos. A série de análises do Africa Center sobre os envolvimentos da Rússia na África, geralmente elaborados pelo Dr. Joseph Siegle, Diretor de Pesquisas do Centro, é apresentada nos seguintes termos:  

“A Rússia expandiu sua influência na África nos últimos anos mais do que qualquer outro ator externo. (…) A abordagem da Rússia é distinta dos demais atores externos, pois Moscou normalmente se utiliza de meios irregulares (e frequentemente extralegais) para expandir sua influência – destacamentos de mercenários, desinformação, interferência eleitoral, apoio a golpes de estado e venda de armas para obtenção de recursos, entre outros. Essa estratégia de baixo custo e alta influência busca promover uma ordem mundial muito diferente dos sistemas políticos democráticos baseados em regras aos quais a maioria dos africanos aspira”.[v]

Ao mesmo tempo, passam quase desapercebidos pela imprensa ocidental eventos como o recente encontro havido em Moscou entre os parlamentares de cerca de 40 países africanos e da Rússia, também em preparação à reunião de cúpula Rússia-África agendada para 27 e 28 de julho próximo em São Petersburgo. Com o título “Rússia-África num Mundo Multipolar” (“Russia – Africa in a Multipolar World), a conferência contou com a presença do Presidente Vladimir Putin em 20 de março, dia em que o líder russo recebeu, também em Moscou, o Presidente Xi Jinping, objeto da atenção mundial.   

Em sua alocução perante os representantes dos legislativos e líderes de partidos e movimentos políticos de estados africanos, Putin recordou a primeira cúpula russo-africana, reunida em Sochi em 2019, que serviu para “fortalecer as interações de negócios e os laços culturais e humanitários, bem como para agregar novo ímpeto à parceria entre a Rússia e os países africanos”. [vi] 

‘Após enfatizar que a Rússia sempre considerou e considerará uma prioridade a cooperação com a África,  Putin recordou que a antiga União Soviética forneceu significativo apoio aos povos africanos em sua luta contra o colonialismo, o racismo e o apartheid

Após enfatizar que a Rússia sempre considerou e considerará uma prioridade a cooperação com a África — e que “não seria um exagero afirmar que é uma das prioridades imutáveis da política externa russa” –,  Putin recordou que a antiga União Soviética “forneceu significativo apoio aos povos africanos em sua luta contra o colonialismo, o racismo e o apartheid, auxiliou muitos países africanos a ganhar e a proteger sua soberania e colaborou consistentemente com a construção de seus estados, fortalecendo suas capacidades de defesa, lançando as bases de suas economias nacionais e o treinamento da força de trabalho”. [vii]

Sem deixar de referir-se às oportunidades adicionais esperadas com o estabelecimento do AfCFTA (“African Continental Free Trade Area”), que deverá contar “com um PIB de mais de US$ 3 trilhões”, Putin foi apontando, em seu discurso, iniciativas de seu país empreendidas ou por empreender no continente africano, que merecem registro por sua importância e oportunidade. Citem-se as seguintes:

  • o desenvolvimento de vínculos especiais com o AfCFTA, bilaterais, mas também no âmbito da União Econômica Eurasiana;
  • a implementação de projetos de investimentos envolvendo empresas como a Rosneft, Gazpromneft, RusHydro, ALROSA, Lukoil e outras;
  • a contínua colaboração com países africanos com vistas à produção de eletricidade, que, no momento, cobre apenas um quarto das necessidades do continente;
  • o oferecimento de novas tecnologias ecologicamente corretas (environmentally friendly), inicialmente de energia nuclear. A Rosatom já está construindo uma usina nuclear no Egito e “planeja expandir seu envolvimento na instalação de sistemas energéticos nacionais por todo o continente africano, em alguns países com o oferecimento, pela Rússia, de 100% do financiamento. Projetos no valor de 15, 20 e 25 bilhões de dólares”; [viii]
  • o fortalecimento da cooperação em altas tecnologias, como no caso da criação da comunicação por satélite e transmissão de televisão em Angola, ANGOSAT; ou da introdução, pela YANDEX, de serviços de organização de transporte de passageiros em países africanos por táxi ou outros modos; com relevo para o fato de que “a Rússia está sempre pronta a compartilhar tecnologias, quaisquer que sejam, com os países da África”;
  • o cumprimento de suas obrigações quanto ao abastecimento de alimentos, fertilizantes, combustíveis e outros produtos importantes, com vistas a assegurar segurança alimentar e energética aos países africanos;
  • o suprimento de 12 milhões de toneladas de grãos oferecidos no período de agosto de 2022 a março de 2023, a ser repetido, gratuitamente, a países africanos necessitados, caso a Rússia se veja obrigada a denunciar o acordo concluído em Istambul no ano passado e renovado posteriormente para a exportação de produtos ucranianos pelo Mar Morto, acordo este que não vem sendo cumprido, já que “mais de 45% do volume total de grãos exportados pela Ucrânia foram para países europeus e apenas 3% para a África”; [ix]
  • a manutenção do alto nível da cooperação educacional entre a Rússia e a África. Há atualmente cerca de 27 mil estudantes africanos na Rússia, dos quais 5.000 contam com seus estudos financiados pelo orçamento federal da Rússia. Pretende-se dobrar a quantidade de bolsas de estudo financiadas pela Rússia e o projeto Rede Universitária Russo-Africana (Russian-African Network University) já se encontra em estágio prático;
  • o incremento da cooperação bilateral em tópicos como medicina e assistência médica, bem como segurança biológica e epidemiológica, que incluem a transferência de equipamentos móveis e medicamentos e o treinamento de especialistas. A Rússia se encontrou, durante a pandemia por coronavírus, entre os primeiros países a fornecer a estados africanos grandes volumes de vacinas, testes, equipamentos de proteção pessoal e outros elementos médicos e humanitários;
  • a constante extensão da “mão amiga” da Rússia no alívio das consequências devastadoras dos desastres naturais, como inundações, incêndios, furacões e secas;
  • a assistência na luta contra o terrorismo e o extremismo; e
  • o seguimento da cooperação nos campos da indústria militar e de defesa, que inclui o fornecimento de armas e equipamentos militares aos parceiros africanos e o treinamento do pessoal. (Neste momento, há militares de mais de 20 países africanos estudando em institutos do Ministério da Defesa da Rússia). [x]

Como se não bastasse, o Presidente Vladimir Putin anunciou, na mesma oportunidade, o cancelamento, por seu governo, de dívidas de países africanos no valor de US$ 20 bilhões.

Os encargos financeiros perdoados, contudo, são pífios se comparados à dívida histórica que pesa sobre países africanos no que tange à participação russa, sempre recordada, em seus processos de independência. E a história tem grande valor na África, mesmo quando parte das elites procure desprezá-la (elites, aliás, que em muito se assemelham hoje àquelas que colaboraram com as antigas potências coloniais).

Seja como for, é evidente a dificuldade, sentida pelos governos africanos, para tomar partido na disputa de poder entre a Rússia e países ocidentais – ou, como poderá vir também a ser, entre os Estados Unidos da América e a China. Não lhes interessa o alinhamento a qualquer das partes, o que vêm deixando claro em suas abstenções em decisões de organismos multilaterais, bem como em seus discursos. Como afirmou perante a Assembleia-Geral da ONU, em setembro do ano passado, o então Presidente da União Africana, o senegalês Macky Sall:

“A África já sofreu o suficiente com o fardo da história; (…) não quer ser terreno fértil para uma nova Guerra Fria”.[xi]


*Maria Auxiliadora Figueiredo é diplomata e colunista da Interesse Nacional. Nascida em Areado, MG, formou-se em Letras pela USP e ingressou no Itamaraty por concurso direto em 1978. Em Brasília, trabalhou na Divisão da Ásia e Oceania, na Subsecretaria-Geral para Assuntos Políticos e foi chefe, interina, da Divisão da África Austral (DAF-II). No exterior, serviu em Madri, Port-of-Spain, Maputo, Lisboa, Quito e Lagos, onde foi cônsul-geral. Serviu, ainda, como embaixadora do Brasil em Abidjã e Kuala Lumpur

https://interessenacional.com.br/edicoes-posts/maria-auxiliadora-figueiredo-a-uniao-africana-o-livre-comercio-no-continente-e-suas-oportunidades/

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional.


Referências:

[i] Ver em: https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2023/03/eua-e-russia-ensaiam-nova-guerra-fria-na-africa-com-disputa-de-influencia-e-flerte-com-ditaduras.ghtml

[ii] ”A ‘New Cold War’ Looms in Africa as U.S. Pushes Against Russian Gains”. Ver em: https://www.nytimes.com/2023/03/19/world/africa/chad-russia-wagner.html

[iii] Ver artigo na íntegra em O Globo, 23/03/2023, “EUA e Rússia ensaiam ‘Nova Guerra Fria’ na África com disputa de influência e flerte com ditaduras”.

[iv] Ver em: https://www.theafricareport.com/285088/behind-the-scenes-of-the-preparation-of-the-russia-africa-summit/

[v] Tradução livre. Ver o original em: https://africacenter.org/in-focus/russia-in-africa/

[vi] Tradução livre. Ver original em http://duma.gov.ru/en/news/56652/

[vii] Idem.

[viii] Idem.

[ix] Idem.

[x] Idem.

[xi] Tradução livre do seguinte trecho: “Africa has suffered enough of the burden of history; (…) it does not want to be the breeding ground of a new cold war”. O discurso na íntegra é encontrado em: https://au.int/en/pressreleases/20220920/77th-session-united-nations-general-assembly-address-he-macky-sall


Daniel Buarque é editor-executivo do portal Interesse Nacional. Pesquisador no pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP), doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. Jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de livros como "Brazil’s international status and recognition as an emerging power: inconsistencies and complexities" (Palgrave Macmillan), "Brazil, um país do presente" (Alameda Editorial), "O Brazil é um país sério?" (Pioneira) e "o Brasil voltou?" (Pioneira)

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