29 maio 2023

Dança diplomática de Lula não é novidade para o Brasil – o que mudou foi o mundo ao seu redor

Postura brasileira, antes vista como uma busca progressiva por uma política externa autônoma e assertiva, agora está sendo interpretada como divisiva, inapropriada ou mesmo uma traição. Para historiador, essa visão ignora o histórico internacional de Lula e do Brasil, pois os esforços diplomáticos do país se concentram há tempos na promoção do multilateralismo e na pressão pela resolução pacífica de conflitos

Postura brasileira, antes vista como uma busca progressiva por uma política externa autônoma e assertiva, agora está sendo interpretada como divisiva, inapropriada ou mesmo uma traição. Para historiador, essa visão ignora o histórico internacional de Lula e do Brasil, pois os esforços diplomáticos do país se concentram há tempos na promoção do multilateralismo e na pressão pela resolução pacífica de conflitos

Por Rafael R. Ioris*

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um homem atualmente muito requisitado nos círculos internacionais.

Em abril, o líder esquerdista estava sendo cortejado pela China durante uma visita de alto nível a Pequim. A isso se seguiu, um mês depois, o convite para a cúpula do G7 no Japão, onde Lula conviveu com líderes das maiores economias do chamado Norte Global. Nas últimas semanas, o presidente do Brasil também esteve ocupado restaurando os laços regionais na América Latina e promovendo um caminho proposto para a paz na Ucrânia.

O turbilhão diplomático de Lula confundiu seus críticos. Ele foi acusado de “se aproximar” dos inimigos dos Estados Unidos ou “ficar em cima do muro” na Ucrânia.

‘Ações de Lula refletem dois elementos: um relacionado aos desenvolvimentos geopolíticos globais, o outro vinculado à visão de longa data do líder brasileiro’

Mas, como estudioso do Brasil e de sua posição no mundo, acredito que as ações de Lula refletem dois elementos principais: um relacionado aos desenvolvimentos geopolíticos globais, o outro vinculado à visão de longa data do líder brasileiro.

A ascensão da China e a guerra na Ucrânia enfatizaram que a realidade unipolar da década de 1990 – sob a qual os EUA eram a potência predominante – está sendo seriamente desafiada. Em seu lugar parece estar surgindo uma dinâmica bipolar em que Pequim e Washington lutam por influência – ou um mundo multipolar em que potências regionais competem pela hegemonia.

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Antecipando esta nova ordem mundial, as nações que se alinharam historicamente com o centro de poder da União Europeia-Estados Unidos – particularmente aqueles em lugares, como a América Latina – estão se reposicionando. Este parece ser o caso do Brasil, a maior nação e maior economia da América do Sul.

Diminuição da influência dos EUA na América Latina

Durante grande parte do século XX, o Brasil se desenvolveu em estreita cooperação econômica com os EUA, ao mesmo tempo em que conseguiu sustentar uma política externa amplamente autônoma.

Mas desde 2001, a influência dos EUA no Brasil diminuiu à medida que Washington desviou suas atenções da região para o Oriente Médio e depois para a Ásia. No mesmo período, a China substituiu os Estados Unidos como o mais importante parceiro econômico do Brasil. Os números de 2021 mostram que a China recebeu 31% das exportações brasileiras, contra 11,2% dos Estados Unidos, e forneceu 22,8% de suas importações, contra 17,7% dos Estados Unidos.

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Revivendo o lulismo, fortalecendo os BRICS

Enquanto isso, o retorno de Lula à Presidência em janeiro de 2023 abriu caminho para o renascimento de uma política externa ambiciosa e assertiva traçada pelo líder durante seu primeiro mandato, entre 2003 e 2010.

Durante esse período anterior, o metalúrgico que se tornou presidente conseguiu manter boas relações com os governos Bush e Obama, ao mesmo tempo em que buscava diversificar os parceiros econômicos e geopolíticos do Brasil, especialmente no Sul Global.

Ele também desempenhou um papel central na criação do BRICS, um bloco multilateral vagamente definido que consiste em Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O bloco ajudou a remodelar o equilíbrio econômico e geopolítico do mundo nas últimas duas décadas.

Desde que voltou ao poder, Lula buscou fortalecer o banco BRICS – agência financiadora de projetos de desenvolvimento no Sul Global que oferece uma alternativa financeira ao Banco Mundial. Em uma demonstração de intenção, Lula pressionou pela nomeação da ex-presidente brasileira – e sua ex-chefe de gabinete – Dilma Rousseff para chefiar a agência.

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Assim como em sua agenda doméstica de reconstrução dos programas sociais, abalada por seu antecessor Jair Bolsonaro, na arena internacional Lula busca retomar seu projeto de estreitar os laços do Brasil com diversos parceiros. Em seu primeiro mês no cargo, Lula participou de uma reunião da Comunidade de Nações da América Latina e Caribe (CELAC), na Argentina, onde manifestou o desejo de fortalecer as relações do Brasil na região.

Logo depois, ele visitou o presidente Joe Biden em Washington, onde os dois líderes expressaram seu desejo mútuo de promover a democracia e pressionar por um caminho de desenvolvimento ambiental mais saudável, particularmente na região amazônica.

Concluída a viagem, Lula visitou a China para aprofundar as relações comerciais e tentar liderar um esforço de paz para a guerra na Ucrânia. Em seguida, foi à Europa para se encontrar com aliados tradicionais, como Espanha e Portugal.

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Diplomacia divisiva ou dinâmica?

Considerando tudo, essa abordagem de “muitos amigos” não é tão diferente das experiências de Lula há 20 anos. Naquela época, o Brasil foi amplamente recebido como uma força diplomática em ascensão no mundo em desenvolvimento. O presidente Barack Obama, durante uma reunião em 2009, destacou a “liderança voltada para o futuro de Lula… em toda a América Latina e em todo o mundo”.

O que mudou desde então foram os contextos doméstico e global em que Lula agora opera. E o que antes era visto como uma busca progressiva por uma política externa autônoma e assertiva agora está sendo interpretado por muitos no Brasil e no Ocidente como divisivo, inapropriado ou mesmo uma traição aos alinhamentos tradicionais do Brasil.

Tal visão, acredito, ignora não apenas o histórico internacional anterior de Lula, mas também uma perspectiva histórica mais ampla. Por mais de um século, os esforços diplomáticos do Brasil têm se concentrado na promoção do multilateralismo e na pressão pela resolução pacífica de conflitos.

‘Os sucessivos governos do Brasil perseguiram uma política de autodeterminação. A política externa brasileira tem servido bem ao país como instrumento de seu próprio desenvolvimento’

E enquanto se aproximava dos aliados ocidentais durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria, os sucessivos governos do Brasil – sejam eles progressistas ou conservadores, democráticos ou autoritários – perseguiram uma política de autodeterminação. Moldada por essa dinâmica, a política externa brasileira tem servido bem ao país como instrumento de seu próprio desenvolvimento.

A necessidade de um pacificador neutro

Como tal, as aberturas de Lula para parceiros comerciais tradicionais e novos não são surpreendentes. Tampouco seu plano é encontrar uma solução para a guerra na Ucrânia por meio da criação de um bloco neutro de países mediadores.

Ao participar da reunião do G7 em Hiroshima, Lula enfatizou a necessidade de negociações de paz não apenas para acabar com a tragédia em si, mas também porque estava desviando a atenção da comunidade global de outros assuntos, como aquecimento global e fome.

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Talvez algumas de suas declarações sobre a guerra pudessem ter deixado mais claro que ele considerava a Rússia a principal responsável pelo conflito – algo que pode ter desempenhado um papel no fracasso de uma reunião planejada com o líder ucraniano Volodymyr Zelenskyy no G7. Mas vale lembrar que a ideia de que países tidos como neutros, como o Brasil, podem ter mais chances de trazer a Rússia para a mesa de negociações é uma posição válida.

Não é do interesse do Brasil escolher um lado

Não está claro neste estágio inicial de sua nova presidência se Lula pode reviver o ato de equilíbrio internacional que ele realizou durante seu primeiro período de governo. O mundo mudou desde então e as disputas econômicas e geopolíticas parecem cada vez mais propensas a incluir uma dimensão militar, como mostra a guerra na Ucrânia. E embora o Brasil possa de fato desempenhar um papel pacificador, nenhum dos lados do conflito parece pronto para negociar ainda. Da mesma forma, a crescente rivalidade entre os EUA e a China será difícil de navegar – e, dados os laços econômicos históricos e atuais, o Brasil não pode se dar ao luxo de escolher um lado.

‘Não escolher um lado pode ser uma vantagem para o Brasil’

Na verdade, não escolher um lado pode ser uma vantagem para o Brasil. Foi somente após a visita de Lula à China que o governo Biden anunciou aumentar em dez vezes sua contribuição ao Fundo Amazônia. Fica claro, portanto, que em um mundo cada vez mais dividido, a posição não alinhada do Brasil pode ser o melhor caminho.


*Rafael R. Ioris é professor de história moderna da América Latina na University of Denver

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Este texto é uma republicação do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original, em inglês.


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional


Daniel Buarque é editor-executivo do portal Interesse Nacional. Pesquisador no pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP), doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. Jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de livros como "Brazil’s international status and recognition as an emerging power: inconsistencies and complexities" (Palgrave Macmillan), "Brazil, um país do presente" (Alameda Editorial), "O Brazil é um país sério?" (Pioneira) e "o Brasil voltou?" (Pioneira)

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