Edição 50

Ano 13

Número 50
Julho - Setembro de 2020

A pandemia romperá o mais atávico tabu na educação: a introdução de modernas tecnologias nas salas de aula do ciclo acadêmico, uma barreira em quase todos os países”, aposta Claudio de Moura Castro, economista, professor e especialista em educação.

“O liberalismo primário, que hoje pauta a política econômica no país, será imperiosamente revertido. Será uma oportunidade para revalorizar o Estado e a política, para transformar o nosso Estado cartorial e patrimonialista num Estado eficiente e a favor da população”, antevê André Lara Resende, economista, ex-presidente do BNDES e ex-diretor do Banco Central.

“Os impactos sociais da Covid-19 serão de longa duração. O desemprego será brutal. As regras de flexibilização trabalhista terão de ser prorrogadas. Elas perderão potência com o avanço da crise. O problema do déficit fiscal por elas gerado terá de ser resolvido no futuro. Os brasileiros em geral ficarão mais pobres e mais desiguais”, resume José Pastore, professor na Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo (USP).

Nesta pandemia, se exacerbam todas as percepções sobre a realidade. A edição 50 reflete a preocupação com a marcha à ré da economia e das conquistas até aqui alcançadas. Os artigos também mencionam os desafios com os quais conviveremos por um bom tempo e lançam ideias e sugestões para a reconstrução do Brasil.

De repente, o novo vírus, altamente contagioso, alterou de forma inédita os padrões sanitários, de costumes, a produção industrial, os serviços, o comércio, o consumo, a vida em sociedade, tudo! Em consequência, passaram a ser adotados protocolos e medidas para enfrentar a atual pandemia de Sars-Cov-2.

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) fez um plano de retomada da economia para ser usado no momento de iniciar a flexibilização. Segundo o presidente Paulo Skaf, a entidade elaborou protocolos sugerindo regras de nova convivência social, para reduzir a propagação da Covid-19 até o surgimento de uma vacina. O plano foi enviado a todas as esferas de governo e está disponível no site da Fiesp.

A crise econômica associada à pandemia chegou em um momento bastante delicado para a América Latina, que já enfrentava desaceleração econômica, queda das exportações, aumento da informalidade, da pobreza e da desigualdade, crises fiscais e perspectivas de crescimento econômico modesto. O artigo que escrevem Jorge Arbache e Marcelo dos Santos, do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), mostra como os bancos multilaterais de desenvolvimento podem ajudar os governos a enfrentar os desafios da pandemia.

O debate sobre o papel do Estado tem uma importância crucial, pois o aumento da pobreza e do desemprego demandará políticas públicas vigorosas para que a recuperação se faça mais rápida.

“Não há como enfrentar a crise provocada pela pandemia sem a ação do Estado”, defende André Lara Resende, no artigo que abre a edição.

“O isolamento, imposto por lei ou por medo do contágio, provoca uma parada brusca na economia. Diferentemente da crise financeira de 2008, essa é uma crise da economia real, uma queda simultânea da demanda e da oferta. Para evitar que se transforme também numa crise financeira, é necessário que o governo, através do Banco Central, injete liquidez no sistema financeiro.” Continua Lara Resende: “Além da injeção de liquidez, da expansão do crédito, o Estado, em todas as suas instâncias, será obrigado a gastar para enfrentar a crise humanitária provocada pela epidemia. Será preciso reforçar o sistema de saúde pública e pôr em prática políticas sociais compensatórias”.

O artigo do professor José Pastore revela um quadro preocupante: a crise da Covid-19 afetará os países emergentes por cinco anos, sendo que no Brasil, a redução do trabalho e renda atingirá mais de 80% da população. “Prevê-se uma recessão gravíssima, prolongada e inédita. A pandemia lesionará também a classe média. Profissionais mais qualificados, desempregados e/ou substituídos por tecnologias tendem a descer na escala social, o que gera frustrações e compromete a coesão social. Muitos empregos serão perdidos para sempre. Será um tempo de muita apreensão”.

Maria Paula Dallari Bucci, professora da Faculdade de Direito da USP e ex-secretária de Educação Superior do Ministério da Educação, reflete sobre a reconstrução do Estado social brasileiro (políticas públicas e reformas). “O grande tema da agenda da reconstrução, o papel do Estado, deve ser tratado nos marcos da Constituição de 1988, em que atualmente já se defrontam duas posições. A eleição de Bolsonaro e o que ela significou em termos de agressão às bases da democracia sugerem, para alguns, que a Nova República, iniciada com a redemocratização em 1985, pode ter chegado a um limite. A isso se soma uma leitura ‘cosmética’ que outros fazem da CF 88, considerando que seria a oportunidade de “passar a limpo” o seu texto. Há posições à esquerda e à direita que defendem essa revisão. Para o lado conservador, isso significaria retirar os ‘excessos de direitos’ e as ‘garantias corporativistas’; para outros, conferir mais funcionalidade ao texto”, diz Maria Paula.

“A tecnologia trouxe apenas duas grandes revoluções para a escola. A primeira foi a invenção da escrita. A segunda foi o livro. Com alguns pânicos e engasgos, ambas acabaram sendo digeridas. Mas, praticamente, os avanços pararam por aí.” A avaliação de Claudio de Moura Castro é que a pandemia do novo coronavírus provocará a entrada da tecnologia em sala de aula. “Fora do acadêmico, usa-se tudo. Na escola, nada” exagerando um pouco, mas não muito.” Tecnologia é a aliada de grandes empresas e de instituições dedicadas à formação para o mundo dos negócios, diz. “Entram em cena computadores, vídeos, EAD, realidade aumentada, chatrooms e por aí afora. Em outras palavras, nos deparamos com um divisor de águas espantosamente impermeável.”

O artigo “Notas Sobre a C&T no Brasil Depois da Pandemia”, de Carlos Henrique de Brito Cruz (Instituto de Física, Unicamp), Hernan Chaimovich (Instituto de Química, USP), Luiz Nunes de Oliveira (Instituto de Física de São Carlos, USP), Renato H. L. Pedrosa (Instituto de Geociências, Unicamp) e Roberto G. S. Berlinck (Instituto de Química de São Carlos, USP), mostra como a contribuição de pesquisadores brasileiros na compreensão da pandemia e nas sugestões e recomendações ao poder público para enfrentá-la tem sido notável. “Pesquisadores do Brasil determinaram, em apenas 48 horas depois de identificado o primeiro caso local, a estrutura do RNA do vírus, permitindo conhecer características da infecção e o caminho do contágio. Profissionais e pesquisadores do Sistema Único de Saúde (SUS) trabalharam, muitas vezes em colaboração com colegas estrangeiros, para aperfeiçoar modelos epidemiológicos para orientar providências sanitárias. Empresas com capacidade tecnológica desenvolvida localmente se engajaram na produção de respiradores e tomógrafos. Pesquisadores de universidades e institutos criaram protótipos de respiradores emergenciais de baixo custo. Universidades e institutos, como Butantan e Fiocruz, desenvolveram capacidade própria para desenvolver e coordenar testes diagnósticos. Não menos importante tem sido o papel de cientistas sociais e cientistas políticos, conhecedores dos desafios engendrados pela crônica desigualdade social existente no país. Tudo isso foi feito vencendo dificuldades, mas o que importa é que foi e está sendo feito.”

O velho multilateralismo, provado em tantas crises, neste momento estende suas mãos para o enfrentamento da pior epidemia depois da gripe espanhola, em 1918-1920, como mostram Jorge Arbache e Marcelo dos Santos, da CAF, que está focando em ações de apoio à produtividade. Estruturou um programa para dar apoio financeiro e técnico especializado aos bancos de desenvolvimento nacionais e subnacionais. Os recursos serão destinados prioritariamente às micro, pequenas e médias empresas. Um segundo programa visa apoiar empresas microfinanceiras para que tenham melhores condições de liquidez.

Enormes desafios para o comércio exterior brasileiro estão à vista no cenário internacional, como alerta o artigo de Rubens Barbosa, presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice) e ex-embaixador em Londres e Washington. O plano de recuperação da União Europeia, depois da Covid-19, inclui uma política industrial e uma política ambiental (European Green Deal), que, entre outras medidas, prevê punição para empresas que importarem produtos provenientes de áreas de desmatamento florestal, diz Barbosa. Para não dificultar a expansão do comércio de produtos agrícolas, ele sugere ajustes na política de meio ambiente, com medidas e ações concretas para preservar a floresta amazônica. “Essas medidas precisariam ser implementadas para evitar o risco de não ratificação desses acordos comerciais por parlamentos cada vez mais influenciados por partidos verdes contrários à aprovação de acordos com o Brasil.”

Os Editores



NOTA DOS EDITORES
: Como consequência da pandemia da Covid-19, Interesse Nacional, depois de 50 edições, deixa de ser impressa e passa a ser publicada de forma digital. A revista pode ser acessada no site www.interessenacional.com. A edição impressa está suspensa até segunda ordem.

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