09 fevereiro 2023

Daniel Buarque: Contraste com Bolsonaro pode ajudar Lula a abrir portas para o Brasil no mundo

Apesar do impacto negativo do ex-presidente na imagem do Brasil e na sua projeção internacional, a comparação entre ele e o novo governo pode gerar boa vontade entre potências ocidentais e ajudar o país a conseguir reconhecimento e um papel importante na política global. Para o pesquisador britânico Paul Beaumont, Bolsonaro pode até acabar gerando um saldo positivo para o prestígio do Brasil

Apesar do impacto negativo do ex-presidente na imagem do Brasil e na sua projeção internacional, a comparação entre ele e o novo governo pode gerar boa vontade entre potências ocidentais e ajudar o país a conseguir reconhecimento e um papel importante na política global. Para o pesquisador britânico Paul Beaumont, Bolsonaro pode até acabar gerando um saldo positivo para o prestígio do Brasil

Cerimônia de posse de Luiz Inácio Lula da Silva na Presidência da República (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Por Daniel Buarque*

Em menos de dois meses desde que voltou ao poder, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz sua segunda viagem internacional e vai aos Estados Unidos se reunir com Joe Biden e deve tentar conquistar espaço para o Brasil em importantes discussões de política internacional. O ambiente parece promissor, pois o fim do governo de Jair Bolsonaro e a declaração de Lula sobre a “volta” do país a uma posição de protagonismo internacional criaram grande expectativa sobre o nível do prestígio brasileiro no mundo. Pesquisas são claras em apontar que Bolsonaro piorou a imagem e o status do país, enquanto as primeiras reações de líderes internacionais e da imprensa estrangeira apontam para um otimismo em relação ao novo governo –especialmente por conta da questão ambiental. 

Para o pesquisador britânico Paul Beaumont, o contraste entre as políticas externas dos dois presidentes ajudam a ampliar a boa vontade internacional em relação ao Brasil. “Curiosamente, Bolsonaro pode até acabar gerando um saldo positivo para o prestígio do Brasil”, disse, em entrevista à Interesse Nacional.

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Para ele, o país sobreviver ao governo de Bolsonaro, continuar sendo uma democracia e ter agora a volta de Lula ao poder “pode levar o Ocidente, o Norte Global, a celebrar o novo governo e dar ao país todo o reconhecimento internacional que ele almeja ter. Pode abrir todas as portas em grandes grupos de decisão política, oferecer assento nas mesas de discussão. Isso pode ter um bom retorno financeiro também, especialmente em relação à Amazônia”, explicou. 

Beaumont é pesquisador sênior do Instituto Norueguês de Relações Internacionais (NUPI), com atuação no grupo de estudos de ordem global e diplomacia. Ele é doutor em relações internacionais pela Norwegian University of Life Sciences. Sua pesquisa foca o funcionamento (ou não) das instituições internacionais, políticas ambientais globais, hierarquias em política mundial e outros assuntos. 

Ele é coautor do capítulo Brazil’s Status Struggles: Why Good Guys Finish Last, parte do livro Status and the Rise of Brazil, que avalia diferentes aspectos da construção do prestígio internacional do Brasil. No texto, ele desenvolve uma análise sistemática do desempenho do status do Brasil entre 1970 e 2010 e argumenta que o país não apenas apresenta desempenho inferior em comparação com seus recursos de status, mas também desempenho pior do que qualquer um de seus pares do BRICS. 

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Na entrevista concedida no fim de 2022, ele desenhou um cenário otimista para a reconstrução do status do Brasil após a saída de Bolsonaro do poder.

“Acho pouco provável que Bolsonaro tenha afetado o status do Brasil de forma permanente. Outros países, como os EUA, passaram por problemas parecidos. Se ele tivesse sido reeleito, talvez seu impacto fosse maior, mas como ele perdeu a eleição, é provável que o país consiga recuperar seu prestígio”, disse. 

Parte da explicação dele é que a imagem do país até pode variar, mas o status é construído em larga medida por atributos mais duradouros, como o tamanho da economia, a importância do país nas trocas internacionais, e isso não se perde com um governo que tenha atuado contra a projeção tradicional do país no exterior. “Além disso, o Brasil era uma potência emergente antes de Bolsonaro, e esse não é um status muito difícil de atingir ou manter. A democracia brasileira parece ter sobrevivido a Bolsonaro”, explicou.

Além disso, Beaumont ressalta que a política climática se tornou muito mais evidente no mundo nos últimos anos, o que pode ajudar na projeção do país. Essa pode ser uma boa forma de o Brasil conseguir alcançar um status de grande potência, por meio de iniciativas ambientais de grande escala. Existe um grande espaço no mundo e também haveria um grande reconhecimento para um país liderar de maneira significativa as soluções climáticas. Este é um papel para o qual o Brasil está preparado para assumir, especialmente com um governo que reverta a postura de Bolsonaro. Se Lula conseguir reduzir a destruição ambiental, também receberá alguma ajuda internacional. Esse pode ser o melhor caminho para ajudar o país a encontrar um papel global significativo”.

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Apesar do otimismo e da percepção de que o ambiente é o caminho para a projeção do país, o pesquisador ressaltou que nem tudo vai ser fácil para o novo governo brasileiro.

“Quando Lula fala sobre a ideia de que o Brasil está de volta no mundo, eu pergunto ‘qual mundo?’ Em primeiro lugar porque o mundo mudou desde que o Lula foi presidente pela primeira vez, e não está totalmente claro para mim que ele compreende isso. Por outro lado, agora há pelo menos dois mundos diferentes dentro da discussão sobre status. Um deles está ligado à compreensão liberal do status quo e do que faz com que um estado seja melhor ou pior do que outro e esteja acima ou abaixo na hierarquia global. Mas há também uma  concepção alternativa e poderosa, defendida pela extrema-direita internacional, que rejeita a compreensão do status quo sobre a hierarquia de status tradicional”, disse.

Para ele, esse é o caso dos BRICS, por exemplo. Um clube que se transformou desde os primeiros mandatos de Lula e que agora vive uma outra realidade dentro das disputas internacionais por poder. Dessa forma, não vai ser tão fácil para o Brasil se equilibrar entre o Ocidente e os BRICS em sua atuação internacional. 

“Lula tentou construir pontes entre diferentes interesses globais, mas a distância entre a Rússia e os EUA, por exemplo, cresceu muito nos últimos anos, o que dificulta essa construção de uma ligação. A China e a Rússia defendem a ascensão da ordem multipolar no lugar da hegemonia liberal Ocidental, e eles têm um público que segue este pensamento. Mas o Ocidente liberal tem outra crença, então o desafio para Lula navegar em ambos os lados é muito maior do que no passado.”


*Daniel Buarque é colunista e editor-executivo do portal Interesse Nacional, doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor dos livros “Brazil, um país do presente” (Alameda) e “O Brazil É um País Sério?” (Pioneira).


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional


Daniel Buarque é editor-executivo do portal Interesse Nacional. Pesquisador no pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP), doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. Jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de livros como "Brazil’s international status and recognition as an emerging power: inconsistencies and complexities" (Palgrave Macmillan), "Brazil, um país do presente" (Alameda Editorial), "O Brazil é um país sério?" (Pioneira) e "o Brasil voltou?" (Pioneira)

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