Edição 3

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Este número da revista traz em destaque dois pares de artigos sobre temas que es- tão no centro do debate político atual no Brasil. Não apenas no centro do debate, senão que na própria pauta do Supremo Tribunal Federal, tal a importância que adquiriram.


Falamos da demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, e da adoção de cotas raciais para ingresso no ensino superior. Ambas as questões põem em juízo (constitucional e político) mais do que causas específicas. Na verdade, dizem respeito a concepções gerais sobre, respectivamente, a extensão dos direitos indígenas, em sua relação com os de não índios dentro da sociedade brasileira, e a validade de políticas públicas afirmativas formuladas com base no critério de raça. Aparentemente díspares, elas na verdade remetem à mesma questão de fundo: as tensões entre igualdade jurídica e desigualdades reais, tão características da formação social e política do Brasil. Questão difícil, que não admite respostas simples.


A esta revista cabe o papel de abrir espaço para um debate qualificado a respeito desses temas fundamentais tanto para a interpretação do nosso passado, quanto, ainda mais, para a construção do nosso futuro como país.
Sobre a demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol, escreve o deputado federal Aldo Rebelo, argumentando contrariamente à demarcação contínua da reserva indígena, tal como estabelecida pelo decreto presidencial que se encontra em julgamento no STF. Escrevem também Beto Ricardo, antropólogo, e Márcio Santilli, ex-presidente da FUNAI, em artigo em coautoria, argumentando em sentido contrário. Sobre as políticas afirmativas, em geral, e as cotas raciais, em particular, escrevem Marcelo Paixão e Flávio Gomes, defendendo-as, e a antropóloga Yvonne Maggie, criticando-as.


Outro tema que merece destaque neste número da revista é o dos desafios que a eleição do agora empossado presidente Fernando Lugo coloca para as relações bilaterais entre Brasil e Paraguai. Os artigos a esse respeito retomam a preocupação com o entorno sul-americano, que esteve presente, com ênfase, no primeiro número da revista, em que Marco Aurélio Garcia e Rubens Barbosa expuseram visões de apoio, o primeiro, e de crítica, o segundo, à política externa do atual governo brasileiro em relação à região. A inovação, desta feita, é que, pela primeira vez, convidamos um articulista não brasileiro para escrever sobre as relações entre o Brasil e os países vizinhos. No caso específico, o Paraguai. Além de seus méritos intrínsecos, o artigo do economista e sociólogo paraguaio Fernando Masi é importante para que a opinião pública brasileira possa compreender, embora não necessariamente subscrever, as razões pelas quais aquele país demanda mudanças significativas na lógica que regeu tradicionalmente as relações bilatérias com o Brasil. Sobre o mesmo tema, mas da ótica brasileira, escreve Ricardo Seitenfus, conhecido especialista em política internacional, que sustenta uma ‘atitude solidária’ em relação ao país vizinho.

Desnecessário dizer que as visões expressas nesses três pares de artigos não esgotam o conjunto das opiniões relevantes sobre os temas a que se referem. Há outras, às quais os editores da revista estão atentos e abertos a incluir em futuros números da publicação.


Ainda com relação a este número, cabe chamar a atenção para os artigos de Alexander Triebnigg, presidente da Novartis do Brasil, sobre a internacionalização da indústria farmacêutica brasileira, e de João Paulo Soares Alsina Jr., diplomata, sobre defesa nacional. O primeiro remete ao artigo de Glauco Arbix sobre desenvolvimento e inovação publicado no número anterior. E o segundo aos artigos do ministro Nelson Jobin e do almirante Mario Flores, também publicados no número ante rior. Triebnigg aponta e analisa a participação crescente da indústria farmacêutica brasileira, inclusive de empresas de capital nacional, nos processos produtivos globais de produção de medicamentos. Movimento insipiente, mas promissor, ressalta o autor. Por sua vez, Alsina Jr. põe em xeque o que descreve como mitos a respeito da desnecessidade de o país contar com Forças Armadas com maior poder de resposta, dissuasão e defesa para respaldar os interesses do país, no presente e no futuro previsível.


Sem que isso tenha sido planejado, a pauta deste número aponta para uma característica do desenvolvimento brasileiro: a necessidade de responder aos desafios do futuro, ao mesmo tempo em que se buscam respostas a questões não resolvidas em seu passado.


É nossa convicção de que o debate público de qualidade ajuda em ambas as direções.

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