12 outubro 2023

Daniel Buarque: Em meio a conflitos, Brasil pode aproveitar presidência do Conselho de Segurança para tentar negociar paz e ampliar seu status

Visto tradicionalmente como país que não toma decisões e fica em cima do muro, o Brasil não é reconhecido como ator importante nas grandes questões globais. Em novo contexto de tensão internacional, país pode aproveitar a liderança na principal instituição da ONU para mudar sua imagem e se mostrar relevante para a segurança global

Visto tradicionalmente como país que não toma decisões e fica em cima do muro, o Brasil não é reconhecido como ator importante nas grandes questões globais. Em novo contexto de tensão internacional, país pode aproveitar a liderança na principal instituição da ONU para mudar sua imagem e se mostrar relevante para a segurança global

Reunião do Conselho de Segurança da ONU, presidido pelo Brasil (Foto: ONU News)

Por Daniel Buarque*

O brutal ataque terrorista do Hamas contra Israel, a subsequente declaração de guerra pelo governo israelense e a escalada da violência na região tornaram ainda mais tenso o contexto geopolítico global que já vivia um perído de complexas disputas internacionais, como a longa guerra da Rússia contra a Ucrânia. A situação tem o potencial de colocar o Brasil em um papel de destaque, já que ocupa a presidência do Conselho de Segurança da ONU (CSNU) desde o início do mês. O país é atualmente responsável por pautar as principais discussões, convocar reuniões e liderar o mais importante órgão responsável pela manutenção da paz no mundo, buscando mediação de conflitos internacionais e soluções para disputas. 

O Brasil de fato agiu rapidamente em sua função, após os ataques contra Israel, e convocou uma reunião de emergência do Conselho de Segurança. Afirmou ainda que a continuidade do conflito não é uma “alternativa viável” e considerou ser “urgente a retomada de negociações de paz”. Durante a reunião emergencial do CSNU, em Nova York, o Brasil condenou os ataques contra civis na escalada do conflito entre israelenses e palestinos e pediu máxima contenção dos países. Além disso, o Brasil busca envolver a China e a Rússia nas negociações a fim de repudiar a ação do Hamas e iniciar negociações de paz. O Itamaraty informou que o status do Hamas e eventual classificação do grupo como uma organização terrorista serão tratados no âmbito do CSNU.

‘A percepção de muitos analistas de política externa é que o Brasil não tem poder de fato para influenciar os rumos da disputa entre israelenses e o Hamas’

Apesar desta proatividade, a percepção de muitos analistas de política externa é que o Brasil não tem poder de fato para influenciar os rumos da disputa entre israelenses e o Hamas. Para começar, o cargo de presidência da instituição tem duração de apenas um mês, e o peso do país também é limitado pelo fato de o seu assento temporário ter validade apenas até o fim do ano, quando deixa de fazer parte do CSNU.

Indo além da função do país no conselho, o Brasil realmente não tem prestígio suficiente para influenciar de forma decisiva a situação do conflito entre Israel e o Hamas. Isso porque status é um atributo intersubjetivo, que depende de como o país é visto pelos outros atores da comunidade internacional – especialmente os países com mais poder. E a percepção externa sobre o Brasil é que o país não tem relevância nas grandes questões de segurança internacional. 

Esta foi uma das conclusões da minha pesquisa de doutorado pelo King’s College London (em parceria com a USP), baseada em 94 entrevistas com a comunidade de política externa dos cinco membros permanentes do CSNU (EUA, Reino Unido, França, China e Rússia). Para essas grandes potências, o Brasil não é relevante em questões de segurança e perde a chance de ter um papel de peso por conta da sua tradição histórica de evitar escolher lados em disputas internacionais.

A percepção das potências é que o Brasil não possui hard power (poder militar e econômico) suficiente para ser importante como uma potência

A percepção das potências é que o Brasil não possui hard power (poder militar e econômico) suficiente para ser importante como uma potência, e por isso não consegue ter uma voz forte nas questões do “grande jogo” da segurança internacional. Este foi um dos nove temas desenvolvidos, a partir da análise das entrevistas conduzidas em minha pesquisa, e ajuda a explicar por que o Brasil não é considerado uma prioridade para essas potências.

Mesmo que o país possua alguns atributos relacionados ao hard power, como população e território (além de ter poder militar relevante), os dados indicam que as grandes potências veem o Brasil como um país pacífico e com poder bruto insuficiente para fazer diferença em grandes disputas. Além disso, o país está longe de grandes ameaças e conflitos, não precisa de hard power e não busca esse tipo de poder. Isso faz com que a voz do país tenha limites e ele não tenha capacidade para influenciar estas questões globais. 

Esses dados sobre o status brasileiro tendem a confirmar a ideia de que, mesmo presidindo o órgão mais importante sobre questões de guerra e paz no planeta, o Brasil não teria condições de ser decisivo nas negociações pelo fim do conflito. 

Mas as entrevistas com elites das grandes potências também revelam que a atuação brasileira em um contexto como o atual poderia servir para impulsionar o seu nível de prestígio internacional.

‘Enquanto não é visto como tendo força para influenciar os conflitos, o Brasil pode elevar o seu status por outras vias – institucionais e multilaterais – incluindo a atuação atual no CSNU’

Ainda que a resolução do conflito em um curto período seja de fato improvável, e que a perspectiva seja de que a guerra vai ser longa, esta é uma oportunidade para o Brasil tentar deixar rapidamente uma marca. Enquanto não é visto como tendo força para influenciar os conflitos, a percepção dessas potências é de que o Brasil pode elevar o seu status internacional por outras vias – institucionais e multilaterais – incluindo a atuação atual no CSNU.

Os dados da pesquisa mostram que o Brasil pode seguir caminhos “alternativos” à busca por poder bruto para tentar aumentar seu status internacional. Entre eles, estão o multilateralismo e a construção de um papel relevante em instituições internacionais, assim como a atuação em mediações de conflitos e a competência e profissionalismo da dipomacia brasileira. A fim de desfazer a impressão desfavorável sobre a sua importância global, o Brasil pode se aproveitar desses “trunfos” na sua busca por status e da sua posição de destaque no principal fórum mundial de negociações de guerra e paz.

Neste contexto de agressões, conflitos e riscos internacionais, o Brasil se encontra em uma posição privilegiada para tentar minimizar uma percepção problemática construída ao longo de décadas. À frente do CSNU, o país pode se esforçar para ter uma atuação marcante ao longo do mês, a fim de avançar na mediação de crises como a atual guerra na Faixa de Gaza. Mesmo com a baixa probabilidade de resolver todos os problemas em um curto espaço de tempo, ao defender ativamente o fim das agressões, levantar uma bandeira para a paz e se mostrar um país que pode ter influência positiva sobre questões importantes de segurança, o Brasil pode ajudar o planeta e melhorar seu status global.

https://interessenacional.com.br/edicoes-posts/daniel-buarque-lula-a-guerra-a-neutralidade-e-a-busca-por-um-lugar-entre-as-grandes-potencias/

*Daniel Buarque é colunista e editor-executivo do portal Interesse Nacional, pesquisador do pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP e doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor dos livros “Brazil, um país do presente” (Alameda) e “O Brazil É um País Sério?” (Pioneira).


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional


Daniel Buarque é editor-executivo do portal Interesse Nacional. Pesquisador no pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP), doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. Jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de livros como "Brazil’s international status and recognition as an emerging power: inconsistencies and complexities" (Palgrave Macmillan), "Brazil, um país do presente" (Alameda Editorial), "O Brazil é um país sério?" (Pioneira) e "o Brasil voltou?" (Pioneira)

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